Amanda
Depois que Alex se afastou junto com o amigo, uma estranha sensação de vazio tomou conta de mim. O calor de sua presença — aquele manto invisível que me fazia sentir protegida, segura contra os olhares e perigos do mundo — simplesmente se desfez. A ausência dele era como um vento frio que se infiltrava por entre as frestas da minha pele. Um calafrio rastejou pela minha nuca e percorreu minha espinha até gelar meus ossos. Eu não queria admitir, mas parecia que algo sombrio me observava, aguardando apenas o momento certo para se revelar.
A calçada diante de mim parecia interminável. Dei alguns passos, hesitantes, tentando me convencer de que tudo não passava de paranoia. Porém, a cada batida do meu coração, a sensação de que alguém me seguia se intensificava. Era como uma sombra grudada em meus passos, um eco invisível, sempre atrás de mim. O ar noturno estava denso, pesado, carregado de uma estranha energia. Meu instinto gritava perigo, e eu já havia aprendido a duras penas que ignorar a intuição era um erro.
Acelerei o ritmo. Meus pés batiam com força contra o chão, como se quisessem me arrancar dali. O coração, agora descompassado, retinia dentro do meu peito, e cada batida parecia anunciar meu desespero. As ruas, tão comuns durante o dia, transformaram-se em um labirinto ameaçador à noite. As sombras se estendiam das paredes e postes, formando figuras distorcidas que me perseguiam. O vento assobiava em meus ouvidos como uma voz zombeteira. Eu só pensava em encontrar um lugar seguro, qualquer refúgio.
Foi quando vi o ponto de ônibus. O letreiro iluminado, anunciando a chegada iminente de um veículo, parecia um farol de esperança. Um porto seguro. Apertei o passo e, quando o ônibus parou diante de mim, subi quase tropeçando nos degraus. O som metálico das portas se fechando soou como o selo de uma promessa: agora eu estava protegida. Pelo menos era o que eu queria acreditar.
Sentei-me, tentando recuperar o fôlego, mas aquela sensação não me abandonou. Era como se olhos invisíveis estivessem fixos em mim. Um arrepio percorreu cada centímetro da minha pele. O ônibus avançava lentamente pelas ruas, mas eu não conseguia me acalmar. As janelas mostravam sombras em movimento do lado de fora, e cada vulto me fazia encolher no assento. Eu sabia que poderia estar exagerando, mas minha intuição gritava, insistia, me avisava: havia perigo ali.
Reuni coragem, respirei fundo e virei o rosto para trás. Foi um erro. Um erro terrível.
Meu sangue gelou no mesmo instante. Meus olhos se arregalaram, e senti como se todo o ar tivesse sido sugado de meus pulmões. Tony. Ele estava ali. Sentado no fundo do ônibus. O mesmo sorriso distorcido estampado no rosto, o mesmo olhar frio, c***l, que há muito tempo me assombrava em pesadelos. A simples visão dele fez minhas mãos tremerem e meus dentes baterem involuntariamente.
— Para o ônibus! — gritei com uma voz que m*l reconheci, estridente, carregada de puro desespero.
Os passageiros se viraram para mim, assustados com meu ataque súbito de pânico. O motorista, confuso e atordoado, freou bruscamente, quase arremessando todos para frente.
Antes que alguém pudesse me deter, desci tropeçando nos degraus, quase caindo no asfalto. Não olhei para trás. Não queria ver. Eu só queria fugir. Minha mente repetia a pergunta em desespero: o que ele quer de mim agora? O que mais ele pode me tirar?
Corri. Meus pés batiam contra o chão em um ritmo frenético, meus pulmões ardiam, mas eu não parava. O medo era combustível suficiente. Cada esquina virada parecia me aproximar de um abismo invisível. Não sabia para onde ia, só sabia que precisava me afastar dele.
Quando finalmente desacelerei, tentando controlar a respiração, tive a péssima ideia de olhar para o ônibus que ainda estava parado ao longe. Ele não estava mais lá. Tony não estava mais sentado. Meu coração disparou. Ele havia descido. Ele estava em algum lugar por perto.
Olhei em volta, a visão embaralhada pelas lágrimas e pela ansiedade. Minha cabeça girava como se procurasse um fantasma. Foi nesse instante que senti um toque em meu ombro. Gelado. Firme. Paralisante.
Meu corpo se enrijeceu, e um calafrio percorreu cada célula do meu ser. Girei bruscamente, e lá estava ele, tão próximo que pude sentir seu perfume. Um cheiro que um dia me fora familiar, mas que agora me enjoava, me sufocava. Seu sorriso distorcido parecia zombar da minha fragilidade.
— Me solta! — gritei, arrancando sua mão de meu ombro com um movimento brusco. Minha voz tremia entre raiva e pavor.
— Calma, Amanda. Eu só quero conversar. — A voz dele era falsa, revestida de suavidade. Mas seus olhos… seus olhos traíam a farsa, revelavam um abismo de intenções obscuras.
— Não! — berrei, empurrando-o com toda a força que consegui reunir. — Me deixa em paz!
Sem esperar reação, corri. O medo me deu uma velocidade que eu não sabia que possuía. Minha bolsa balançava violentamente em meu ombro, o som dos meus sapatos ecoava pelo asfalto como um tambor de guerra. Eu não olhava para trás. Não ousava. Sabia que, se visse aquele rosto de novo, minhas pernas simplesmente cederiam.
Corri até sentir o ar queimando minha garganta, até minhas pernas implorarem por descanso. A exaustão me obrigou a parar em uma rua movimentada, onde pessoas caminhavam tranquilamente. A presença delas, indiferente mas numerosa, me trouxe uma frágil sensação de segurança. Apoiei-me na calçada e me sentei, tentando recuperar o fôlego, respirando em golfadas.
Foi então que a dor se manifestou. Meu tornozelo latejava com uma intensidade absurda. Era uma dor aguda, cortante, como se algo estivesse deslocado. Tentei apoiar o pé no chão, mas um grito escapou de meus lábios.
— Ai!
As lágrimas brotaram sem que eu pudesse impedir. Não sabia em que momento havia me machucado. Talvez na descida do ônibus, talvez durante a corrida desesperada. Tudo era confuso. A dor física se juntava à tormenta emocional, e um nó apertava minha garganta, sufocante.
Apoiei-me na perna boa, tentando levantar. Mancava, cada passo era um suplício. As pessoas me olhavam de relance, algumas com curiosidade, outras com indiferença. Mas ninguém se aproximava. Eu estava ali, vulnerável, sozinha, me sentindo perdida em uma cidade que de repente havia se tornado hostil.
Até que uma voz suave rompeu o silêncio.
— Você está bem?
Levantei os olhos e vi um garoto diante de mim. Tinha cabelos castanhos claros, um pouco bagunçados, e olhos verdes que transmitiam uma calma inesperada. Sua expressão era de genuína preocupação, não de curiosidade vazia.
— Eu machuquei o tornozelo… — confessei, e as lágrimas escorreram, denunciando minha fraqueza.
Ele não hesitou. Aproximou-se, oferecendo apoio.
— Vem, eu te ajudo. — disse, a voz firme e tranquilizadora.
Passei meu braço por trás de seu pescoço, e ele me envolveu pela cintura com cuidado, me sustentando com uma força gentil. Juntos, começamos a andar lentamente. O peso que dividia com ele aliviava a dor em meu tornozelo. Sua presença, silenciosa e constante, era como um bálsamo para o pânico que me consumia.
Eu o olhei de relance. Ele não fazia perguntas. Não exigia explicações. Apenas me guiava com paciência, como se entendesse que, naquele momento, mais do que respostas, eu precisava de apoio.
— Obrigada. — sussurrei, e um pequeno sorriso brotou em meus lábios.
Ele retribuiu, com a mesma gentileza. — Disponha.
Foi impossível não reparar em sua aparência. Não era apenas bonito; havia algo cativante em seu rosto simétrico, em seus traços marcados de juventude e bondade. Seu sorriso possuía uma luz própria, e até o jeito despretensioso de seus cabelos desalinhados parecia carregar um charme natural. Por um breve instante, em meio a toda a escuridão que Tony havia trazido de volta à minha vida, esse estranho iluminava meu caminho.
Era como se o destino, c***l e generoso ao mesmo tempo, me tivesse lançado um raio de esperança quando eu mais precisava. Um respiro. Um alívio temporário.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti que talvez não estivesse tão sozinha quanto imaginava.