Capítulo 5- Cães sem dono

618 Palavras
Chovia. Como se o céu estivesse lavando a cidade em desespero. O esconderijo dos Cães estava mergulhado numa penumbra que o gerador instável m*l conseguia dissipar. Eveline encarava a tela, o pen drive espetado ao lado, os dados de Dimitri se desenrolando em códigos e mapas secretos diante de seus olhos cansados. — O que encontramos? — perguntou Magda, apoiando-se na porta. — Tudo. Locais de reunião. Nomes. Contas falsas. Vias de fuga. Até os nomes verdadeiros de alguns líderes do círculo interno dele. — Eveline esfregou os olhos. — Mas também há algo estranho. — Estranho como? Eveline clicou em uma pasta protegida. O sistema pediu três níveis de autenticação. Ela respirou fundo. — Parece um protocolo de contingência. Um plano para o caso de Dimitri ser traído por alguém de dentro. Está criptografado. — Acha que consegue abrir? Eveline não respondeu. Estava tentando. Horas depois, já de madrugada, a pasta se abriu. Era uma lista. Uma lista com nomes. Códigos. Alvos. — Aaron! — ela chamou, a voz mais aguda que o habitual. Ele correu até ela, os cabelos ainda molhados da chuva. — O que foi? Ela apontou para o monitor. — Essa lista. São os nomes de todos nós. Todos os Cães. Ele já esperava isso. Aaron franziu o cenho. — Não... Isso não faz sentido. Essa informação... isso é atual. É de dentro. Magda se aproximou, empalidecendo. — Um traidor. O silêncio caiu como um tiro. — Precisamos reagrupar agora — disse Aaron. — Não podemos confiar em ninguém fora deste quarto. Naquela noite, os Cães que ainda estavam vivos se reuniram em uma sala inferior, onde o concreto parecia sufocar o ar. Aaron explicou a situação, Eveline mostrou os dados. E então veio o golpe final. — Temos provas de que Dimitri já sabe sobre a invasão — disse Eveline. — Ele vai reagir. Está reunindo forças. E, mais importante... — ela hesitou. — Há um nome destacado como "prioritário" na lista de execuções. — Quem? — perguntou Russo, com os olhos semicerrados. Eveline olhou para Aaron. — É você. A tensão na sala explodiu. Vários levantaram as armas. Eveline se interpôs. — Ele não é o traidor. Se fosse, por que estaria na lista? — Justamente para parecer inocente! — gritou alguém do fundo. Aaron não disse nada. Estava estático. Então, lentamente, tirou a arma do coldre e a entregou a Eveline. — Se eu for o traidor, atire. O silêncio se prolongou. Eveline o olhava nos olhos. Procurava algo. Mentira. Arrependimento. Frieza. Mas só encontrou dor. Ela abaixou a arma. — Não é ele. Eu confio. — Então vamos achar quem é — disse Russo. — E rápido. Nas horas seguintes, reviraram arquivos, gravações, escutas. Um nome surgiu. Alguém que já havia desaparecido há dias. Nilo. Um antigo braço-direito de Magda. Leal. Ou parecia ser. No dia seguinte, encontraram seu corpo num bueiro próximo ao porto. Com a língua arrancada e uma faca cravada nas costas. — Silenciado — murmurou Aaron. — Mas por quem? Naquela noite, Eveline não dormiu. Aaron também não. Sentados lado a lado, na varanda improvisada do esconderijo, ouviam a chuva. — Você hesitou em atirar em mim — disse ele. — Porque já estou morta, Aaron. Não por fora. Mas por dentro. Se eu perdesse você também... Ele a olhou. — Não diga isso. Ela virou o rosto para ele, e por um momento, o mundo pareceu calar. — Aaron... Ele se aproximou. Os rostos a centímetros. O beijo foi inevitável. Não houve pressa. Não houve alívio. Apenas necessidade. Quando se separaram, Eveline disse: — A gente vai morrer por isso. Aaron a abraçou, como se aquilo fosse verdade. — Então que morramos sendo verdadeiros.
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