Eveline não dormiu.
Sentada no canto do colchão, sentia a mente girar em círculos — o rosto machucado do pai, o silêncio sufocante de Aaron, a palavra “DELAÇÃO” impressa no envelope, e a televisão que funcionava como um aviso sobrenatural.
O ar estava pesado. O quarto parecia menor do que antes. Ela tentou se levantar, mas uma tontura forte a derrubou de volta na cama. Talvez fosse a exaustão, ou o terror absoluto de perceber que sua vida tinha se partido em duas: antes da dívida e depois da máfia.
Na manhã seguinte, não houve batida na porta.
Havia um prato de comida deixado no chão, arroz branco e frango desfiado. Estava frio. Ela comeu mesmo assim, forçando o estômago a aceitar. Precisava de força. O pai ainda estava vivo — por enquanto.
Horas depois, Aaron apareceu. Trazia outra missão.
— Hoje, você vai entrar num hospital.
— Hospital?
— Uma visita comum. Você entrega uma pasta para um segurança. Nada mais. Ele sabe o que fazer.
Eveline não queria saber o que havia na pasta. Mas a mente fantasiava mesmo contra sua vontade. Drogas? Dinheiro? Ordens de execução? Fotografias comprometedoras?
O hospital parecia normal — pacientes tossindo, máquinas apitando. Mas ela notou o segurança de terno perto da entrada da ala restrita. Tinha um sorriso simpático demais para um ambiente tão triste. Quando ela se aproximou, ele não disse nada. Apenas pegou a pasta e sumiu por uma porta lateral.
Na volta, Aaron quebrou o silêncio.
— Você ainda não entendeu a extensão disso, entendeu?
— Eu só... quero proteger meu pai.
— Isso é só o começo. E quando ele não for mais útil?
Eveline não respondeu. Porque sabia. Sabia que a dívida do pai não era dinheiro. Era um erro antigo, algo que ela talvez jamais descobriria — e que agora a devorava viva.
Na terceira missão, Eveline teve que acompanhar um homem com a cabeça raspada e tatuagens no pescoço até uma casa noturna. Ele não disse o nome. Só a chamou de “garota”. A missão era distrair o dono do lugar enquanto o homem invadia o escritório dos fundos.
O sorriso falso no rosto de Eveline a fazia querer vomitar. O dono do bar era um senhor gentil, que lhe ofereceu café. Ela quase gritou quando ouviu o estrondo de algo quebrando nos fundos. O homem tatuado saiu minutos depois, suando, com uma maleta preta.
Mais uma entrega. Mais um passo na descida.
E então, ao voltar ao apartamento naquela noite, Eveline encontrou uma caixa no centro do quarto.
Havia um bilhete colado na tampa: “Escolha.”
Dentro, duas fotos. Uma era do pai, dormindo com um tubo de soro no braço, olhos cerrados. Estava internado. Estava vivo.
A outra era de uma mulher loira, por volta dos trinta, deitada numa cama com uma criança ao lado. A legenda no verso dizia: “Testemunha protegida. Está na sua rota de amanhã.”
Eveline caiu sentada no chão.
Não sabia mais onde terminava a dívida do pai e começava o seu inferno.
Na manhã seguinte, recusou o café que Aaron lhe ofereceu. Ele olhou para ela com uma expressão quase... culpada?
— Você tem uma escolha — disse ele.
— Tenho mesmo?
Aaron a levou até um carro diferente. Mais discreto. E deixou uma pistola no porta-luvas.
— Se você quiser — disse, sem emoção —, pode acabar com isso. Com tudo.
— Matar alguém?
— Ou se matar. Deixar o carro. Fugir. Escolha sua. Só não volta atrás.
Eveline encarou a arma como se fosse uma extensão de sua alma corroída. Não chorou. Não hesitou. Só fechou o porta-luvas devagar.
— Leva a gente até a mulher — disse ela, com a voz firme.
O carro seguiu até um bairro tranquilo. A casa tinha cortinas floridas e bicicletas infantis encostadas na parede.
Aaron ficou no carro.
Eveline desceu.
Bateu à porta. A mulher abriu, com a criança no colo. Seus olhos se encontraram. Havia medo ali — o mesmo que ela sentia. Por um segundo, Eveline quis gritar: “Fuja. Agora.”
Mas não gritou.
A mulher sorriu, desconfiada. Eveline entregou um envelope. E virou-se, sentindo algo partir dentro de si. Não precisava abrir o envelope para saber que condenara aquela mulher.
Na volta, Aaron não disse nada.
Mas, ao estacionar diante do prédio de concreto onde ela estava vivendo, entregou-lhe um pedaço de papel dobrado.
— Quando não aguentar mais — disse ele —, vá a esse endereço. Ninguém da máfia sabe. Ninguém me viu escrever isso.
Eveline não abriu o papel na hora.
Subiu. A porta do apartamento estava entreaberta novamente.
Desta vez, não foi a televisão que estava ligada.
Foi a própria voz de seu pai, gravada, repetindo a frase: “Filha, me perdoa. Filha, me perdoa.”
Repetida. Incessante.
Eveline não caiu de joelhos.
Sentou-se no colchão. De costas retas.
E pela primeira vez, não sentiu medo.
Sentiu raiva.
O dia seguinte não trouxe alívio. Antes mesmo do sol nascer, a porta do apartamento se escancarou com estrondo. Dois homens entraram. Não disseram palavra. Jogaram a ela uma sacola com roupas e apontaram para a porta. Eveline vestiu-se às pressas e os seguiu, os olhos ainda pesados de uma noite sem descanso.
Desta vez, a levaram para um galpão abandonado nos arredores da cidade. Um cenário de ferrugem, cimento rachado e cheiro de óleo. Lá dentro, outros jovens — seis, talvez sete — esperavam. Todos pareciam deslocados, assustados, tão confusos quanto ela.
Um homem entrou, alto, careca, com uma cicatriz que cortava o lado esquerdo do rosto.
— Bem-vindos ao Programa de Reintegração da Máfia dos Cães — disse com uma voz que parecia triturar sílabas. — Vocês foram selecionados para serviços especiais. Cada tarefa bem executada garante a sobrevivência de alguém. Cada falha... bem, vocês já sabem.
Ele olhou diretamente para Eveline.
— No caso da senhorita, por exemplo... o pai ainda está vivo, não está?
Ela nada respondeu.
— Ótimo. Vamos começar com um teste. — Apontou para uma porta metálica atrás dele. — Ali dentro tem um cachorro. Um rottweiler treinado para matar. Entrem um por vez. Quem sair vivo, continua. Quem não... — deu de ombros.
Eveline sentiu o estômago revirar. Mas antes que pudesse protestar, o primeiro rapaz foi empurrado para dentro. Gritos, rosnados, o som de algo quebrando. O silêncio.
A porta se abriu. O rapaz estava vivo. Cambaleante, ferido, mas vivo. O segundo foi empurrado. Depois o terceiro. Eveline era a quinta da fila.
Quando chegou sua vez, sentiu as mãos suadas e a garganta seca. Foi empurrada para dentro. O rottweiler já a encarava, músculos tensos. Mas algo no olhar dela — firme, calmo, assustado mas sem fuga — fez o cão hesitar.
Ela se agachou.
— Eu não sou sua inimiga — murmurou. — Também sou prisioneira aqui.
O cão rosnou, mas não atacou. Passaram-se minutos. Os homens do lado de fora gritaram, exigindo ação. Eveline apenas ficou ali, imóvel. E, por fim, o cão se deitou.
Quando saiu da sala, intacta, a comoção foi geral. Aaron estava entre os observadores. Não disse nada, mas a tensão em seu maxilar o entregava. A garota não era como as outras.
Naquela noite, Eveline não teve tempo para descanso. Foi levada para uma missão de observação: vigiar uma casa, anotar horários, registrar rostos. Mas algo deu errado. Um carro parou. Um homem desceu. Não estava nos registros. Olhou diretamente para onde Eveline estava escondida. E sorriu.
Quando ela voltou, Aaron a esperava, furioso.
— Você foi seguida?
— Acho que não. Não sei. Alguém me viu, mas...
— Isso pode ter custado tudo. Eles vão atrás do seu pai. Já!
Correram para o carro. Dirigiram em alta velocidade até a praça onde o pai costumava ficar. Mas ele não estava lá. No lugar, apenas uma mancha de sangue e um envelope.
Aaron pegou o envelope, leu, e empalideceu.
— Ele foi levado.
— Por quem? — Eveline gritou, a voz embargada.
— Por alguém pior que a gente.
Eveline caiu de joelhos pela segunda vez em dois dias. Mas desta vez, algo mudou. Não chorou. Olhou para Aaron com uma frieza que antes não possuía.
— Então me ensina. Tudo. Me transforma no que eu preciso ser. Porque agora, eu vou trazê-lo de volta. Nem que eu destrua o mundo inteiro.
Aaron hesitou. Mas então, assentiu.