O corpo pendurado balançava suavemente ao vento, como se zombasse do mundo. Os olhos arregalados estavam voltados para o céu cinzento, os lábios entreabertos num último sussurro de horror. Eveline não conseguia desviar o olhar. A imagem havia sido enviada para todos os aliados conhecidos dos Cães. Uma mensagem simples, mas eficiente: “A próxima será ela.”
Ela sabia que se referia a si mesma.
— Ele está provocando uma reação — disse Aaron, andando em círculos, irritado. — Quer que a gente se mova no impulso. Que erre. Que corra para o confronto.
— Então não vamos — disse Eveline, com a voz firme. — Vamos planejar.
O conselho dos Cães reunido parecia mais uma reunião de condenados. Ninguém dormira. O medo estava no ar como poeira. Eveline permanecia em pé, entre eles, enquanto as palavras cruzavam a sala como lâminas.
— Nossos aliados estão recuando — alertou Magda. — Já recebemos quatro mensagens de desistência. Estão nos deixando para morrer.
— Porque ainda acham que somos um bando desorganizado de criminosos — disse Eveline. — Está na hora de mostrarmos outra coisa. Algo novo.
— E o quê exatamente, garota? — disparou Russo. — Um desfile de esperança? Uma campanha de caridade?
Eveline caminhou até a mesa central e empurrou o mapa holográfico.
— Não. Uma ação cirúrgica. Temos acesso ao ponto de coleta de dados de Dimitri. Um bunker antigo, blindado, mas vulnerável por dentro. Se tomarmos esse ponto, tomamos as comunicações dele. A rede. A força.
Aaron a olhou com atenção. — Você consegue invadir esse sistema?
— Preciso de cinco minutos. E de alguém comigo.
— Eu vou — disse Aaron imediatamente.
Russo revirou os olhos. — Claro que vai.
Três dias depois, estavam infiltrados sob o chão de concreto da cidade velha. Túnel abandonado, poeira e fungo no ar. O ponto de entrada ficava escondido sob uma antiga torre de telefonia desativada. Eveline com o laptop, Aaron com a pistola em punho.
— Cobre minhas costas — ela disse, ajoelhando-se diante do painel eletrônico.
— Com a vida.
O sistema era arcaico, mas protegido com múltiplas camadas de autenticação. Eveline avançava pelas senhas como se desatasse correntes invisíveis. Luzes começaram a piscar.
— Você tem dois minutos — avisou Aaron, o olhar atento ao corredor escuro à frente.
— Então pare de contar e fique de olho.
Bipes. Códigos. Uma senha final. E então, o clique.
— Estamos dentro.
No momento exato, um grupo de soldados armados virou o corredor. Começaram a atirar. Aaron revidou, puxando Eveline para trás de um pilar.
— Temos que sair!
— Não antes de transferir os dados!
Ela pressionou comandos frenéticos enquanto o tiroteio preenchia o ar. Um dos soldados caiu. Aaron foi atingido de raspão no ombro. Ele não gritou. Só recarregou e continuou.
— Eveline, agora!
— Mais dez segundos!
Ela inseriu o comando final e arrancou o pen drive. — Vai!
Correram. Pelo túnel, pela poeira, pelo instinto. Quando finalmente emergiram no beco escondido onde haviam entrado, ambos estavam cobertos de sangue e sujeira, mas vivos.
Aaron caiu de joelhos. — Você conseguiu?
Eveline ergueu o pequeno dispositivo. — Com tudo. Cada ponto fraco. Cada aliado infiltrado. Tudo.
Naquela noite, no esconderijo, o silêncio foi substituído por murmúrios de esperança. Um mapa novo nascia diante deles.
Eveline estava suja, exausta, ferida. Mas quando os olhos dos Cães se voltaram para ela, viu algo que nunca esperou ver: respeito.
Aaron se aproximou. — A luz não sangra, Eveline. Mas você sangrou por todos nós.
Ela o olhou nos olhos. — E continuaria sangrando. Se isso for o que resta da nossa salvação.
Aaron tocou seu rosto com a ponta dos dedos. — Um dia, talvez, você não precise mais sangrar.
Mas ambos sabiam: esse dia ainda estava longe demais.