pov. Eris
Quando acordei notei estar em um lugar diferente, estava em uma cama de solteiro com lençóis azul escuro. Uma escrivaninha separava a cama onde eu estava da cama onde Gabriel dormia profundamente, próximo a porta da frente tinha um pequeno guarda roupa de duas portas e do outro lado uma porta entreaberta que eu identifiquei como o banheiro por estar saindo um vapor.
Me sentei sobre a cama tentando lembrar do que houve ontem mas nada me vinha a cabeça, não conseguia me lembrar de como vim parar aqui. A porta do banheiro foi aberta e o Luiz saiu de lá apenas com a calça do uniforme, seu corpo padronizadamente largo ainda estava molhado da água do banho. Ele sorriu para mim e eu me peguei fazendo o mesmo.
- Bom amanhecer. - ele saldou sentando sobre a cama onde eu estava e calçando os sapatos.
- Bom... como eu...? - ele riu me olhando de soslaio.
- Eu não ia deixar você dormir no corredor... e antes que pense besteira, eu dormi no chão. - terminou de colocar o tênis e sentou ereto em minha frente.
- Ah, obrigada. - corei violentamente, o que os homens Elementares tem que adoram ficar sem camisa? - Eu não ia pensar nada... antes de você abrir a boca é claro.
- Não me leve a mal... Não sou chegado a ... isso. - ele gargalhou contido, me reprimi para não ler sua mente e entender o que estava falando.
- O Gabriel está bem? - mudei de assunto, não estavamos falando baixo e estranhei ele não acordar.
- Ele está drogado, analgésicos. O i****a perdeu um dente. - meu rosto de surpresa e raiva foi nítido.
- Não acredito que o Victor e o Ruan fizeram isso! - estava descrente, o coitado não merecia ter apanhado tanto.
- Não foram eles. Fui eu. - ele desviou o olhar, de repente seus olhos ficaram sombrios e apagados.
- Porque fez isso? - será que todo mundo precisava bater nele? Agora só faltava o Antony arrumar um motivo para isso.
- O que ele fez com você não foi certo, mas não foi bem por isso que eu o bati. Eris, o Gabriel é meu parceiro, lá fora a minha vida está nas mãos dele e a dele nas minhas. O problema é que se eu estiver morrendo e um Telecto aparecer na frente do Gabriel fugindo temo por ele preferir vingança ao invés de me ajudar. - sua dor parecia profunda, Luiz tinha Gabriel como um irmão, era como se a vida deles estivessem entrelaçadas. A parceria que eles tinham era um pacto de vida.
- Gabriel é movido por emoções passadas... Mas duvido que ele permita algo acontecer com você. - ele sorriu, um sorriso triste que não alcançou os olhos.
- E você é movida por emoções presentes... - ele soltou sem perceber, seu olhar se perdeu como se buscasse as palavras certas para continuar mas não as achou.
- Não vou negar... - dei de ombros, ele se levantou e caçou uma camiseta vestindo-a em seguida.
- Certo, toquinho. Vai tomar um banho antes que o Victor ou o Ruan apareçam querendo me bater. - ele jogou a toalha em minha cabeça, gargalhei e me arrastei para o banheiro.
Ao me olhar no espelho notei meu rosto um pouco mais pálido, os pensamentos a todo vapor e as emoções beirando meu consciente, minhas veias faciais pulsavam em um azul brilhoso e chamativo. Mergulhei debaixo do chuveiro e tomei um banho demorado com direito a um cabelo bem lavado, o shampoo que Luiz usava tinha um cheiro amadeirado misturado com mel, era gostoso. Terminei e vesti minha calça e a regata mas a blusa estava suja de alguma coisa. Sai do banheiro enxugando o cabelo, Luiz arqueou a sobrancelha me analisando.
- Você foi colocada na fogueira, toquinho? - ele riu, acabei por rir também e me sentei ao seu lado colocando meus coturnos e minhas luvas.
- Quase isso... tem uma blusa de frio para me emprestar? - ele parou para pensar e bagunçou o guarda roupa inteiro, por fim me entregou uma blusa de moleton verde musgo, vesti rapidamente.
- Vamos? O Gabriel vai dormir até de tarde. - ele abriu a porta e esperou que eu passasse para poder sair também. Os corredores estavam quase vazios mostrando que ainda era cedo.
- O quis dizer quando falou "não gosto disso"? - fiz aspas com os dedos e ele me olhou de cima sorrindo.
- Não disse que não gosto, disse que não sou chegado. - deu de ombros continuando o caminho para o refeitório.
- Não respondeu minha pergunta. - insisti mesmo sabendo que me arrependeria por isso.
- Não sou chegado a fragilidade. - concluiu, ele não estava disposto a falar no assunto e eu deveria desistir, mas não o fiz.
- Continuou sem responder. - revirei os olhos, ele parou em minha frente e seus olhos castanhos penetraram nos meus, sua mente se abriu parcialmente para mim em resposta.
Você é fofa toquinho, frágil até demais para mim. Meu jogo é violento, se eu fizer o que eu quero com você corro o risco de te machucar feio. Sem contar que eu gostaria e se eu gostar vou ter que bater no Ruan, no Victor e desfazer minha parceria com o Gabriel.
Eu tremi? Dos pés a ponta do último fio de cabelo da minha cabeça. Seu olhar era sombrio demais e sua voz em minha cabeça me deixou momentaneamente atordoada.
Porque?
Porque quando eu quero uma coisa, não aceito que nada fique em meu caminho. Apenas fique longe de mim quando estivermos sozinhos e tudo vai ficar bem, toquinho.
Sua mente voltou a se fechar e ele sorriu se afastando com seus passos longos. Não pareceu se importar com o que tinha acabado de me dizer e eu estava pasma com as palavras. Medo foi o que eu senti de ficar sozinha com ele novamente.
- Se demorar mais um pouco ai vai criar raízes! Vamos toquinho, ande logo! - corri para o acompanhar mantendo uma distância segura do enorme homem misterioso que agora sorria abertamente. - Das duas uma,eles ainda não acordaram ou temos problemas na regência.
Luiz falou assim que chegamos no refeitório e apenas Antony, Leticia, Felipe e Lorena estavam sentado a mesa tomando café e conversando sobre alguma coisa. Nos dirigimos para as bandejas e começamos a nos servir rapidamente, ao voltar para a mesa notei Antony olhar para mim desconfiado.
- Eris! Eu estava pensando em sairmos hoje assim que a última aula acabar, eu estava querendo comprar umas coisas e... - Leticia falava sem parar antes de alguém interromper.
- Ninguém sai da academia, ordens diretas da regência. - Victor estava com um olhar cansado e tinha bolsas escuras sob os olhos, mesmo assim sorriu quando me viu bagunçando levemente meu cabelo em um carinho. - Tivemos outra vítima, dessa vez um soldado. O regente está louco e está enlouquecendo o Tavarres.
- Telectos idiotas. - Lorena vociferou, não posso ir contra sua ideologia mas eu sou uma Telecta, eu acho. Enfim.
- Isso não vai parar. - sussurrei mas todos ouviram, parados me encarando senti meu corpo ficar menor e totalmente vermelho.
- Como sabe? - Victor me olhou com curiosidade, da mente do Silenciador eu tinha extraído muita coisa mas nem tudo fazia sentido para mim. Porém me lembro perfeitamente da tática de guerra que ele estava escutando de alguém.
- Quando eu entrei na cabeça do Telecto vi e ouvi algumas coisas, uma delas foi a tática de guerra. Eles tentaram atacar e não deu certo, por isso vão intimidat enquanto ganham tempo para atacar novamente. - falei tudo que eu tinha ouvido e o que tinha entendido. Ficaram pensativos por um tempo e então Victor se levantou.
- Quando terminarem aqui quero vocês no ginásio, o Ruby vai estar lá lhes esperando. Eris não faça nada que o Luiz disser para não fazer. Entenderam? - mas logo o Luiz? Ele me da medo! Bufei mas assenti, embora eu não desse a mínima nem para as ordens do Victor, vai sonhando que eu vou obedecer o louco do Luiz.
Ele desapareceu pelas portas duplas e eu voltei a comer tranquilamente, Leticia estava irritada por não poder sair, ela realmente queria comprar algo junto a Lorena que não me dirigiu nem um olhar. Felipe e Antony pareciam animados com alguma coisa secreta e Luiz já tinha devorado seu café. Me limitei a balançar as pernas na cadeira alta e fingir bebericar o suco que já tinha acabado só para ganhar um pouco mais de tempo.