Dezesseis

2278 Palavras
Apesar de todas as complicações do começo, aquela manhã ainda estava longe de acabar e logo depois de ter escolhido o anel, o qual achou ser digno de estar no dedo de Amélia, Thor foi direto para o estúdio, onde apresentou a partitura da melodia A Flor do Deserto, para Marzo. Ao chegar ali, ele se deparou com a bela Marta, que havia cumprido a sua semana de folga e a mesma parecia estar bem mais disposta a prosseguir com os trabalhos. Ao olhar as notas da melodia, Marta elogiou tanto a letra, quanto a música, mas sugeriu que algumas alterações em determinados trechos, fossem feitas. Thor acatou, dizendo que Marta nunca estava satisfeita com nada, porém, tudo em tom de brincadeira. Com Marzo no violino e Thor no piano, a musicista então começou a dar voz à belíssima composição feita por Thor e à medida em que a mulher cantava, era como se uma aura mágica invadisse todo local, fazendo com que os funcionários que estavam ali, se aglomerassem para ouvi-la. Não foi preciso repetir os ensaios naquele dia e Marta ficou muito feliz, pelo quanto a sua voz se encaixou com a quela canção. — Isso foi maravilhoso. — disse ela. — Eu me senti como se estivesse caminhando por um Oasis. — Mas é isso que a música, a boa música, nos proporciona. Nos faz viajar por lugares dos quais não conhecemos. Imagina quando ela estiver sendo tocada por toda uma orquestra? — Thor disse, com empolgação. — Vou ter que fazer esforço para não chorar! — replicou, Marta. — Bom, agora eu vou ter que ir, tenho algo importante para fazer, amanhã a gente se fala! — Ih, pela cara de felicidade, tem a ver com mulher. — brincou, Marzo. — Só pode ser mulher! O sorriso sereno de Thor, foi a resposta. O Maestro deixou o estúdio e seguiu direto para sua casa, onde esperava ansioso, colocar aquele anel no dedo de Amélia. Assim que chegou, ele foi logo indo à procura da mulher mais baixa, quando a encontrou de pé, enquanto observava o jardim de inverno, mas o homem notou que algo parecia não estar normal, pois Amélia apresentava um olhar perdido. — Amélia! Ele chamou, despertando assim, a atenção da jovem de olhos verdades. Ela olhou de volta para ele, com paixão e foi logo abraçando-o. Entretanto, a garota estava com um comportamento um tanto gélido e esquivo, parecendo estar tentando dizer algo, mas que lhe faltava coragem para fazê-lo. — O que foi? — perguntou ele, sussurrando. — Aconteceu alguma coisa? — Ah, Thor. Eu não queria, eu juro que não queria... — Ei! — ele, segurando o delicado rosto, por entre as mãos grandes e fortes. — Não queria, o que? O que está acontecendo? Seja o que for, pode me contar. Com a cabeça ainda baixa, apoiada sobre o peito do homem à sua frente, Amélia escondia os olhos já banhados em lágrimas, revelando-os assim que ergueu as vistas para ele. — Sua mãe. Ela me disse hoje, que não é a favor do nosso amor! — falou, em seguida ela novamente apoiou a cabeça no peito de seu amado, buscando o conforto nas batidas e seu coração. — O que foi que ela te disse? Conhecendo a minha mãe, coisa boa é que não foi... Tentando segurar a emoção, contou com detalhes, cada palavra de ameaça dita a ela, por Norabel. Thor ficava mais e mais indignado, à medida e que ouvia o relato, mas se sentiu ainda mais orgulhoso da noiva, quando a mesma relatou que estava disposta a enfrentar a sogra, para permanecer ao lado o Maestro. — Não tenha medo, amor. Nós vamos enfrentar isso juntos e para provar, te trouxe isso. — ele abriu a mão, exibindo uma caixa vermelha aveludada e ao abri-la, revelou o belo anel de ouro branco, cujo diamante cintilou as cores do arco-íris. Amélia arregalou os olhos. — Thor, eu... — Não diga nada, apenas aceite e assim, nós estaremos comprometidos por toda a vida! — ele falou, colocando-se de joelhos diante da morena, e enquanto ia introduzindo o anel em seu dedo delicado, ele proferia as seguintes palavras: — Estava eu perdido em um deserto seco; estava eu sem esperança e sem horizonte; estava eu em um limbo de incertezas; os ventos batem forte em meu rosto me fazendo perder a visão; O tempo parece nunca passar e o Sol arde em minha pele. Deserto, morte. Mas não acabou, ainda não acabou, pois até no deserto pode-se nascer uma flor. Você é a minha Flor do Deserto, Amélia! Nenhuma palavra foi dita, apenas o amor falou pelos dois e ambos se entregaram a um doce e cálido beijo, que aqueceu os corações fazendo até mesmo o frio implacável daquela tarde, perder seu poder. — Eu te amo! — disse ela, pendurando-se ao pescoço do homem maior, seguindo em sua maratona de beijos. O casal fazia suas juras de amor, mas não perceberam, que da sacada do segundo andar da mansão, um par de olhos azuis e aquecido pelo calor da raiva, o observava, já tramando qual seria o próximo passo. — Pobre Amélia — dizia Norabel, em um tom sombrio — nem vai saber de onde veio a pancada. *** Uma semana se passou e as coisas pareciam caminharem normalmente na casa de Thor, a única anormalidade foi o fato de Norabel ter deixado a casa de seu filho para se mudar para um dos apartamentos dele, no centro de Roma. Segundo a mulher, a decisão não tinha absolutamente nada a ver com o relacionamento entre ele e Amélia, e sim, porque a mesma queria ficar mais perto da agitação da cidade. Thor, Amélia e Lucia, fizeram de contas acreditarem que tal motivo tinha sim seu fundo de verdade, mas eles sabiam muito bem que a Norabel nunca fora complacente com quem não pertencia ao seu meio social. — Uma pena que sua mãe não me tolera. — disse Amélia, debruçada sobre o peito de seu noivo, após uma intensa noite de amor. — Já disse ara você não ficar fissurada nisso, amor. De uma forma ou de outra, a última palavra deve ser a minha, pois eu já enfrente os meus pais antes e hoje estou aqui! — respondeu o Maestro, em seguida deu um beijo no topo da cabeça de sua amada. — Você tem toda razão, amor. Só que eu gostaria muito de ter tido uma chance de mostrar a ela que não sou uma pessoa r**m e que ser pobre, não significa ser sem caráter! — a jovem estava mesmo ressentida com a rotulação de Norabel para com sua pessoa, então Thor, colocando um ponto final no assunto, disse à noiva que aquilo já tinha dado o que tinha de dar e que logo os dois estariam casados. *** Pouco tempo depois, o casal se levantou e foi tomar café juntos, mas Thor acabou recebendo uma ligação de seu parceiro, Marzo e teve de sair às pressas, deixando Amélia na companhia de Lucia. — Você não sabe o quanto eu estou feliz, Lucia! — disse a jovem, convidando a governanta para sentar-se ao seu lado. — Eu te disse, o Thor é diferente deles, nem parece ser filho daqueles dois! — respondeu Lucia, em seguida, ela leva uma xícara de café à boca. — E olha que eu nem conheço o pai dele. Será que é tão seco quanto a senhora Norabel? — ao ouvir o nome do pai de Thor, Lucia pareceu mergulhar em um limbo, onde nenhuma voz parecia alcançar seus ouvidos, o que foi tomado como estranho, por parte de Amélia. — Lúcia! Lúcia? — Ah, oi! — de repente, a mulher mais velha assustou-se, sendo trazida de volta à realidade e a mesma sentiu como se estivesse acabado de emergir de uma piscina profunda. — Me desculpe, Amélia, eu me deliguei por alguns segundos. O que você dizia? O questionamento não fez o menor sentido e quando Amélia iria responder, a campainha toca, era a deixa para que Lucia saísse dali. Amélia desconfiou que, sempre que Soren Gandersen era mencionado em uma conversa, Lucia parecia ficar desconfortável. A governanta fez questão de atender a porta e quando retornou, juntamente com a visita até a sala onde Amélia tomava o café da manhã, a brasileira abriu um largo sorriso quando viu sua amiga Camila, de pé diante de si. — Camila, é você! — exclamou e se levantou, apressando-se a cumprimentar a miga com um forte abraço. — E como foi a viagem para o Brasil? — perguntou ela, cheia de curiosidade. — Nossa, nem te conto. — Camila respondeu, cheia de empolgação. — Mas pelo visto, você também parece que está muito bem. — Vamos, sente-se aqui e me conta tudo. — disse Amelia. — Como está a nossa terra varonil? Camila contou que visitou apenas as cidades do litoral Sudeste, mas que tirou um tempinho para visitar a cidade natal das duas, o que deixou Amélia com um semblante descaído. Vendo que a amiga havia ficado triste, Camila sugeriu não tocar mais no assunto, mas a morena insistiu que ela devesse continuar, pois a tristeza não superava a saudade e a oportunidade de saber, mesmo que através dos olhos de outra pessoa, como estava seu antigo lar. Então, Camila continuo seu relato. Disse que a casinha onde outrora foi o lar da amiga, agora era uma pequena pousada, ideia do senhor Manoel. Ela disse também que o tio pilantra de Amélia, Antônio, assim que soube da partida da sobrinha, fora até a antiga casa de sua mãe e chegou até a entrar na justiça, exigindo o terreno de volta, mas o plano dele acabou não dando certo quando o juiz da comarca de Boa Vista, apresentou a documentação onde dizia que Amélia era a única herdeira de Dona Cândida. — Aquele meu tio... como pode uma pessoa ser tão sem escrúpulos daquele jeito? — disse Amélia, indignada. — E tem mais. — prosseguiu Camila. — Como não conseguiu o terreno perante a justiça, ele teve a coragem de ameaçar o senhor Manoel, só que os filhos do dono do mercado, não deixou barato e disse que se alguma coisa acontecesse ao pai deles, não haveria buraco fundo o suficiente, onde Antônio pudesse se enterrar! — Bem feito. — Amélia, aprovando a atitude dos filhos do comerciante. — Só assim para aquele meu tio criar vergonha naquela cara dele. É por isso que eu quero ficar bem longe, Camila, dele e daquela sonsa da Soraia! — E você faz muito bem, minha amiga. Aqueles dois ali são duas serpentes venenosas... — Mas agora me fala do passeio. Como foi? Camila contou tudo a Amélia, de suas atrapalhadas ao lado do namorado e como os dois aproveitaram ao máximo a vigem. Para Amélia, era muito satisfatório ver Camila feliz, já que a ruiva era o que ela tinha de mais parecido com uma família, isso, considerando Thor. *** Thor havia ido até o estúdio, depois de ter recebido uma ligação de Marzo, ele não quis tocar no assunto com Amélia, mas na verdade, o Maestro ficou bastante preocupado e não era para menos. Marzo disse por telefone, que algo muito sério havia acontecido e que ele deveria estar ali o quanto antes. — O que houve, Marzo? Você pareceu preocupado. — perguntou Thor, aproximando-se do parceiro. — Olha, eu nem sei como te dizer isso, mas eu recebi esse recado agora a pouco... Marzo entregou um Ipad nas mãos de Thor e o mesmo estava aberto na página de e-mail do outro músico. — Mas o que significa isso? — o loiro perguntou, parecendo ter ficado transtornado com o que estava escrito ali. O referente e-mail dizia o seguinte: “É por meio deste que o conselho de patrocinadores do projeto musical Human Light, avisa que em breve estará deixando de repassar o subsídio costumeiro a este. Os motivos? Suspeita de desvio dos devidos fins, para atrativos pessoais!” — Isso é alguma piada? — indagou o Maestro. — Eu queria que fosse, Thor, mas parece que a coisa é séria. — respondeu, Marzo. — Eles receberam uma denuncia da compra de um anel caríssimo, feito com o cartão corporativo do projeto. — Sim. Eu fiz a compra. Mas o que isso tem a ver? — inquiriu Thor. — Sempre usamos esse cartão, mas devolvemos o dinheiro depois. Você mesmo já fez isso várias vezes, Marzo! — Eu sei, mas parece que agora as coisas mudaram, Thor. Olha, eu vou tentar falar com eles, tá legal e depois te dou um parecer. — Tudo bem, faça isso. Eu vou transferir a quantia para a conta do projeto. Eu só o usei porque havia esquecido o meu cartão. Estava muito empolgado. — comentou o rapaz. Marzo assentiu. Em seguida ele pediu licença e entrou em seu carro. Após ter a certeza de que o parceiro havia deixado o estúdio, o calvo então suspirou, dizendo a alguém que os espionava atrás das cortinas, que se revelasse. — Já pode sair agora — ele falou, encarando o olhar quente e destemido, de Norabel. — So espero que eu esteja fazendo a coisa certa, pois me sinto traindo um amigo! — Não se sinta assim, Marzo. Logo tudo estará bem e ele nunca vai desconfiar de que você e o conselho, andaram desviando dinheiro dos fundos de ajuda humanitária do projeto, pelos últimos dois anos! — disse ela, em tom de ameaça. — Assim que aquela imunda estiver bem longe da vida do meu filho, você terá a sua liberdade de volta, eu prometo!  
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