O barulho do motor foi ouvido antes mesmo de qualquer batida na porta.
Georgina congelou no chão, estava montando um quebra cabeça na sala, ainda com o rosto úmido porque havia chorado novamente, os olhos arregalaram. Chloe se virou para a janela, afastando levemente a cortina.
— É ele — sussurrou.
O carro preto estacionou rente à entrada da casa. As portas não bateram com força, mas o som dos passos era firme, pesado, conhecido.
Georgina se levantou com esforço, ainda trêmula. Chloe a segurou pelos braços, tentando estabilizá-la.
— Sobe pro quarto — disse rápido. — Anda, Georgina, vai.
— E você?
— Eu fico. Vou ver o que ele quer.
Georgina hesitou, mas cedeu. Subiu os primeiros degraus da escada devagar, os dedos apertando o corrimão como se fosse sua última segurança no mundo.
A porta foi aberta sem bater.
Louis entrou.
O rosto estava impassível, os olhos gelados, e uma garrafa pela metade balançava em sua mão.
— Cadê ela? — perguntou, olhando direto para Chloe.
— Está dormindo — mentiu ela, tentando manter a voz firme, embora trêmula.
— Não parece — ele disse, jogando o casaco sobre o encosto do sofá e fechando a porta com o pé.
— Ela está cansada. Teve um dia difícil. O senhor... podia voltar amanhã, capo. Por favor!
Louis deu uma risada seca, curta, sem humor.
— Eu sou o capo. Posso estar onde eu quiser, na hora que eu quiser. Ou você esqueceu disso?
Chloe engoliu seco. Tentou manter o olhar firme, mas as mãos tremiam, também morria de medo dele.
Lá de cima, Georgina ouvia tudo. Cada palavra, cada silêncio. O coração batia com força no peito, como se tentasse escapar do corpo.
Ela sabia: se Ralph não chegasse logo, algo h******l poderia acontecer. E, pela primeira vez em dias, sentiu medo real. Não medo de viver.
Mas o medo cru de não sobreviver àquela noite. Mesmo assustada, decidiu descer. Não podia deixar Chloe sozinha com Louis.
Não podia.
Mas no momento em que chegou ao pé da escada, ouviu algo que gelou seu sangue.
— Ajoelha e vem me chup.ar— ordenou Louis, com a voz baixa, para Chloe.
Ela encostou-se à parede, tremendo.
— Louis, não. Isso não — gritou Georgina, correndo até ele. Ela não merece isso,era quase uma menina tímida, criada em uma fazenda afastada da Inglaterra, saiu de debaixo das asas do pai para lhe fazer companhia, e não podia deixar que Chloe sofresse, não podia.
— Então venha você — rosnou ele, se virando. — Estou estressado, Georgina. Preciso de alívio. Se ajoelha e abre minha calça.
Chloe chorava em silêncio, sem se mexer.Georgina ficou paralisada. Sabia que, se ousasse enfrentá-lo, Louis lhe daria uma surra. Mas alguma coisa dentro dela já estava se preparando para isso. E se tentasse fazer o que ele mandou, vomitaria nele, certeza e ganharia uma surra de qualquer jeito.
Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, o telefone tocou.
Louis parou. Atendeu irritado.
Do outro lado, alguém dizia que Ralph havia se machucado durante um treinamento — tinham quebrado o braço dele.
— Quebraram o braço? — repetiu Louis, já se afastando.
O tom mudou. A fúria foi substituída por urgência. Em segundos, ele já havia pegado o casaco e saído correndo para o carro.
Georgina ficou ali, sem entender. O corpo ainda tenso. Mas aliviada.
Chloe deslizou até o chão, soluçando.Elas conseguiram respirar.Mesmo sabendo que a paz seria breve.
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Quando Louis chegou, Ralph estava sentado, o braço apoiado numa tipoia improvisada. O local estava inchado, e ele mantinha os olhos fechados por alguns segundos, respirando fundo.
Louis se ajoelhou ao lado do irmão, pressionou a perna dele.
— Quem foi? — perguntou, a voz demonstrando raiva
— Foi num treinamento. Eu e um soldado, nada demais.
— Não importa. Você não devia estar machucado, Ralph.
— Louis...
— Quem foi? — insistiu.
— Já disse que não foi nada. Só te chamei porque Adonis saiu e eu preciso ir até o hospital pra engessar.
Ralph tentou se levantar, mas Louis o segurou e o ajudou. Saíram juntos, devagar, como nos velhos tempos. Ralph nem mesmo sentia dor, porque estava acostumado, cresceu tendo membros quebrados, e tinha quebrado o braço de propósito, tentava encontrar alguma humanidade no irmão.
— Eu não gosto de ver você machucado, Ralph. Não gosto — disse Louis, com sinceridade. — Porque eu me lembro do que aquele desg.raçado fazia .
Falava do avô.
— Nosso avô machucava inocentes, Louis. Você precisa parar. Nós fomos machucados quando crianças, mas não precisamos repetir o mesmo ciclo, deixe crianças e inocentes em paz.
— Eu não consigo. Isso... é a minha natureza — respondeu Louis, desviando o olhar. — Você ainda tem algo bom, Ralph. E eu?
Ralph não respondeu. Mas Louis continuou:
— O que há de bom em mim só existe por você. Só com você.
— Georgina... — disse Ralph. — Ela é boa, Louis. Pura. Por que não faz um esforço? Seja bom com ela. Eu te imploro.
Louis suspirou, e pela primeira vez, a voz falhou:
— Eu vou tentar... mas ela é filha dele. E ele morreu. Ela precisa pagar.
Ralph o olhou fundo nos olhos.
— Não, Louis. Ela não precisa pagar. Você que precisa entender que não se machuca uma mulher inocente.
Louis não respondeu. Apenas olhou para o irmão, e algo dentro dele... vacilou por um segundo.Mas foi pelos olhos do irmão, viu alguma dor, a dor de Ralph o fazia vacilar, a dor de mais ninguém, a não ser de Ralph. E, por algum motivo, aquela dor o atingia também.
Ninguém mais.
Só Ralph.
Chegaram ao hospital e foram atendidos rapidamente. Ralph tinha entrada prioritária, e o nome Sallow carregava peso, mesmo sem ser dito.
O médico deu um sorriso leve ao ver Ralph, como se tentasse amenizar a tensão no ar. Ralph não respondeu. Apenas o encarou com o mesmo olhar que usava para as pessoas.Ralph também não era bom. Ele sabia disso. Mas, ao menos, ainda tinha alguns limites.
Quarenta minutos depois, o atendimento havia sido finalizado. O braço engessado, a tipóia ajustada e a prescrição entregue.
Recebeu medicação para dor, mas cuspiu fora logo depois, não sentia dor, ao menos não física, mas o amor que sentia por Georgina era tanto que quase sentia dor por isso.