Capítulo 1 -Dívida

1374 Palavras
A chuva tamborilava no telhado da casa como se o mundo estivesse desabando em gotas. Eveline observava pela janela, os olhos fixos no asfalto brilhante sob a luz amarelada do poste. O relógio da parede, herança da avó materna, marcava 21h47. O pai havia saído às 20h30 dizendo que iria ao mercado. Disse isso com um sorriso vacilante, olhos avermelhados e hálito misturado de cerveja e rum barato. Eveline sabia que não era só uma ida. Não quis fazer questão. Supôs que o pai fosse beber como sempre fazia. Estava acostumada. Esperou mais dez minutos antes de calçar os tênis e puxar o capuz do moletom sobre a cabeça. O mercado ficava a duas quadras. Caminharia até lá, daria uma olhada, talvez ele estivesse apenas distraído, perdido em alguma conversa fiada de boteco. Mas, no fundo, algo já se retorcia no estômago de Eveline como um nó apertando mais a cada segundo. O caminho até o mercado era escuro e silencioso, exceto pelo gotejar das calhas e o barulho de um gato derrubando uma lata no beco. Eveline atravessou a rua, os passos ligeiros, evitando as poças. Quando chegou, viu as portas do mercado já semi-fechadas, o letreiro piscando de forma errática. O velho Johnson, dono do mercado da rua, estava fechando as contas do dia. — Olá, Mr. Johnson! O senhor viu meu pai? Ele disse que vinha aqui comprar umas coisas. O homem ergueu os olhos e franziu a testa. — Veio sim. Comprou um pacote de macarrão e uma garrafinha de conhaque. Saiu faz uns trinta minutos. Estranho, pela hora, já deveria ter voltado para casa. Eveline agradeceu, sentindo o coração bater mais rápido. Virou-se e voltou pela rua, agora mais alerta. As luzes pareciam mais fracas, o ar mais denso. Quando passou pela entrada de um beco lateral, ouviu um som abafado. Um grunhido. Pausou. Deu um passo para trás. O som se repetiu, mais alto. E, então, uma voz: — Para de chorar, puto. Achou que podia enganar a gente pra sempre? O sangue de Eveline gelou. Reconheceria aquela voz rouca e ríspida em qualquer lugar. Era um dos cobradores da Máfia dos Cães. Crescera ouvindo sussurros sobre eles, sobre como agiam como parasitas, exigindo dívidas, cobrando com juros que não vinham de números, mas de sangue e medo. Ela entrou no beco. Estava escuro, mas a luz de um poste quebrado ainda deixava entrever algumas silhuetas. Três homens cercavam alguém caído. As sombras dançavam conforme os corpos se moviam. Um deles desferiu um chute, e Eveline viu o corpo do pai se contorcer e gemer. — Parem! — gritou, sem pensar. Os três viraram-se. O maior deles, de jaqueta de couro, piercing no lábio inferior e cabelos curtos, franziu os olhos ao vê-la. O outro, loiro e com um brinco na sobrancelha, sorriu de lado. Mas foi o terceiro, de expressão fria e olhos escuros, que deu um passo à frente. — Quem é você? — Eu sou... eu sou a filha dele. Por favor, parem. Ele... ele vai pagar. Eu dou um jeito. — Isso ele já diz faz meses, gatinha — resmungou o cara com expressão indiferente. — Evelin… — balbuciou o pai. — Vai… embora. — Por favor... — Eveline ajoelhou ao lado do pai, tocando seu rosto ensanguentado. — Leve a mim, então. Faço o que quiserem. O que for preciso. Deixem ele. O homem de olhos escuros e expressão fria a observou por longos segundos. Havia algo na postura dela, na forma como se interpuseram entre o pai e os agressores, que o fez hesitar. — Qual é o seu nome? — perguntou o homem. Ele parecia ser, naquele momento, uma espécie de chefe. — Eveline. Ele assentiu devagar. — Eveline, você vai vir conosco. Se tentar fugir, se abrir a boca pra polícia ou se seu pai fizer mais uma besteira... você sabe o que acontece, não sabe? Ela apenas assentiu. — Aaron — disse o chefe para o homem de cabelo curto —, amarra o velho e deixa ele no banco da praça. Vai parecer briga de bar. A garota vai com a gente. O homem mais alto, Aaron, apenas fitava Eveline. Ele pegou-a pelo braço, mas de forma menos brusca do que ela esperava. Ainda assim, o medo fazia seu coração martelar como um tambor. No carro preto onde foi colocada, o silêncio reinava. Eveline encarava a chuva escorrendo pelo vidro. Tudo parecia irreal. Seu pai, caído, machucado. Ela, sequestrada pela máfia. E, ainda assim, sentia uma estranha calma, como se estivesse onde precisava estar para proteger quem amava. No meio do caminho, aquele que parecia ser o chefe fez uma ligação. Minutos depois, o carro parou em frente a um prédio antigo, no centro. Subiram por um elevador rangente até o último andar. Aaron guiou Eveline a um escritório espaçoso, onde um homem aguardava. Era alto, grisalho, vestindo um terno escuro. Tinha a presença de um general, e os olhos de um juiz. — Então você é a filha do i****a? — disse ele, sem levantar-se. Eveline assentiu, firme. — Estou aqui para pagar a dívida dele. Farei o que for preciso. O homem sorriu, e por um instante parecia um lobo. — É isso que queremos ouvir. Durante os próximos meses, você vai trabalhar para a Máfia dos Cães. Pequenos servicinhos. Nada que não consiga aguentar. E se fizer bem feito... quem sabe, sua família saia viva dessa. Aaron, encostado na parede, observava em silêncio. Não tirava os olhos dela. Tinha visto algo em Eveline naquela noite. A coragem, o amor pelo pai, os olhos determinados. Não sabia o que era ainda. Mas sabia que mudaria tudo. Naquela mesma noite, Eveline foi levada para um apartamento pequeno e m*l iluminado, aparentemente reservado para "funcionários temporários" da máfia. O colchão era fino, a lâmpada piscava e a janela dava para uma parede de tijolos. A porta trancou atrás de si com um estalo seco. Ela olhou ao redor. Nenhum celular, nenhuma janela de fuga. Só ela e seus pensamentos. A madrugada avançava, mas o sono não vinha. Cada barulho no corredor fazia seu coração saltar. E, quando finalmente cedeu ao cansaço, foi acordada com batidas secas na porta. Aaron entrou. — Você tem cinco minutos. Vamos sair. — Pra onde? — Primeiro serviço. Vai ser fácil. Não pergunta muito. Só ouve. Ela o seguiu, hesitante, pelas escadas. O carro já esperava. Aaron dirigia em silêncio, até parar num posto de gasolina fechado. — Ali dentro tem um cara. Ele vai te entregar um envelope. Você pega e sai. Só isso. Entendeu? Eveline assentiu. Suas pernas tremiam quando saiu do carro. A porta do posto rangia ao abrir. Um homem com boné e olhar desconfiado a esperava. — Você é Eveline? — Sim. Ele jogou o envelope sobre o balcão. Ela o pegou, mas hesitou. Na capa, um nome: Lúcio Bragança. Abaixo, a palavra "DELAÇÃO". — O que é isso? O homem riu. — Não é da sua conta. Só leva. Ela saiu, trêmula, entregou a Aaron, e ele guardou sem dizer uma palavra. No caminho de volta, ela não aguentou: — Eu tô ajudando vocês a ferrar alguém, não tô? Aaron olhou pelo retrovisor. Seus olhos não tinham mais a frieza de antes. Tinham algo próximo da dúvida. — Se quiser sair disso, é agora. Mas aí, seu pai morre. Eveline baixou a cabeça. A resposta estava dada. Quando voltou para casa, encontrou a porta entreaberta. Entrou devagar. Tudo parecia como antes... até ver a pequena televisão ligada, mesmo sem energia no prédio. A tela mostrava imagens de seu pai, sentado em um banco, no que parecia ser o escritório da Máfia. Ele ainda tinha sangue seco na boca e a sujeira tomava conta de seu corpo. Acima, a mensagem em letras vermelhas: "CADA ERRO SEU, UM DIA A MENOS PARA ELE". As pernas falharam. Ela caiu de joelhos. Naquela noite, Eveline chorou pela primeira vez em anos. E Aaron, do lado de fora do prédio, observava. Estava incumbido de vigiá-la e fazer cumprir as missões dadas, apesar de ser incapaz de entender por que aquela garota — com a vida em ruínas — o fazia querer voltar atrás em tudo. Mas já era tarde demais para ambos.
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