Tony ainda está confuso, enquanto observa o ódio que cerca eu e o seu amigo. Aposto que ele está tentando buscar em sua mente razões plausíveis para esse comportamento de nós dois, talvez ele não conheça muito bem o amigo que tem, ou é tão b****a quanto o Tristán. Afinal, as pessoas andam com quem elas se identificam.
Eu não sou a favor de julgar as pessoas sem antes conhecê-las, mas costumo ter uma aversão imediata por pessoas que andam, batem papo e convivem com o Tristán, tamanho é o meu ódio por ele e por tudo o que ele representa.
Nós sempre tivemos problemas, isso é um fato, mas tenho a impressão que eu passei a odia-lo muito mais, após ele ter causado o meu acidente propositalmente. Não entra na minha cabeça o quão m*****o uma pessoa tem que ser, para ter esse tipo de atitude em prol de ganhar uma corrida.
Isso é a minha profissão, é importante para mim, mas eu jamais faria algo assim contra alguém.
- Ela pilota também, nos conhecemos trabalhando. – é o Tristán quem responde o amigo.
Tony encara ele, mas logo o seu olhar está em mim, com ele esboçando um sorriso radiante.
- É sério que você pilota? Que demais! – fala animado e parece genuinamente feliz com essa informação.
- Sim. Seu amigo só esqueceu de contar o quão escroto ele é, desde o momento em que me conheceu, e que ele causou o meu último acidente, propositalmente. – falo com um certo ódio.
Tony arregala levemente os olhos e encara novamente o Tristán, impedindo que eu veja a sua feição.
- Você fez isso? – pergunta em choque.
- Claro que não! Eu não tenho culpa se ela é uma pilota r**m.
- Pilota r**m? Se bem me lembro, eu ganhei a última corrida. – falo convencida e vejo o seu ódio aumentando com a minha fala.
Tristán começa a se aproximar de mim, mas o Tony é rápido em colocar uma de suas mãos no peito dele, o parando na mesma hora.
- Chega, cara! Você devia parabenizar ela pela vitória.
- Parabenizar? A Sophie?! Isso é uma piada? – questiona debochado e eu suspiro.
- É uma pena que alguém tão legal como você, Tony. Ande com companhias tão ruins. – sinto os meus ombros caírem e agarro as minhas malas mais uma vez, pronta para me trancar no meu apartamento e me esquecer de quem é o meu vizinho e do quanto essa situação toda é irritante.
Tony me olha com atenção e eu vejo o Tristán espumando.
- Companhias ruins? Você já foi mais criativa.
Resolvo ignorar o comentário do Tristán, não querendo prolongar o meu sofrimento e me desgastar atoa.
Giro os meus calcanhares e começo a puxar as minhas malas em direção ao apartamento, até ouvir alguém se aproximando e uma das minhas malas ser tomada da minha mão, de forma gentil.
- Deixa que eu te ajudo. – Tony diz ao meu lado, agarrando a outra mala também.
- Espera, cara. Você vai mesmo ajudar ela? – o desdém que ele usa para se referir a mim é nojento.
- Tristán, para de ser um b****a, pelo menos uma vez na vida. – Tony rebate de forma impaciente. – Vá buscar a nossa comida.
Destranco a porta do meu apartamento e abro espaço para que o Tony entre com as minhas malas e assim ele faz, meus olhos desviam e eu vejo o Tristán murmurando algo irritado, enquanto caminha até o elevador.
Entro no apartamento e sinto os meus olhos brilhando com o que eu vejo. A sala é enorme, tão grande que uma tv que deve ter mais de sessenta polegadas, parece pequena nela.
A Tv está em um painel lindíssimo, que acompanha uma rack vazia. O sofá é cinza escuro e é em L, de onde estou eu consigo ver a sala de jantar, que tem uma mesa enorme e um corredor.
Eu estou apaixonada por esse apartamento!
De frente para mim e próximo ao sofá, tem uma janela gigantesca, que me dá a visão perfeita da cidade. Vou precisar comprar cortinas, porque a claridade que vem dali é intensa.
- Nossa! – é o que eu consigo dizer.
Tony me observa sorridente, a uns cinco passos da porta, tinha um degrau e o Tony já havia o descido e deixado as minhas malas na sala.
- Você não sabia como ele era? – pergunta curioso.
- Não fazia ideia. Ter o Tristán como vizinho vai valer a pena no final dos contas, olha esse apartamento!
Começo a andar por ele, observando tudo com atenção e já pensando na decoração que eu faria por aqui. Quero ajeitar tudo e deixar tudo perfeito!
- Acho que vocês vão dar um jeito de conviver em paz.
Viro para o Tony na mesma hora e n**o com a cabeça.
- Você é uma pessoa bem otimista.
Ele ri baixo.
Uma parede em específico da sala chama a minha atenção, porque eu já conseguia visualizar as minhas prateleiras montadas ali, para que eu colocasse os meus poucos livros nela. Depois que inventaram o k****e, eu parei de comprar livros físicos.
- No que está pensando? – Tony encara a mesma parede que eu.
- Que quero montar a minha prateleira ali. Existe alguma chance de você conhecer alguém que faça isso?
Tony não parecia ser australiano, o seu sotaque não parece ser daqui.
- Eu posso fazer para você. – ele sugere. – Estava ajudando o Tristán a montar algumas coisas no apartamento dele, mas ele vai entender se eu parar um pouco lá, para te ajudar aqui.
- Ele vai entender? Ah, eu duvido!
Tony da risada.
- Tudo bem, talvez ele não entenda. Mas a sugestão ainda está de pé.
Encaro o Tony por alguns segundos, pensando se era uma boa ideia aceitar a ajuda de uma pessoa que se considera amiga do Tristán.
Solto um suspiro e resolvo parar de pensar tanto e simplesmente responder.
- Tudo bem.
- Vou pegar as ferramentas. – ele fala com calma e sai do meu apartamento.
Só espero não me arrepender disso.
Tony demora alguns minutos para voltar e aproveito esse tempo para levar as minhas malas até um dos quartos do apartamento, já que ele tinha três. Muito incrível, eu sei!
Em uma das malas eu tinha trago as partes da minha prateleira, que era bem pequena, por isso eu quis trazer. Deixei essas partes na sala e foi o tempo do Tony voltar, ele deu uma batidinha na porta.
- Pode entrar.
Ele entra e deixa a porta aberta, o que me deixa confusa.
- Vou deixar assim para você se sentir mais segura. – fala com calma e eu admiro a sua preocupação.
Ele encara as partes da prateleira e me olha.
- A onde exatamente você quer colocar?
Mostro para ele o lugar na parede onde eu quero e ele marca o local com um lápis, vendo as medidas direitinho. Tony parece estar bem familiarizado com esse tipo de trabalho.
Me sento no sofá e observo ele checando algumas coisas, antes de colocar a prateleira na parede.
- Como você conheceu o Tristán? – pergunto do nada.
- Eu fui namorado de uma prima dele e como os dois eram como irmãos, acabamos nos tornando amigos. – percebo um pesar estranho em sua voz, ao falar isso.
Eram? Por que não são mais?
- Ela não ligou de você continuar sendo amigo do Tristán, mesmo após o término de vocês?
Tony solta um pigarro e antes que ele possa me responder, o Tristán surge na porta da minha casa.
- Estou com a comida, Tony. Será que podemos comer? – ele pergunta entediado, enquanto segura uma sacola.
- Eu já vou, só vou colocar a prateleira para a Sophie. – Tony diz de forma tranquila.
- Tenho certeza que o namoradinho dela pode fazer isso depois. – ele fala com uma certa raiva e o Tony solta uma risadinha.
- O namoradinho dela não está aqui agora, então eu vou ajudar.
- Eu não tenho namoradinho nenhum. – falo rapidamente e encaro o Tristán seriamente.
- Deveria avisar isso para aquele o****o que fica andando atrás de você então, o cara parece um cachorrinho. – ele fala e solta uma risada.
- Deve ser uma m***a ser você, não é? Você gasta todo o seu tempo criando provocações para me atingir, isso não é cansativo?
- Cansativo? Jamais. É divertido pra caramba.
- Que bom, então arrume uma garota para isso, não sou obrigada a ficar ouvindo a sua voz. – cruzo os meus braços e encaro o Tony, que parece totalmente concentrado em seu trabalho, ignorando completamente as minhas implicâncias com o Tristán.
- De tantos pilotos capacitados, a Voxx tinha que contratar logo você? – ele cruza os braços e parece verdadeiramente chocado com isso.
- Acredita que eu penso o mesmo ao seu respeito? Eles tinham pilotos verdadeiramente bons, mas escolheram um que só ganha se trapacear.
Eu sabia que questionar as habilidades dele em sua profissão, era uma provocação e tanto, por isso eu fiz, e não sinto arrependimento nenhum por isso. Minha empatia em relação a esse homem é inexistente.
Tristán solta uma risada sem vida.
- Você deveria ficar feliz de eu ser o único que faz uma corrida bacana com você, já que os outros pilotos simplesmente deixam você ganhar.
Eu o encaro de forma severa. Ele está querendo dizer que eu só ganho porque os outros deixam? Isso só pode ser brincadeira!
Levanto do sofá em um pulo, sentindo o olhar atento do Tony em mim, enquanto eu caminho em direção ao seu amigo, com os pés firmes.
Paro na frente do Tristán e vejo o momento exato em que um sorrisinho surge em seu rosto.
- Acho bom você tomar cuidado ao andar na rua, Tristán. Porque se eu ver você dando mole, passo com o meu carro por cima de você! – falo raivosa e agarro a minha porta, vendo o sorriso em seu rosto se ampliar.
- Isso é uma ameaça, Sophie?
- Não, é uma promessa. – fecho a porta com tudo em sua cara, ouvindo o estrondo que a madeira faz ao bater no batente.
Desgraçado!
Eu sei que não deveria ficar ofendida com o que ele diz, mas é praticamente impossível não se ofender quando você está ciente de que esse é o pensamento da maioria dos caras que competem comigo. De duas, uma: Ou eles pensam que os outros estão facilitando para mim, e geralmente eles acham que essa ideia vem dos empresários por trás da Stock. Ou eles acham que eu dormi com alguém importante, para chegar a onde eu cheguei.
Infelizmente os pilotos que realmente acreditam em mim e no meu trabalho, são uma parcela muito pequena.
E eu achava que iria conseguir fazer amizade com essas pessoas, iludida demais.
- Tenho certeza que ele não quis dizer isso, Sophie. – minha mão está apoiada na porta e a minha respiração está acelerada.
Por um momento, eu até me esqueci que o Tony ainda estava aqui.
- Não, Tony. Ele quis dizer sim. – falo baixo e solto um suspiro.
As vezes é desgastante você ter que se provar o tempo todo, sempre dando o seu melhor e ainda assim, as pessoas insistem na ideia de que você está ali por outra razão.
- Quer uma notícia boa? – me viro para ele na mesma hora e abro um pequeno sorriso.
- Sempre.
- A sua prateleira vai ficar incrível!
Solto uma risada e vejo ele começando a furar a parede, colocando a minha prateleira com muita eficiência e cuidado. E como ele disse, ficou lindo!
- Tony, você é muito bom nisso! Parabéns.
- Obrigado. – ele bate as mãos, uma contra a outra e junta todas as suas ferramentas. – Agora tenho que voltar para o apartamento do Tristán, não quer comer com a gente?
- Sem chance! – respondo na lata e ele ri. – Mas obrigada pelo convite e por ter colocado a prateleira para mim!
- Imagina! Pode me chamar, sempre que precisar. – ele fala gentil e eu sinto as minhas bochechas queimando.
Como um homem pode ser tão charmoso?
Acompanho ele até a porta e a abro, vendo o Tony saindo e se virando para me olhar.
- Nos vemos por aí? – questiono, o encarando com atenção.
- Nos vemos por aí! – ele sorri e se afasta do meu apartamento.
Fecho a porta e solto um longo suspiro, talvez isso funcione bem.