O dia seguinte não trouxe alívio. Antes mesmo do sol nascer, a porta do apartamento se escancarou com estrondo. Dois homens entraram. Não disseram palavra. Jogaram a ela uma sacola com roupas e apontaram para a porta. Eveline vestiu-se às pressas e os seguiu, os olhos ainda pesados de uma noite sem descanso.
Desta vez, a levaram para um galpão abandonado nos arredores da cidade. Um cenário de ferrugem, cimento rachado e cheiro de óleo. Lá dentro, outros jovens — seis, talvez sete — esperavam. Todos pareciam deslocados, assustados, tão confusos quanto ela.
Um homem entrou, alto, careca, com uma cicatriz que cortava o lado esquerdo do rosto.
— Bem-vindos ao Programa de Reintegração da Máfia dos Cães — disse com uma voz que parecia triturar sílabas. — Vocês foram selecionados para serviços especiais. Cada tarefa bem executada garante a sobrevivência de alguém. Cada falha... bem, vocês já sabem.
Ele olhou diretamente para Eveline.
— No caso da senhorita, por exemplo... o pai ainda está vivo, não está?
Ela nada respondeu.
— Ótimo. Vamos começar com um teste. — Apontou para uma porta metálica atrás dele. — Ali dentro tem um cachorro. Um rottweiler treinado para matar. Entrem um por vez. Quem sair vivo, continua. Quem não... — deu de ombros.
Eveline sentiu o estômago revirar. Mas antes que pudesse protestar, o primeiro rapaz foi empurrado para dentro. Gritos, rosnados, o som de algo quebrando. O silêncio.
A porta se abriu. O rapaz estava vivo. Cambaleante, ferido, mas vivo. O segundo foi empurrado. Depois o terceiro. Eveline era a quinta da fila.
Quando chegou sua vez, sentiu as mãos suadas e a garganta seca. Foi empurrada para dentro. O rottweiler já a encarava, músculos tensos. Mas algo no olhar dela — firme, calmo, assustado mas sem fuga — fez o cão hesitar.
Ela se agachou.
— Eu não sou sua inimiga — murmurou. — Também sou prisioneira aqui.
O cão rosnou, mas não atacou. Passaram-se minutos. Os homens do lado de fora gritaram, exigindo ação. Eveline apenas ficou ali, imóvel. E, por fim, o cão se deitou.
Quando saiu da sala, intacta, a comoção foi geral. Aaron estava entre os observadores. Não disse nada, mas a tensão em seu maxilar o entregava. A garota não era como as outras.
Naquela noite, Eveline não teve tempo para descanso. Foi levada para uma missão de observação: vigiar uma casa, anotar horários, registrar rostos. Mas algo deu errado. Um carro parou. Um homem desceu. Não estava nos registros. Olhou diretamente para onde Eveline estava escondida. E sorriu.
Quando ela voltou, Aaron a esperava, furioso.
— Você foi seguida?
— Acho que não. Não sei. Alguém me viu, mas...
— Isso pode ter custado tudo. Eles vão atrás do seu pai. Já!
Correram para o carro. Dirigiram em alta velocidade até a praça onde o pai costumava ficar. Mas ele não estava lá. No lugar, apenas uma mancha de sangue e um envelope.
Aaron pegou o envelope, leu, e empalideceu.
— Ele foi levado.
— Por quem? — Eveline gritou, a voz embargada.
— Por alguém pior que a gente.
Eveline caiu de joelhos pela segunda vez em dois dias. Mas desta vez, algo mudou. Não chorou. Olhou para Aaron com uma frieza que antes não possuía.
— Então me ensina. Tudo. Me transforma no que eu preciso ser. Porque agora, eu vou trazê-lo de volta. Nem que eu destrua o mundo inteiro.
Aaron hesitou. Mas então, assentiu.
O inferno começaria ali.
Nas semanas seguintes, Eveline passou a viver entre sombras. Era levada a lugares que pareciam existir fora do tempo — armazéns sob pontes, garagens lacradas, salas escondidas atrás de espelhos. Seu corpo se transformava junto à mente. Aprendia a correr sem ser vista, a abrir portas com arames, a mentir com os olhos.
E em cada lição, havia a presença silenciosa de Aaron.
Ele não falava muito, mas estava sempre lá — no canto da sala, no espelho retrovisor, no telhado do prédio ao lado. Protegendo-a, ou talvez vigiando-a. Eveline não sabia.
Certa noite, após uma missão em que precisou roubar documentos de uma empresa de fachada, ela desabou. Estavam no topo de um prédio abandonado, a vista da cidade brilhando abaixo deles.
— Não aguento mais — disse, a voz tremendo. — Estou me perdendo. Não sei mais quem sou.
Aaron tirou uma garrafa do bolso do casaco e entregou a ela. Era água. Ela bebeu como se fosse remédio.
— Ninguém sabe quem é aqui — respondeu ele. — Só o que tem que fazer para continuar vivo.
Eveline o encarou, olhos marejados. — E vale a pena?
— Ainda estou tentando descobrir.
Foi a primeira vez que ele sorriu.
No dia seguinte, Eveline recebeu uma mensagem cifrada: “Seu pai. Prova de vida. 23h. Armazém 74.”
Aaron tentou impedi-la. — Pode ser armadilha.
— E se for? — retrucou. — Vou mesmo deixar passar?
Às 23h, ela estava lá. Armazém 74. Silencioso, como um túmulo. Entrou com cuidado. E então viu.
O pai, amarrado a uma cadeira. Rosto inchado. Olhos semiabertos.
Ela correu. — Pai! — ajoelhou-se ao lado dele, tentando soltá-lo.
Foi quando percebeu a armadilha.
Clic.
O som metálico de uma trava. A porta atrás dela se fechou com estrondo.
Uma figura emergiu da escuridão. Terno preto. Rosto queimada parcialmente por ácido.
— Você tem coragem — disse ele. — Mas coragem é o que mais mata nesse jogo.
Eveline se ergueu. As mãos tremiam, mas os olhos não.
— O que quer de mim?
O homem sorriu.
— Um recado. Diga ao Aaron que ele cruzou a linha. E agora, vamos ver quem sangra primeiro.
A porta se abriu de novo. Ela foi empurrada para fora, cambaleando, o pai deixado para trás.
Do lado de fora, Aaron a esperava. E ao vê-la, entendeu.
A guerra tinha começado.
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— Ele te machucou? — Aaron perguntou, o olhar varrendo o corpo dela, procurando ferimentos visíveis.
— Não fisicamente — respondeu Eveline, a voz cortada, quase engasgada com as próprias palavras. — Mas ele sabe seu nome. Disse que você cruzou a linha.
Aaron empalideceu.
— Dimitri.
— Quem é ele?
Aaron hesitou, depois bufou.
— Um fantasma. Um ex-Cão. Expulso há anos, depois de tentar tomar o controle do grupo com sangue e pólvora. Ninguém sabia que ele ainda estava vivo. Eu devia ter imaginado...
— Ele está com meu pai.
— Eu sei. E agora não é mais só sobre uma dívida. É sobre guerra territorial. Orgulho. Poder.
— Então queime tudo — disse ela, os olhos firmes. — Mas traga meu pai de volta.
Aaron a encarou, e por um segundo viu algo nos olhos dela que não era só dor. Era determinação. Uma raiva fria, contida, que ameaçava transbordar.
— Amanhã, às cinco da manhã — disse ele. — Encontro na garagem do Subsolo 9. Vamos nos preparar.
Eveline assentiu. E ao se afastar, percebeu que já não era a mesma garota de antes. Algo tinha morrido nela. E algo muito mais perigoso tinha nascido no lugar.
Naquela noite, não dormiu. Apenas se sentou ao lado da janela, observando a cidade respirar, ignorando sua dor. A guerra havia começado. E ela não pretendia perder.