Capítulo 4 - O erro calculado

1077 Palavras
“Amanhã, você fica depois do horário.” Sem explicação. Sem assinatura. Mas Júlia não precisava. Pedro Villaça não fazia pedidos. Fazia ordens. Na manhã seguinte, ela chegou no horário de sempre. 07:12. Tudo igual. Ou quase. Porque agora havia uma expectativa no ar. E ela odiava isso. Expectativa tirava controle. E controle… era o que ela tinha. Ou pelo menos, era o que dizia a si mesma. — Você dormiu? — Marina perguntou, assim que ela sentou. — Sim. — Mentira. Júlia abriu o computador. — Eu dormi. — Pensando nele? Júlia olhou. Seca. — Pensando em trabalho. Marina sorriu. — Claro. O dia passou rápido. Reuniões. Planilhas. E-mails. Tudo normal. Mas com um detalhe constante: Ela sabia. Sabia que não iria embora no horário. Sabia que, em algum momento… ele iria chamar. Às 18:03, o escritório começou a esvaziar. 18:17. Quase todo mundo já tinha ido. 18:29. Silêncio. Júlia ainda estava na mesa. Digitando. Focada. Ou tentando parecer. O telefone tocou. Número interno. — Júlia. Renata. — Ele está esperando. Sem contexto. Sem explicação. Júlia respirou fundo. — Já estou indo. O elevador subiu. Lento demais. De novo. Sempre lento demais quando ela precisava pensar. E, dessa vez, pensar não ajudava. Ela bateu na porta. — Entra. A voz dele. Como sempre. Baixa. Controlada. Júlia entrou. Pedro estava sem o paletó. Camisa social levemente aberta no colarinho. Mangas dobradas. Menos formal. Mais… perigoso. Ele não estava sentado. Estava de pé. Perto da mesa. Como se estivesse esperando. — Você demorou. — Eu estava trabalhando. — Eu sei. Silêncio. — E agora está aqui. Não era pergunta. Ela sustentou. — O que o senhor precisa? Pedro não respondeu imediatamente. Caminhou até a mesa. Pegou um documento. — Isso. Ela se aproximou. Pegou. Leu. Rápido. E então— Franziu a testa. — Isso está errado. Silêncio. Pedro a observou. — Continue. Júlia passou os olhos de novo. Mais atento. Mais profundo. — Esses dados não batem com o relatório da semana passada. — E? — E alguém alterou projeções sem justificar. Ela levantou o olhar. Direto. — Isso não devia ter passado. O clima mudou. Pedro se aproximou. Devagar. — Então por que passou? Júlia não recuou. — Porque ninguém revisou como deveria. Silêncio. Pesado. Ele estava testando. Ela sabia. — E você revisaria melhor? A pergunta foi baixa. Mas carregada. Júlia sustentou. — Sim. — Tem certeza? — Tenho. Pedro inclinou levemente a cabeça. — Então faça. Ela não hesitou. Sentou. Abriu o notebook. Começou. Os minutos passaram. Silêncio absoluto. Só o som do teclado. Júlia trabalhava rápido. Preciso. Focado. Pedro observava. Sem interferir. Sem falar. Só… olhando. — Pronto. Ela virou o notebook. — Aqui. Ele se aproximou. Ficou ao lado dela. Perto demais. Júlia sentiu. Mas não desviou. Pedro analisou. Linha por linha. Sem pressa. — Você alterou três pontos. — Corrigi. — Mudou o resultado final. — Ajustei para o que deveria ser. Silêncio. Ele continuou olhando. Mais atento agora. — Você fez isso sem autorização. Júlia fechou o notebook devagar. — Porque estava errado. — Isso não é função sua. — Eu sei. Silêncio. Ela levantou. Ficou de frente para ele. — Mas alguém precisava fazer Agora era diferente. Não era mais só análise. Era confronto. Pedro deu um passo à frente. Júlia não recuou. — Você costuma ultrapassar limites assim? Ela respondeu sem hesitar: — Quando vale a pena. O ar ficou mais pesado. Ele a observou. Mais de perto. Mais fundo. — E isso vale a pena? — Vale. — Por quê? Júlia sustentou o olhar. — Porque eu não trabalho para manter erro. Silêncio. Algo mudou. De novo. Mas dessa vez… mais intenso. Pedro se aproximou mais um pouco. Agora não havia dúvida. Aquilo não era só profissional. — Você tem ideia do que acabou de fazer? A voz dele caiu. Baixa. Perigosa. Júlia sentiu o impacto. Mas manteve a postura. — Corrigi um problema. — Não. Ele inclinou levemente o rosto. — Você se colocou onde não foi chamada. Ela respirou fundo. — Então me peça para sair. Silêncio. Pesado. Lento. Pedro não pediu. Em vez disso… sorriu. Pequeno. Controlado. Mas diferente. — Você é um problema. A frase saiu quase como constatação. Não crítica. Júlia cruzou os braços. — Eu resolvo problemas. — Não. Ele se aproximou mais um pouco. — Você cria. O coração dela acelerou. Forte. Irritante. — Se o senhor não gostou— — Eu gostei. Ela parou. Silêncio. Agora não havia dúvida. Nada ali era simples. Pedro passou a mão pela mesa. Pensativo. Observando. — A maioria das pessoas evita esse tipo de risco. — Eu não sou a maioria. — Eu sei. A resposta veio rápida. Direta. Ele se aproximou de novo. Agora mais perto do que deveria. — E isso… Pausa. — pode ser perigoso. Júlia ergueu o queixo. — Para quem? Silêncio. Pedro segurou o olhar dela. Mais tempo. Mais intenso. — Para você. Ela não desviou. Mas sentiu. Aquilo não era aviso comum. Era… outra coisa. — Eu sei me controlar — ela disse. Ele inclinou levemente a cabeça. — Não totalmente. O ar ficou mais pesado. Mais lento. Júlia respirou fundo. — Se era só isso, eu posso ir. Pedro demorou. Como se decidisse. Ou como se não quisesse encerrar. — Pode. Ela virou. Deu dois passos. Mas— — Júlia. Ela parou. Não virou. — Sim? Silêncio. E então— — Da próxima vez… Pausa. — Não espere ser chamada. Aquilo ficou. Forte. Direto. Perigoso. Júlia saiu. Sem responder. Mas com algo diferente dentro. No elevador, ela soltou o ar devagar. O coração ainda acelerado. A mente… mais ainda. Ela não tinha sido chamada. Mas tinha sido… escolhida. Quando voltou, o escritório estava vazio. Quase completamente. Só Marina. Esperando. Claro. — E aí? Júlia largou a bolsa. — Trabalhei. — Só isso? Júlia hesitou. Por um segundo. — Não. Marina sorriu. — Eu sabia. — Eu… corrigi algo que não devia. — E? Júlia olhou para a tela. — Ele gostou. Marina arregalou os olhos. — Isso não é bom. Júlia soltou um pequeno sorriso. Quase imperceptível. — Eu sei. GANCHO FINAL Naquela noite, Júlia recebeu outra mensagem. Dessa vez, mais curta. Mais direta. “Você ultrapassou o limite hoje.” Pausa. Segunda mensagem. “Continue.” Júlia encarou a tela. O coração acelerando de novo. Porque agora estava claro. Aquilo não era mais só trabalho. Era um jogo. E, pela primeira vez… ela tinha decidido jogar.
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