Capítulo 5 — Aproximação Perigosa

2090 Palavras
Júlia leu a mensagem mais uma vez antes de apagar a tela do celular. “Você ultrapassou o limite hoje.” “Continue.” Simples. Direto. Irritantemente eficaz. Ela deixou o aparelho sobre a mesa de cabeceira e ficou olhando para o teto escuro do quarto, como se em algum ponto do branco surgisse uma explicação razoável para o que estava acontecendo. Não surgiu. Só o mesmo pensamento. Pedro Villaça não dizia nada por acaso. Cada frase dele parecia ter peso demais. Intenção demais. Controle demais. E o pior era que, pela primeira vez em muito tempo, Júlia não sabia exatamente o que fazer com isso. Ela não gostava de jogos confusos. Gostava de números certos. Ações objetivas. Resultados claros. Pedro não era claro. Era pior. Ele era preciso. E precisão demais, quando vinha daquele homem, parecia sempre carregar algum tipo de ameaça. Ou promessa. Júlia fechou os olhos. Dormir ajudaria. Não ajudou muito. Na manhã seguinte, ela chegou à empresa no horário de sempre. O saguão estava quase vazio. O silêncio das primeiras horas era uma das poucas coisas que ainda pareciam estáveis nos últimos dias. Ela passou o crachá e entrou no elevador sozinha. Quando as portas se fecharam, soltou o ar devagar. Precisava se reorganizar. Pedro continuava sendo o CEO. Ela continuava sendo funcionária. E qualquer coisa fora disso era distração. Perigosa. Inútil. Quase convenceu a si mesma. Quase. — Você está mais quieta hoje — Marina comentou assim que a viu. — Estou trabalhando. — Você sempre está trabalhando. Estou falando da sua cara. Júlia ligou o computador. — Minha cara está normal. — Sua cara está com a expressão de quem ou matou alguém ou beijou alguém. Júlia olhou para ela, seca. — Nenhuma das opções. Marina apoiou o quadril na mesa. — Então ele te mandou mensagem de novo. Silêncio. Só um segundo. Mas Marina arregalou os olhos. — Ah, meu Deus. Mandou. — Abaixa a voz. — O que ele disse? Júlia abriu um e-mail qualquer. — Nada demais. — Júlia. — Marina. A amiga cruzou os braços. — Você percebe que isso está deixando você nervosa, né? — Não está me deixando nervosa. — Então por que você respondeu mais rápido do que o normal? Júlia parou. Detestava quando Marina percebia detalhes. — Porque estou ocupada. Marina sorriu daquele jeito insuportável de quem sabia mais do que devia. — Claro. O dia seguiu sem qualquer chamado direto. Nenhuma mensagem. Nenhum bilhete. Nenhum recado de Renata. E isso deveria ter deixado Júlia aliviada. Não deixou. Porque a ausência dele, depois de tanta atenção, parecia outra forma de presença. Ela odiou perceber isso. Duas reuniões pela manhã. Uma revisão de contratos depois do almoço. Um problema no sistema às três da tarde. Tudo comum. Mas, no fundo, a expectativa continuava ali. Baixa. Incômoda. Como um fio invisível puxando sua atenção para o andar da diretoria. Às 16:12, o telefone tocou. Número interno. Júlia atendeu no primeiro toque. — Sim? — Sala de reuniões do vigésimo nono andar. Em cinco minutos. A voz de Renata veio objetiva, como sempre. — Para quê? — Ele quer você lá. A linha caiu. Júlia ficou olhando para o fone por um instante. Claro que era assim. Nada de contexto. Nada de explicação. Só uma ordem indireta dita como se fosse a coisa mais natural do mundo. — O que foi? — Marina perguntou. Júlia se levantou. — Reunião. Marina estreitou os olhos. — Reunião ou reunião? — Trabalho, Marina. — Uhum. Júlia pegou o tablet e saiu antes que a amiga pudesse dizer mais alguma coisa. O vigésimo nono andar era quase sempre vazio. Usado para apresentações fechadas, encontros reservados e decisões que não interessavam ao resto da empresa. O corredor estava em silêncio quando ela chegou. A porta da sala de reuniões principal estava entreaberta. Júlia bateu duas vezes antes de entrar. Pedro estava sozinho. A primeira coisa que ela percebeu foi isso. A segunda foi o fato de que ele já estava olhando para a porta, como se soubesse exatamente o momento em que ela chegaria. — Entre. Ela entrou. A sala era grande demais para duas pessoas. Mesa longa de madeira escura. Vidros fechados. Luz baixa o suficiente para tornar o ambiente mais íntimo do que deveria. Júlia ficou perto da entrada. — Renata disse que o senhor queria me ver. — Queria. Silêncio. Ela esperou. Pedro estava sem a gravata daquela vez. Os primeiros botões da camisa abertos num grau mínimo, mas ainda assim suficiente para tirar dele parte da rigidez habitual. O paletó estava sobre a cadeira. Menos formal. Mais perigoso. — Sente-se — ele disse. — Prefiro ficar em pé. Os olhos dele se moveram devagar sobre ela. Não com pressa. Nunca com pressa. — Eu não pedi sua preferência, Júlia. O tom não foi alto. Nem rude. O problema era justamente esse. Frio demais. Controlado demais. Ela se sentou. Na ponta mais próxima da mesa. Pedro não pareceu satisfeito. Mas também não comentou. Ele colocou uma pasta escura diante dela. — Revise. Júlia abriu. Era um rascunho de proposta comercial. Incompleto. Algumas cláusulas m*l formuladas, números inconsistentes, uma sequência de observações ainda sem fechamento. Ela franziu a testa. — Isso ainda não está pronto. — Eu sei. — Então por que me trouxe aqui? Pedro puxou a cadeira à frente da dela e sentou, invertendo o habitual. Não estava do outro lado da mesa. Estava perto. Direto na frente. — Porque quero ver como você trabalha sob pressão. Júlia ergueu o olhar. — O senhor já viu. — Não assim. Silêncio. Aquela sala parecia cada vez menor. — Qual é o prazo? — ela perguntou. — Agora. Ela soltou uma pequena risada sem humor. — Isso não é um prazo. Isso é provocação. O canto da boca dele subiu. — Então me prove que não funciona. Júlia desviou o olhar para os documentos. Era isso. Era um jogo. Ela já sabia. A questão era: por que ainda aceitava jogar? A resposta veio rápida demais. Porque queria vencer. Ela puxou o notebook da bolsa, abriu o arquivo e começou. Os primeiros minutos passaram em silêncio. Pedro não saiu da frente dela. Não pegou o celular. Não fingiu estar ocupado. Só ficou ali. Observando. Aquilo deveria ter atrapalhado. E atrapalhava. Mas também acendia uma parte irritante dela, aquela parte que se recusava a falhar justamente porque estava sendo observada. Júlia trabalhou rápido. Reestruturou cláusulas. Corrigiu projeções. Excluiu excessos. Refinou a lógica do texto. Quando terminou a primeira parte, ergueu os olhos. Pedro ainda estava olhando. Do mesmo jeito. Como se o tempo tivesse parado para ele. — Isso é estranho — ela disse antes de se conter. — O quê? — O senhor ficar olhando desse jeito. Ele inclinou a cabeça de leve. — E qual seria o jeito certo? — Um menos… invasivo. Pedro recostou na cadeira. — Você se distrai fácil? — Não. — Então continue. Júlia respirou fundo. Voltou ao documento. Mas agora estava mais consciente do que nunca do peso do olhar dele. Não era como ser observada por um chefe. Era como ser lida. Camada por camada. Detalhe por detalhe. E isso irritava porque a deixava exposta. Quando terminou, virou o notebook na direção dele. — Agora está pronto. Pedro se inclinou. Ficou perto demais. A manga da camisa roçou no braço dela quando ele apoiou a mão na mesa. O toque foi mínimo, quase inexistente, mas o corpo de Júlia reagiu como se tivesse sido muito mais. Ela permaneceu imóvel. Pedro leu em silêncio. Linha por linha. Sem pressa. Depois fechou o notebook devagar e ergueu os olhos. — Melhorou. — Eu sei. O canto da boca dele se moveu. — Gosto quando você responde assim. — E eu não trabalho para ser agradável. — Ainda bem. Silêncio. A frase caiu entre os dois com peso demais. — O senhor faz isso com todo mundo? — Júlia perguntou, antes de decidir se deveria. — Isso o quê? — Testa. Pressiona. Observa. Pedro apoiou o cotovelo na cadeira, ainda perto. — Não. — Então por que comigo? Agora ele demorou a responder. O bastante para tirar o ar do ambiente. — Porque você reage. Júlia sustentou o olhar. — E isso diverte o senhor? — Não. A resposta veio baixa. Direta. — Isso me interessa. O coração dela bateu mais forte. Uma vez. Duas. Forte demais. Ela odiou. — Isso continua sendo trabalho. Pedro a observou por mais um segundo. — Você repete isso como se precisasse acreditar. Ela fechou o notebook com calma demais. — Talvez porque seja verdade. — Talvez. Mas ele não parecia convencido. E o pior era que uma parte dela também não. Pedro se levantou. Aproximou-se da janela. Ficou de costas por alguns segundos. Júlia aproveitou o instante para respirar fundo e recuperar o eixo. Precisava sair dali. Aquela sala fechada. Aquela proximidade. Aquela forma precisa e lenta com que ele ocupava o espaço. Tudo era demais. — Posso ir? — perguntou. Ele não se virou de imediato. — Ainda não. Júlia sentiu a tensão voltar. — Falta mais alguma coisa? Pedro virou então. Andou até ela. Parou ao lado da cadeira, perto o bastante para que Júlia precisasse erguer o rosto. — Falta você parar de fugir toda vez que percebe o que está acontecendo. O ar pareceu falhar. Ela ficou em silêncio. Porque qualquer resposta seria perigosa. — Eu não estou fugindo. — Não? A voz dele ficou mais baixa. — Então por que sempre tenta encerrar primeiro? Júlia se levantou. Agora estavam frente a frente. Muito perto. Perto demais. — Porque eu gosto de limites claros. Pedro abaixou o olhar por um segundo, como se registrasse a distância curta entre os dois. Depois voltou aos olhos dela. — Não parece. A garganta de Júlia secou. Ela detestava aquilo. Detestava o modo como ele parecia pegar frases simples e transformá-las em outra coisa. Mais pesada. Mais lenta. Mais íntima. — Isso não é apropriado — ela disse. Pedro não se afastou. — E você ainda está aqui. Silêncio. Os batimentos dela ficaram tão altos que parecia absurdo imaginar que ele não ouvia. — Eu deveria sair. — Deveria. Mas ele também não se mexeu. Nenhum dos dois. Só a tensão. Só a proximidade. Só o peso daquele instante que parecia comprimir o ar inteiro da sala. Pedro ergueu a mão devagar. Júlia prendeu a respiração. Mas ele apenas tocou uma mecha do cabelo dela, presa ao botão da camisa, e a soltou com calma. O gesto foi simples. Pequeno. Técnico, quase. E ainda assim… pior do que deveria. Muito pior. A mão dele se afastou. Júlia deu um passo para trás no mesmo instante. Instinto. Defesa. Pedro percebeu. Claro que percebeu. Mas não sorriu. Também não pediu desculpas. Só a observou por mais alguns segundos. — Vá, Júlia. A voz estava diferente. Mais baixa. Mais contida. Ela pegou a bolsa, o notebook, a dignidade que restava e saiu da sala sem olhar para trás. O corredor parecia frio demais. Vazio demais. Seguro demais. Só quando entrou no elevador foi que soltou o ar de verdade. As mãos estavam firmes. A postura também. Mas por dentro… por dentro, nada estava estável. Porque não tinha sido só trabalho. E dessa vez nem ela conseguia mentir bem para si mesma. Quando voltou para o setor, Marina já estava recolhendo as coisas. Bastou olhar para Júlia para parar. — O que aconteceu? Júlia largou a bolsa na mesa. — Nada. — Sua cara está dizendo o contrário. — Foi uma revisão de documento. Marina estreitou os olhos. — E desde quando revisão de documento faz você parecer que correu uma maratona emocional? Júlia abriu uma gaveta sem necessidade nenhuma. — Você exagera. Marina se aproximou. — Ele passou do limite? A pergunta veio séria dessa vez. Júlia parou. Pensou. Sentiu de novo o toque leve no cabelo. A proximidade. A forma como ele dissera que ela ainda estava ali. — Não — respondeu depois. — Mas chegou perto. Marina soltou o ar. — Isso não me tranquiliza. — Nem a mim. Gancho final Mais tarde, já em casa, Júlia recebeu um e-mail interno. Sem assunto. Sem texto no corpo. Apenas um arquivo anexado. Ela abriu. Era a agenda de Pedro Villaça. A agenda pessoal dele. E, às 21h, havia uma nova anotação: Júlia Andrade — jantar. Ela ficou imóvel. O coração desacelerou por um segundo. Só para bater mais forte no seguinte. Porque, pela primeira vez, Pedro não estava apenas se aproximando. Ele estava avançando.
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