Pré-visualização gratuita Capítulo 1 - Primeiro Impacto
O relógio de pulso marcava exatamente 07:12 quando Júlia Andrade passou pela porta giratória da empresa. O saguão ainda estava mergulhado naquele silêncio calmo das manhãs, um contraste enorme com o barulho que as ruas de São Paulo já faziam lá fora. O chão de mármore brilhava tanto que parecia um espelho, e o cheiro de limpeza ainda pairava no ar, fresco e intocado. Júlia respirou fundo, sentindo uma satisfação silenciosa. Ela sempre chegava cedo. Não fazia isso por uma obrigação chata ou para tentar ganhar pontos com o chefe; ela fazia por pura estratégia.
Para Júlia, o controle era tudo. Chegar antes de todo mundo significava que ela podia organizar o caos antes mesmo dele começar a respirar. Ela gostava de observar o prédio vazio, as luzes se acendendo uma a uma conforme ela passava, como se fosse a dona daquele império por alguns minutos. Seus saltos altos batiam no chão com firmeza, criando um ritmo constante que combinava com sua postura reta e seu olhar focado. Ela não era do tipo que passava despercebida, mas também não era de fazer cena. Sua presença era construída nos detalhes: na roupa impecável, no cabelo preso sem um fio fora do lugar e na eficiência que ninguém conseguia superar.
Ao passar o crachá na catraca, o segurança apenas acenou com a cabeça. Ele já a conhecia bem. Todos ali estavam começando a notar a garota que nunca atrasava, a garota que resolvia problemas que nem eram dela e que ninguém sabia exatamente até onde pretendia chegar. Júlia entrou no elevador e apertou o botão do 27º andar. O andar da diretoria. Tecnicamente, ela ainda não deveria estar ali tão cedo, mas ela sabia que alguém precisava colocar ordem na bagunça que a gerência tinha deixado na noite anterior. E Júlia era muito boa nisso. Talvez, boa demais.
O elevador subiu em silêncio absoluto. Quando as portas se abriram, ela deu de cara com a recepção da diretoria, ainda na penumbra. Caminhou até sua mesa, largou a bolsa e ligou o computador. Em poucos minutos, seus dedos já voavam pelo teclado com agilidade. E-mails, reuniões, ajustes de horários e, o mais importante, a revisão dos relatórios financeiros que o gerente, Carlos, tinha deixado acumular por pura desatenção. Júlia odiava erros. Ver um número fora do lugar causava nela uma irritação física. Se algo saísse do controle, ela sentia como se o seu próprio mundo estivesse desmoronando, e ela não permitiria isso.
— Você chegou cedo de novo — uma voz divertida surgiu na porta da sala.
Júlia nem precisou levantar o olhar para saber que era Marina. Ela era o oposto de Júlia: sorriso fácil, sempre com um copo de café na mão e mestre na arte de chegar cinco minutos atrasada.
— Alguém precisa garantir que o dia comece certo, Marina — respondeu Júlia, sem parar de digitar.
— Ou você só ama o controle — Marina riu, encostando-se no batente. — Cuidado, Júlia. Desse jeito você vai acabar virando a dona desse prédio antes dos trinta, mas vai esquecer de como é ter uma vida lá fora.
— Eu apenas gosto de não me atrasar — Júlia retrucou de forma seca, mas sem ser grossa.
Marina deu de ombros e saiu, deixando o aroma de café para trás. O movimento no prédio começou a crescer por volta das oito horas. O silêncio foi substituído pelo som de passos rápidos, celulares tocando e conversas sobre a primeira reunião do dia. E com o movimento, veio a pressão que Júlia conhecia tão bem.
— Júlia! — Carlos apareceu de repente, com o rosto suado e a gravata ligeiramente torta. Ele parecia ter visto um fantasma.
— O que houve, Carlos?
— O Pedro... o senhor Villaça. Ele chegou mais cedo hoje e quer os relatórios financeiros agora. Os ajustes que eu te pedi ontem... eu não consegui terminar. Ele vai me matar!
Júlia sentiu uma fisgada de adrenalina. Pedro Villaça. O nome era falado em sussurros por todos os corredores. Ele era o CEO, o homem que comandava tudo com mão de ferro. Ele raramente aparecia antes das nove, mas quando o fazia, o prédio inteiro parecia prender a respiração.
— Já estão prontos, Carlos. Eu terminei tudo ontem.
Carlos arregalou os olhos, aliviado. — Sério? Você é um anjo! Me dá aqui, eu vou levar para ele.
Júlia segurou a pasta com um pouco mais de força. Algo dentro dela, uma vontade de testar seus próprios limites, falou mais alto. — Deixa que eu levo. Você parece que vai desmaiar a qualquer momento. Vá tomar uma água e se acalme.
Sem esperar uma resposta, ela se levantou. O corredor em direção à sala da presidência parecia mais longo do que o normal. Cada passo que ela dava era acompanhado pelo bater acelerado de seu coração. Ela parou diante da porta de vidro escuro. Era uma porta imponente, que parecia avisar que ali dentro as regras eram outras. Júlia bateu uma vez, com firmeza.
— Entra — a voz veio de dentro, grave e autoritária.
Júlia abriu a porta e o ar pareceu mudar instantaneamente. A sala era enorme, mas o que chamava atenção era o homem parado de costas. Pedro Villaça estava com as mãos nos bolsos, olhando a cidade pela janela. O terno escuro marcava seus ombros largos e a postura impecável denunciava um homem acostumado a ser obedecido.
— Os relatórios, senhor Villaça — disse ela, mantendo a voz profissional.
O silêncio que se seguiu foi torturante. Um segundo, dois... e então ele se virou devagar. O impacto foi imediato. Pedro tinha uma presença que parecia ocupar todo o espaço da sala. Seus olhos encontraram os dela de forma direta. Ele a avaliou com uma lentidão calculada, como um predador estudando uma nova presa.
— Você não é o Carlos — ele disse. Não era uma pergunta.
— Não, senhor. Me chamo Júlia Andrade. Trouxe os documentos que o senhor solicitou.
Pedro deu um passo à frente. Ele era alto, e conforme se aproximava, Júlia sentiu o perfume dele — algo que lembrava madeira e poder. O controle dela começou a oscilar.
— E por que uma funcionária do administrativo está me entregando relatórios financeiros? — Ele perguntou, parando perto demais.
— Porque os originais estavam errados e eu os corrigi. Achei mais eficiente resolver o problema do que entregar dados falsos.
Pedro olhou para a pasta e depois voltou a olhar para ela. Um brilho de curiosidade surgiu em seus olhos.
— Você costuma ultrapassar limites assim, Júlia? — A voz dele caiu um tom, tornando-se mais perigosa.
— Eu costumo resolver problemas, senhor.
Pedro não se aproximou. Ele permaneceu parado atrás de sua enorme mesa, os ombros largos enquadrados pela vista da cidade. Ele não precisava invadir o espaço dela para dominá-lo; sua presença era como um campo de força que ocupava cada centímetro da sala.
Ele apenas fixou os olhos nos dela. Não era um olhar sedutor, era um olhar de quem está fazendo uma autópsia. Júlia sentiu como se ele estivesse enxergando além da sua roupa de alfaiataria, além da sua postura reta, direto na sua insegurança escondida.
— Você tem muita confiança no seu próprio taco, Júlia — ele disse, o tom de voz era baixo e perfeitamente controlado, o que o tornava ainda mais ameaçador.
Ele pegou a pasta que ela havia deixado e, sem pressa, a jogou na gaveta lateral da mesa. O som da gaveta fechando ecoou como um veredito.
— Mas confiança sem hierarquia é apenas arrogância — ele continuou, a voz agora tão fria que parecia baixar a temperatura da sala.
— Então, guarde bem isso: eu valorizo a eficiência de quem resolve problemas. Mas eu não tolero, sob hipótese alguma, quem tenta tomar o controle que pertence a mim.
Ele inclinou levemente a cabeça, observando a reação dela com um interesse.
— O que você fez hoje foi um favor para o Carlos, mas foi um desafio para mim. Não se esqueça de qual é o seu lugar nesta empresa antes de decidir ultrapassar os limites de novo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Não havia faíscas românticas, apenas o peso esmagador de um superior deixando claro quem mandava. Pedro voltou sua atenção para o monitor do computador, descartando a presença dela como se Júlia fosse apenas mais um móvel no escritório.
— Pode sair, senhorita Andrade. E espero que a qualidade do seu trabalho seja tão alta quanto a sua audácia. Caso contrário, esta terá sido a sua última iniciativa aqui dentro.
Júlia sentiu o rosto esquentar, não de desejo, mas de uma mistura de humilhação e adrenalina. Ela apenas assentiu com a cabeça, um gesto curto, e girou sobre os calcanhares. Seus passos no corredor agora pareciam mais pesados. Ao fechar a porta de vidro, ela finalmente soltou o ar, sentindo o peso daquela sala sair de seus ombros.
Ela queria crescer na empresa, mas agora sabia o preço: Pedro Villaça não era um homem para se admirar, era um homem para se temer. O jogo tinha começado, e ela acabara de perceber que estava jogando contra um mestre que não aceitava perder.