Século XX, ano de 1990
Chloé
Era tarde quando cheguei à Mansão. Estava sozinha, mas tive uma estranha sensação de que Giocondo havia me acompanhando, mas por algum motivo, não queria mostrar sua presença como antes. Algo louco aconteceu comigo; senti um certo medo de que ele fosse embora e nunca mais quisesse estar comigo. Tipo: síndrome de Estocolmo do além. Eu não deveria estar pensando assim ao sair de uma palestra tão elucidativa. Portanto, quanto mais ele desaparecesse seria bom para mim. Mas por outro lado me sentia egoísta. Ele precisava de minha ajuda para descobrir quem o havia assassinado. Devia sentir-se preso nessa Mansão sem entender nada, e sem contar que por mais de 100 anos ficou vagando sozinho.
Meu coração se enchia de piedade. Meus pensamentos começaram a culpar-me com indagações:Será que a palestra o tiraria daqui para sempre? Eu gostaria de ter a chance de expressar minha dúvida sobre tudo isso.
"Chloé estava visivelmente triste, Giocondo a observava. Então,subiu para seu quarto e tomou um longo banho com sais de alecrim doce. Após a ducha, foi para a biblioteca. Pegou a caixa e decidiu invocar o Fantasma. mesmo sabendo que não seria o correto.
-Giocondo... Se você pode me ouvir... deve saber que não quero tirá-lo de sua casa... Eu... eu só preciso que você encontre seu caminho. Sinceramente, não vejo como ajudá-lo...! -Chloé estava realmente falando de todo seu íntimo. Então, ela continua.—Quero que saiba que só estive no centro de pesquisas para lhe ajudar. Giocondo, tente entender a realidade em que se encontra; eu sei que você sabe o que lhe aconteceu,mas não consegue encontrar paz para pedir ajuda.- Por um breve instante Chloé acha que está louca em falar sozinha.
-Oh Deus, oque estou fazendo?? Falando comigo mesma!! Se alguém me visse, com certeza riria de mim. Acho que absorvi muitas informações. Melhor me calar e ver o que mais resta nessa caixa.
"Giocondo ficou parado, observando seus movimentos e, depois de alguns minutos, um cheiro de sândalo invadiu a sala."
-Então está aqui? Posso sentir seu cheiro de sândalo. Não tenho medo. Quero que fique!
-Giocondo está surpreso, não imaginava que depois de tudo o que Chloe ouvira na palestra o queria por perto, tão pouco sentir sua presença. Ele gostou. Sutilmente estendeu sua mão acariciando seu cabelo. Ela sentiu os fios no topo de sua cabeça eriçar; Chloé tinha certeza de que isso seria um sim.
- Sei que você não pode responder, pelo menos não da maneira que gostaria. Então, estarei falando enquanto vejo o que há na caixa?
"Chloé sentiu uma emoção diferente...
Uma atmosfera de amor invadiu seu ser. Ela encontrou uma nova carta de Isabelle para Giocondo."
Meu amado
Estou muito triste com as notícias de tudo o que aconteceu. Gostaria de poder estar presente para ajudar com seu pai. Mantenha-se firme. Tudo que acontece nesta vida, é por um motivo maior. Voltarei em breve. A Itália é linda e a casa dos meus tios é bastante agradável, mas não possuímos recursos para permanecer com as despesas. Meus pais não gostam de incomodar a ninguém. Não me deixe esperar mais. Não seria justo com nosso amor, já sofremos com as más línguas. Peço-lhe que reflita sobre essa possibilidade. Fique em paz meu amor. Sempre sua,
Isabelle Marrie.
—Você ouviu Giocondo?É uma carta da sua Isabelle. Você não deveria tê-la feito esperar tanto tempo! Mas, de qualquer forma, deve ter tido suas razões.
Agora, vou ler uma carta sua endereçada a ela.
A carta de Giocondo...
Meu raio de sol.
Por tudo o que li em sua carta, posso lhe garantir que assim voltar da Itália poderemos organizar nosso casamento. Meu pai continua na mesma, sem comer; raramente vou à fábrica para cuidar pessoalmente dele. Espero que esteja se divertindo um pouco com sua prima, aproveita esta estadia com seus familiares. Eu ficarei bem.
Aquele que nunca se esquece de você...
Giocondo Ruschel.
-Meu Deus. Que emoção! Você deve ter sido muito carinhoso. Eu queria ser digna de um amor tão grande!- Disse Chloé abraçando a carta contra o peito.
"Você ainda é meu raio de sol... meu amor, minha Isabelle" - a voz sussurra
Chloé não só sente sua presença, como ouve nitidamente em seu ouvido. Ela fechou os olhos e pôde imaginar sua imagem muito próxima, não teve medo, apenas deixou sua emoção correr solta.
As lágrimas começaram a rolar por seu rosto. Sentia amor em seu peito como há muito tempo não sentia. Giocondo era pura magia. Ele sabia como tornar o invisível em real. Chloé se deixou levar pelas asas daquele momento e, com os olhos ainda fechados, pôde sonhar acordada nos braços de Giocondo.
Após um breve instante, Chloé quebra essa atmosfera como uma pergunta nada agradável.
—Giocondo,como eu poderia ser sua Isabelle? Me sinto tão diferente em todos os sentidos. Você pode estar equivocado. Por isso, peço-lhe que tenha paciência que farei o possível para que possa seguir em paz para reencontrar sua Isabelle em algum lugar que não seja este aqui. - Chloé sussurra ainda de olhos fechados.
—Você ainda está aqui?- Ela não obtém mais nenhuma resposta. —Espero que não esteja aborrecido comigo e compreenda que todos queremos o seu bem.
Uma forte ventania sacode as cortinas e as luzes do abajur piscam algumas vezes. Isso significava que sua resposta era contrária ao que Chloé supunha. Nem todo mundo queria seu bem. Havia alguém neste plano de modo inconsciente, disposto apagar todos os vestigios do crime e do amor que sobreviveu ao século. Heringuer havia encarnado na pele do advogado numa posição de destaque bem sucedido e capaz de mover céus e terra para tornar a Mansão em algum empreendimento rendoso. Seus tios-avós Emma e Frederick eram seus maiores opositores nessa causa; eles afirmavam que que não permitiria ao Richard manipular recursos para inviabilizar os direitos de um possível herdeiro no futuro. Ele já havia entrado algumas vezes com um recurso para destituir seus tios como curadores de todos os objetos de valor dos Ruschel e da propriedade que valia milhões. Richard era ambicioso, eloquente e tinha boas relações interpessoais com pessoas interessadas no mesmo objetivo, mas seus tios eram amparados pela espiritualidade e seus recursos através da obra divina eram recusados pelo juiz. Mas o advogado do d***o, como ele mesmo se incorporava,dizia com toda segurança que tirar o magistrado do Cantão, seria só uma questão de tempo.