Século XX, Ano de 1990
Soluthur
Duas semanas se passaram desde o último encontro com final desastroso, entre Chloé e o advogado, Richard. Certamente ele não estava nada cômodo em explicar sua saída repentina, na qual, quase rompia o pescoço ao escorregar da escada. Richard havia-se deparado com o espectro do Giocondo no quarto. Não podia dizer a verdade para Chloé; tinha vergonha em confessar que seus dons eram como dos tios-avós. Desde muito pequeno, sofria com vultos e arranhões pelo corpo feito por entidades maléficas. Richard não fora um garoto muito legal, gostava de trapacear em tudo, nisso atraia para seu campo formas indesejadas. Seus pais se foram cedo, ele fora criado com Emma e Frederik como um filho. Ele nunca revelou aos tios que era atormentado; mas o casal percebia vultos ao redor dele como se fora um hospedeiro. Não lhe faltou orações e pedidos aos irmãos de luz que o amparasse nessa trajetória. Richard sempre demostrou seu lado prático e muito sagaz, mas por outro lado, era zombador com as coisas divinas.
Chloé sempre fora uma mulher decidida em tudo. Nunca gostou dos términos com meio fim; ou era sim ou não. Uma situação indefinida numa relação sentimental não lhe atraía em nada. Por um momento se questionava: Se esse interesse arrebatador por ela não seria pela Mansão? Sendo ela tão inteligente e carismática, poderia influenciar aos tios a passarem a Mansão sob seus cuidados, já que eles tinham muitas obrigações no Centro de pesquisas da Mente. Há um tempo, ambos haviam insinuado o real interesse do sobrinho em tornar a Mansão numa pousada. Sendo um exímio advogado com boas influencias no Cantão, poderia reivindicar a compra por uma bacatela já que ninguém em cem anos havia voltado para reclamar. Se fosse esse o motivo, Chloé não voltaria a se entregar ao Richard.
Chloé, necessitava desabafar com alguém. Decidiu buscar entendimento com Amélie; quando uma pessoa está vendo a situação do lado de fora, certamente seria mais esclarecedor.
-Chloé, sabemos que m*l nos conhecemos, mas que nos respeitamos muito; me diz,o que te incomoda?
-Já me dei conta que me conhece um pouco para saber quando algo me perturba. Não sei explicar bem com palavras, mas a cada dia, vejo em você alguém no qual convivi há mais tempo do que supunha. Seu instinto protetor apesar de ser muito mais jovem que eu, faz duvidar se realmente não existe vidas anteriores.
—Também compartilho o mesmo em relação a você. Mas não é isso que te agonia nesse momento. Fala o que é!
—A coisa toda Amelie, é a minha relação com o Richard. O encontrei outro dia depois do ocorrido; ele parecia disperso, sem aquele olhar devorador sobre mim.
—Isso te incomodou a que nível?
—Sei lá! Parecia assustado. Mas confesso que gostava do seu jeito sedutor. Será que fiz algo errado? Ou seja, não devia ter-me entregado tão facilmente?
-Contudo, acho prematura suas desconfianças. Só houve uma transa entre vocês. Ele pode está passando por um problema pessoal. Não é por não simpatizar que vou crucifica-lo. Serei sincera Chloé; homens como o Richard não são de se apegarem a ninguém. Fica alerta.
-Obrigada Amelie por sua sinceridade, me sinto mais aliviada.
[...]
Alguns dias depois...
Chloé pegou um táxi para levara ao museu da cidade. Tinha curiosidade em saber mais sobre a Soluthur do século passado. Não estava segura se encontraria vestígios da família Ruschels ou da fábrica de charutos; mas algo certamente estaria a esperando.
Necessitava que sua mente trabalhara sem interferências. Avistou um café e pediu para o táxi a deixar alí, de lá seguiria andando até seu destino. Ficou degustando seu nata siciliano com biscoitinhos de limão, enquanto observava as pessoas virem e irem com seus sotaques diversificados, Já que alí se falavam quatro idiomas. Chloé parecia ter parado no tempo, passava das 3:00pm. Finalmente tomou iniciativa e caminhou até o museu. Um edifício imponente estilo colonial. Pertenceu a uma antiga vivenda de senhores que fora doada como casa de antiguidades. Tudo aquilo fez Chloé voltar no tempo.
Justo na entrada havia manequins com roupas da época; peças raríssimas da Duquesa Genevieve e do Visconti. Ela se sentiu saudosa de algo que vivera. Modelos belíssimos feitos pela Madame Chateou. Réplicas de joias usadas pelas damas mais importantes da sociedade.
De um lado da parede, havia fotos diversas da cidade. As famílias mais abastadas, pousavam para quadros pintados a mão. Só pessoas dintintas dispunha de pintores exclusivos para suas pinturas a óleo. Chloé mantinha seu olhar vigilante. Seguia adiante com a certeza de encontrar algo que acalmara ou destruísse seu coração. Não mais distante do seu desejo, a foto mais cobiçada. A fábrica dos Ruchesl, em sua fachada original. Ela chorou alí sem se importar com os transeuntes do museu. Tocou na tela como se pudesse sentir a energia do lugar ainda em seu estado natural. Mais adiante uma foto de dois elegantes senhores. Uma inscrição abaixo dizia: Derek Ruschel proprietário e seu m****o sócio, Heringuer.
A imagem do Heringuer a deixou pertubada. Um homem elegante de meia idade com olhos penetrantes, parecia que já os tinha visto antes.
Chloé estava muito incomodada com a foto, decidiu seguir vendo mais algumas imagens do interior da fábrica na sua produção dos fumos, a escolha das folhas até as fotos de empregados nas horas de lazer. Eram tempos dourados antes de cair em desgraça total.
Em destaque num nicho estava a fotografia de uma família aristocrática responsável pelo primeiro haras de Soluthur; tratava-se de Henrico e Charlotte em seu casamento. Esta, sendo como uma prima para Isabelle, após vê-la cair em falatórios, a induziu que mudasse para um convento pois não podia abriga-la devido a sua suposta ligação íntima com seu noivo. Era assim que tudo terminava, caso uma moça não seguisse os padrões; sendo uma injúria no caso da Isabelle. A jovem mais cobiçada dos mancebos, agora caíra ao declínio da sociedade inquisidora.
Em uma tela reservada as famílias de ricos empresários, ela vê a inauguração da matriz, a loja dos pais da Isabelle em bons tempos.
Chloé sentiu seu peito contrair ao ver o casal segurando uma tesoura para cortar o laço. Eles pareciam felizes, ao lado deles uma menininha de uns oito anos segurava no laçarote do vestido da mãe. Só podia ser ela: Isabelle Du Boise.
Em uma vitrine a prova de furto, havia documentos, livros, cartas, certidões. Tudo aparentemente bem conservado após mais de um século a espera de um herdeiro para cobrar seus direitos. Quem sabe Johan, o filho adotivo constituíra uma família e seus bisnetos tivessem vivos. Johan De Berna nunca voltou a Soluthur, nem mesmo na morte dos pais e do irmão.
Chloé sentiu compaixão por esse passado tão belo e ao mesmo tempo frio e doído. Gostaria de poder provar que realmente ele fora assassinado por toda riqueza que possuíra.
Chloé caminhou para outra ala do museu, havia um b***o com um colar de pérolas legítimas pertencente a Isabelle. Prontamente ela tocou no próprio pescoço involuntariamente como se o houvera perdido. Chloé estava encantada, mas o ponto culminante foi a foto de Giocondo mais jovem e Johan ainda pré adolescente com uma diferença de seis anos. Eles não eram tão diferentes apesar de adotivo. Os olhos do Johan e seu porte se assemelhava ao do irmão, inclusive o sorriso. Desta vez Chloé riu ao vê-los felizes. Ela decide sair do Museu, retornaria em outra oportunidade para ver todo acervo.
Ela sai às pressas; em um bar, pede um Gim; esquecera que deveria evitar o álcool. Permaneceu por mais uma hora saindo meio tonta. Chegou a Mansão de táxi. Ao chegar no portão se depara com Richard à sua espera e não gosta nada disso.
—Boa noite Richard, não me recordo de ter marcado um encontro para hoje a noite?!- Chloé ri.
—Boa noite Chloé, pensei que não haveria problema vir sem ser convidado após tudo que passou.
—Está se referindo a me f***r e sair nú correndo? -Ela cai em gargalhadas meio a tropeços.
—Que modos de falar são esses? Eu fiz amor com você. Se houve um m*l entendido, gostaria de me justificar.- Ela o encara meio zonza.
—Trouxe até um vinho para tomarmos. Queria passar a noite com você.
—Relaxa bonitão. Mas fica sabendo que eu transo quando EEEU...quero. –Ela segue irônica.- Giocondo apreciava a certa distância.
—Chloé, você bebeu? Parece agressiva. Melhor eu ir embora.
—SIIIIM!! Bebi um pouco Richard, é que sou dona da minha vida, sabia?
Giocondo a influenciava através da mente incitando-a a dizer tais coisas ofensivas.
—Okay, já vi que está difícil um acordo entre nós. Estou indo.
—Acordo, conciliação?! Isso aqui não é um tribunal Sr. Advogado. Vai, vai logo!- Ela o empurra, fechando o portão.
—Richard engoliu o desaforo porque além de deseja-la ainda precisava de sua ajuda para obter a Mansão. Ele sai decidido a virar esse jogo.