Quando cheguei em casa, meu irmão não parou de anunciar aos quatro cantos do mundo sobre o retiro.
—Lia, o Teus conheceu uma garota lá, ela é bem bonita e eu vi que eles se abraçaram e... —dei um tapa em sua cabeça e ele me repreendeu.
—Deixa de ser fofoqueiro. Não foi nada disso, Lia, ela é só uma menina da nossa igreja. —eu falei.
Lianna sorriu e entrou na brincadeira com Erick, os dois me encheram a paciência até eu entrar para o quarto e me trancar ali. Quando mamãe chegou do trabalho, percebi algo diferente nela, ela chegou animada, me fez milhares de perguntas, claro que Erick foi contar sua versão dos fatos.
Aí que minha mãe ficou estranha mesmo, ela ria de tudo, fazia brincadeiras, eu não entendi muito bem que reação foi aquela, mas tudo bem, deixei pra lá.
Depois do jantar eu caí de cara nos livros, mas minha concentração estava longe, em uma menina de cabelo escuro, longo e um olhar angelical. Tentei voltar ao foco, mas fiquei frustrado porque não estava conseguindo me concentrar.
Peguei meu telefone para tentar afastar o pensamento e vi que as pessoas no grupo estavam dando boas vindas a alguém, vi seu nome de usuário agradecendo e apertei o telefone com um pouco de força.
Fiquei dividido entre enviar uma mensagem ou simplesmente fazer o que eu queria, ignorar. Depois de minha mente quase gritar, mandei um oi no número dela. Ela não estava mais online e eu decidi deixar aquilo para outra hora.
Me forcei a concentrar nos livros mais uma vez até que consegui, quando senti que já tinha absorvido bastante, apaguei a luz da mesinha e fui deitar para dormir. Bom, achei que ia dormir, mas na verdade eu sonhei com Gabrielle a noite inteira.
Não sei se foram sonhos ou lembranças, porque estávamos de volta no sítio do retiro, mas ao mesmo tempo em situações diferentes, em um momento estávamos de frente para o lago de mãos dadas, em outro momento, eu estava ao lado dela no ônibus.
A noite inteira foi assim, alternando entre situações reais e irreais, quando estava quase amanhecendo o dia eu despertei, estava estranho, meu corpo estava estranho, meu coração acelerado, acordei com as mãos suadas, meu pensamento foi direto no celular.
Eu pareci um viciado, correndo para usar droga, peguei o telefone e abri nas mensagens, Gabrielle estava lá, havia três mensagens não lidas, abri rapidamente e lá estava.
—Oi
—Desculpe, eu dormi, só vi agora.
—Como você está?
Ela puxou conversa comigo. Caramba. Fiquei ansioso, rolando de um lado a outro na cama. Eu nunca conversei com nenhuma garota antes, bem, não uma que eu olhasse tanto assim. Eu estava com muito sono ainda, mas antes de voltar a dormir mais um pouco, enviei uma resposta.
—Bom dia.
Quando fechei o olho, ouvi o barulho de mensagem recebida e conferi rápido só para ver quem era, Gabrielle respondeu rápido. Não era nem seis da manhã ainda e ela viu a mensagem.
—Bom dia. —ela enviou.
—Você sempre acorda cedo? —perguntei.
—Não consegui dormir direito essa noite e você? —ela perguntou.
Não consegui entender direito o motivo dela ter me dito isso, mas achei que talvez ela precisasse desabafar alguma coisa, ou contar apenas com um amigo.
—Mesma coisa por aqui. —eu enviei primeiro. — teve insônia? —perguntei logo depois.
Gabrielle digitou por bastante tempo, achei que tinha algo errado pois ela demorou muito para digitar e enviar, quando recebi a mensagem, franzi a testa tentando entender direito o motivo de sua tristeza.
—Também, mas estou terminando o ensino médio agora e meus pais vão me mandar para o Canadá para cursar medicina, eu não quero.
Acho que deixei de querer falar com ela nesse momento porque pareceu que ela é uma menina mimada que não dá valor ao que tem, eu ia responder apenas uma palavra quando ela voltou a digitar novamente.
—Veja bem, não estou sendo rebelde, mas meus pais sempre decidiram tudo na minha vida, desde as coisas mais simples até às mais difíceis, eu não sou capaz de fazer nada sozinha, eu gostaria de tomar minhas próprias decisões daqui pra frente, seja acertando ou errando. Você entende?
Não, eu não entendia não. Meus pais nunca tiveram tempo de fazer isso, eles estavam ocupados demais colocando comida na minha mesa. Agora sim eu entendi a tristeza dela, Gabrielle é uma menina solitária e que não sabe se defender, ela precisa saber como guiar seus próprios sonhos.
—Para ser sincero não, desde que eu me lembro eu mesmo faço as minhas coisas, meus pais fazem o possível para me deixar no caminho certo, mas as decisões sou eu quem tomo. É assim aqui em casa e deu certo com todo mundo. Minha irmã mais velha está cursando o que sempre quis e eu em breve estarei onde quero estar. —respondi.
—E onde é? —ela perguntou.
—Serei um oficial do exército formando na AMAN. —enviei.
Ela enviou uma carinha de assustada e depois outra de um bonequinho com uma roupa camuflada.
—Não é muito perigoso? —ela perguntou.
—Alguém precisa fazer o serviço, não é? —respondi e mandei uma carinha feliz.
—Sim, acho que sim. Eu vou ser uma pediatra, amo trabalhar com crianças. —ela enviou.
Não sei porquê, mas essa profissão parece a cara dela, nós conversamos o dia inteiro sobre nossas profissões e objetivos de vida, eu falei tudo sobre minha área para ela e ela para mim, em nenhum momento o assunto faltou, sempre que esfriava, alguém puxava mais assunto e assim foi por bastante tempo.
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3 semanas depois
Desde aquele dia eu e Gabrielle passamos a conversar todos os dias, sempre desde o bom dia até o boa noite, ela começou a me confidenciar algumas coisas bem pessoais e como resposta eu confidenciava outras. Ela acabou me contando que minha mãe trabalha na casa dela duas vezes na semana, isso gerou uma série de comentários em casa que me deixou mais quieto ainda.
Minha mãe levou ela para conhecer minha casa duas vezes desde que nos conhecemos, uma vez fomos na sorveteria da esquina com a família inteira, na segunda vez, ninguém quis ir, apenas eu e ela. Não sei dizer o que está acontecendo entre nós dois, porque passamos a ter mais proximidade desde aquele dia, quase um mês se passou e essa conexão só vem aumentando.
Eu estava sentado na mesa, a tarde, quando alguém bateu na porta, eu estava sozinho em casa, Erick estava jogando futebol com uns amigos e Lia estava na faculdade, fui abrir a porta e dei de cara com Gabrielle, parada em minha porta.
—Matheus. —ela sorriu.
—Gabrielle. —abri mais a porta e fiz sinal para ela entrar.
Apontei para o sofá e ela se sentou. Sentei também e fiquei olhando para ela, esperando que ela me dissesse o motivo de estar ali nesse horário.
—Estou atrapalhando? —ela perguntou nervosa.
—Não, claro que não. Você é bem vinda, sempre... Quero dizer, não está atrapalhando. —respondi me enrolando com as palavras.
—Ah, eu vim saber como você está, você está bem? —ela me perguntou.
—Hamm, sim, estou bem e você? —eu joguei de volta.
—Estou bem, então, sou sua amiga agora, certo? —ela perguntou. Eu franzi a testa e confirmei devagar.
—Sim, amiga... —essa palavra saiu de forma estranha da minha boca, completamente estranha.
—Então, você aceitou namorar com a menina? —ela me perguntou tentando não parecer nervosa.
Levantei a sobrancelha surpreso, porque eu não recebi nenhum pedido de namoro.
—Bom, ninguém me pediu em namoro, então... Não, não aceitei.
Nós passamos alguns segundos nos olhando antes de cair na risada.
—De onde você tirou isso? —perguntei.
—Acho que me adiantei, ouvi duas meninas falando sobre você, uma delas ia te fazer essa pergunta. Acho que estraguei a surpresa da menina. —ela falou sorrindo.
¬-Bem, eu não ia aceitar de qualquer forma. –respondi.
-Não aceitaria ela ou não aceitaria ninguém? –ela perguntou.
Nesse momento nós dois ficamos em silêncio, apenas nos olhando, Gabrielle e eu fomos devagar encostando perto um do outro.
-Bem, considerando que eu não sei quem é essa garota, eu diria que não quero namorar com ninguém. –respondi.
Ela abaixou a cabeça e ficou pensativa, Gabrielle levantou os olhos novamente e sorriu.
-Entendi, bem... acho que vou indo para casa
-Mas, se eu gostar da pessoa, eu mesmo peço isso.
Nós falamos ao mesmo tempo. Ela arregalou os olhos, aqueles olhos expressivos e brilhantes, eu coração começou a disparar e eu achei que teria um ataque do coração naquele momento.
-Eu não sei o que está havendo comigo. –falei sincero.
-Como assim? –ela perguntou.
Nós dois encostamos mais perto um do outro, a ponta dos dedos se tocaram e eu acho que quase desmaiei.
-Meu coração fica acelerado, as vezes eu penso em você e perco o sono, ou sonho com alguns momentos quando estamos juntos, não sei o que é isso, Gabrielle.
Ela acenou para mim e disse baixinho uma coisa que fez meu estômago revirar de tanta ansiedade.
-Eu me sinto assim, também.