Chovia. Como se o céu estivesse lavando a cidade em desespero. O esconderijo dos Cães estava mergulhado numa penumbra que o gerador instável m*l conseguia dissipar. Eveline encarava a tela, o pen drive espetado ao lado, os dados de Dimitri se desenrolando em códigos e mapas secretos diante de seus olhos cansados.
— O que encontramos? — perguntou Magda, apoiando-se na porta.
— Tudo. Locais de reunião. Nomes. Contas falsas. Vias de fuga. Até os nomes verdadeiros de alguns líderes do círculo interno dele.
— Eveline esfregou os olhos. — Mas também há algo estranho.
— Estranho como?
Eveline clicou em uma pasta protegida. O sistema pediu três níveis de autenticação. Ela respirou fundo.
— Parece um protocolo de contingência. Um plano para o caso de Dimitri ser traído por alguém de dentro. Está criptografado.
— Acha que consegue abrir?
Eveline não respondeu. Estava tentando.
Horas depois, já de madrugada, a pasta se abriu.
Era uma lista. Uma lista com nomes. Códigos. Alvos.
— Aaron! — ela chamou, a voz mais aguda que o habitual.
Ele correu até ela, os cabelos ainda molhados da chuva.
— O que foi?
Ela apontou para o monitor. — Essa lista. São os nomes de todos nós. Todos os Cães. Ele já esperava isso.
Aaron franziu o cenho. — Não... Isso não faz sentido. Essa informação... isso é atual. É de dentro.
Magda se aproximou, empalidecendo. — Um traidor.
O silêncio caiu como um tiro.
— Precisamos reagrupar agora — disse Aaron. — Não podemos confiar em ninguém fora deste quarto.
Naquela noite, os Cães que ainda estavam vivos se reuniram em uma sala inferior, onde o concreto parecia sufocar o ar. Aaron
explicou a situação, Eveline mostrou os dados. E então veio o golpe final.
— Temos provas de que Dimitri já sabe sobre a invasão — disse Eveline. — Ele vai reagir. Está reunindo forças. E, mais importante... — ela hesitou. — Há um nome destacado como "prioritário" na lista de execuções.
— Quem? — perguntou Russo, com os olhos semicerrados.
Eveline olhou para Aaron.
— É você.
A tensão na sala explodiu. Vários levantaram as armas. Eveline se interpôs.
— Ele não é o traidor. Se fosse, por que estaria na lista?
— Justamente para parecer inocente! — gritou alguém do fundo.
Aaron não disse nada. Estava estático. Então, lentamente, tirou a arma do coldre e a entregou a Eveline.
— Se eu for o traidor, atire.
O silêncio se prolongou. Eveline o olhava nos olhos. Procurava algo. Mentira. Arrependimento. Frieza.
Mas só encontrou dor.
Ela abaixou a arma.
— Não é ele. Eu confio.
— Então vamos achar quem é — disse Russo. — E rápido.
Nas horas seguintes, reviraram arquivos, gravações, escutas. Um nome surgiu. Alguém que já havia desaparecido há dias. Nilo. Um antigo braço-direito de Magda. Leal. Ou parecia ser.
No dia seguinte, encontraram seu corpo num bueiro próximo ao porto. Com a língua arrancada e uma faca cravada nas costas.
— Silenciado — murmurou Aaron. — Mas por quem?
Naquela noite, Eveline não dormiu. Aaron também não. Sentados lado a lado, na varanda improvisada do esconderijo, ouviam a chuva.
— Você hesitou em atirar em mim — disse ele.
— Porque já estou morta, Aaron. Não por fora. Mas por dentro. Se eu perdesse você também...
Ele a olhou. — Não diga isso.
Ela virou o rosto para ele, e por um momento, o mundo pareceu calar.
— Aaron...
Ele se aproximou. Os rostos a centímetros. O beijo foi inevitável. Não houve pressa. Não houve alívio. Apenas necessidade.
Quando se separaram, Eveline disse:
— A gente vai morrer por isso.
Aaron a abraçou, como se aquilo fosse verdade.
— Então que morramos sendo verdadeiros.