Capítulo 04 Laura

1457 Palavras
Laura Narrando Quando eu vi que era ele dentro daquele carro, meu coração disparou de um jeito que quase me faltou o ar. Assim que ele desceu correndo na minha direção, tentei sorrir, mas meu peito apertou. Era como se algo dentro de mim já soubesse que não ia ser fácil. Ele me abraçou e, no mesmo instante que sentiu o volume da minha barriga, o jeito dele mudou. Passou a mão meio sem entender, como se esperasse outra coisa. Quem me conhecia sabia que essa barriga era lisinha, negativa. Mas agora… agora era outra realidade. Ele se afastou de mim sem me deixar dizer uma palavra. Como assim ele tá indo pra missão e nem me avisou? Meu coração não tava enganado. Ele tava gritando por ele, me empurrando pra esse encontro. Era o destino, c*****o. Último toque, último olhar… E eu nem sei por que tô falando “último”, mas foi o que senti. Aquele olhar de desprezo cortou minha alma. Ele não aceitou. Não aceitou que eu voltei grávida. E agora? Entrei no carro de cabeça baixa, sem coragem de levantar o olhar. As lágrimas vinham como avalanche, sem freio. Igor tentou conversar comigo, colocou a mão nas minhas costas, me pedindo calma. — O filho é dele? — ele perguntou, e eu só balancei a cabeça, dizendo que sim, limpando o rosto com um lencinho da bolsa. — Me leva pra minha casa, por favor. Sei que deve tá tudo sujo, cheio de poeira, mas eu prefiro ficar sozinha. Não quero ninguém falando na minha cabeça. Preciso botar as ideias no lugar, digerir tudo isso. Ele não podia ter feito isso comigo. E o pior... foi ele duvidar. Ele foi o único que eu me entreguei, p***a. De quem mais seria esse filho? Tu é burra, Laura. Muito burra. — falei baixinho, mais pra mim mesma do que pra ele. Igor ficou quieto, só dirigindo. Quando encostou na frente da minha casa, parou o carro e desceu pra pegar minhas malas. Foi aí que a Verônica passou, quase pelada, desfilando igual pavão e jogando as piadinhas venenosas dela. — A princesinha voltou... e já voltou rebaixada, porque agora a favela tem patroa — soltou ela, toda debochada. Nem dei assunto. Só entrei calada, sem querer arrumar confusão. — Liga não, menina. Essas p**a é tudo recalcada. A Verônica sabe que o NH não curte esse tipo de mulher. Ainda mais agora contigo assim. Tu tem certeza que vai ficar bem sozinha? Quer que eu chame a Tina pra vir aqui? Ou aviso tua mãe? — perguntou ele, preocupado. Balancei a cabeça negando. — Pode deixar, qualquer coisa eu mesma ligo pra ela. Só preciso de um tempo. Mas por favor… não fala pra ninguém que eu voltei. — pedi, antes de fechar a porta. Dentro de casa, tudo empoeirado, mas tava no lugar. Isso já ajuda. Subi, tirei a roupa de cama velha, botei pra lavar. Peguei um short, top, calcinha, toalha... fui direto pro banho. A água caindo no corpo me deu uma paz momentânea. Pernas doendo, cabeça fervendo. Depois do banho, preparei alguma coisa leve, comi sem fome e deitei no sofá com o celular na mão… quando a porta se abriu de repente. — Não acredito que você vai fazer isso com a gente… nem com você mesma. — falou a tia Adriele, já entrando com os dois pés. Levantei no estalo, sem paciência. — Como vocês souberam que eu tava aqui? — perguntei, vendo minha mãe entrar atrás, acompanhada da Tina. Ah, Igor… confiou errado, hein? Coloquei a mão na barriga, já imaginando o sermão. — Que merda, Laura. Tu tava pensando o quê? Chega aqui, toda prenha, se isola sem avisar ninguém... achou mesmo que ia passar batido? — disse minha mãe, como se gravidez fosse doença. — Que situação, dona Gabriela? Eu sou maior de idade, tenho minha casa, tinha outros planos. Só que nada foi como eu planejei, e eu só queria esfriar a cabeça. E Igor não tinha que ter contado nada, c*****o. — falei sentando no sofá, sem olhar pra ninguém. Tia Adriele olhou direto pra minha barriga, depois pra minha mãe e voltou a me encarar. Eu sabia o que ela tava pensando: "A Gaby sabia disso?" Mas ninguém falava nada… o silêncio foi mais pesado que qualquer grito. — Não foi ele que contou, meu amor… fui eu. — ela disse com a voz mansa, meio sem graça. — Fiquei com vergonha de aparecer aqui do nada e não saber como você ia me receber. Igor me contou que você tava muito triste, me explicou da situação e também falou do jeito que o Luan saiu daqui… Eu não podia deixar você assim, grávida, sozinha e sem resposta. — ela terminou com as mãos na cintura e o olhar preocupado. — Não era pra ser assim… — falei, já com a voz falhando. — Eu só queria encontrar ele e contar tudo, olhar no olho, sabe? Já são cinco meses guardando isso só pra mim, sem dividir com ninguém. Eu não quis falar com o Noah por telefone, porque eu sabia que ele ia largar tudo e ir atrás de mim ou me fazer voltar... E com vocês ia ser a mesma coisa. — respirei fundo, sentindo o nó apertar na garganta. — Fiz o que achei sensato, mesmo me sentindo sozinha o tempo todo. Fora os hormônios, né… vocês sabem como é. Imagina tá num lugar onde não tem ninguém pra te dar um abraço, um colo. — falei tudo de uma vez, e as lágrimas começaram a cair. Minha mãe me puxou pra um abraço, e eu desabei. Eu só precisava que ele tivesse me escutado. — Mas o Noah precisa saber… ele é o pai, né? — minha mãe falou, olhando nos meus olhos. Balancei a cabeça devagar, confirmando. — Logo agora que ele foi pra missão no quinto dos infernos… — soltou tia Adriele, já indignada. — O chefe sacaneou bonito. Mas, filha, ele precisa saber. — ela disse, e só de lembrar da forma como ele reagiu, meu peito apertou ainda mais, e chorei dobrado. — Eu tentei… juro que tentei. Mas ele não quis nem ouvir. Nem perguntou se o filho era dele. — falei com a voz embargada. — Sabe o que é se entregar pra um único homem? Ele sabia que a gente não se prevenia… a gente não é moleque, ele sabe que isso podia acontecer. Não é burro, ele tinha que saber. Mas duvidar de mim assim… isso dói pra c*****o. — falei com o coração em pedaços, sentando no sofá de novo, limpando o rosto. — Eu vou ligar pra ele. — tia Adriele disse, já pegando o celular. — Não, tia… deixa. Se ele quiser me ligar, beleza. Se não quiser… também não posso fazer nada. — falei, olhando pro teto, tentando conter o choro. — Não vou mentir… tudo que eu mais queria era um abraço dele, um beijo. Será que é pedir muito? — perguntei, com a voz bem baixinha. — Calma, princesa. A gente tá aqui com você. — Tina falou, se levantando. — Respira, tenta relaxar… isso não faz bem nem pra você, nem pro bebê. — ela disse, me puxando pra um abraço daqueles que acalmam até a alma. E eu deixei. Me entreguei, sentindo meu corpo dar uma aliviada naquela tensão toda. — A gente vai dar um jeito. Ele vai voltar logo, pode ter certeza. — disse tia Adriele, tentando tranquilizar. — Mais cedo, ele tava bolado, triste, não queria ir pra essa missão. Mas tu sabe como é… quando o comando manda, ninguém pode bater de frente. — ela falou, e eu só balancei a cabeça. Talvez ele tenha sentido o mesmo que eu… — Vou deixar ele chegar lá, se acomodar. À noite tento falar com ele, contar a minha versão. Se ele acreditar, ótimo… se não acreditar, fazer o quê? Eu vou fazer minha parte. Não tem como obrigar ninguém a confiar em mim. — falei firme, e elas concordaram com a cabeça. — Ele vai ter que acreditar, ué. Estamos falando do meu neto, não é qualquer um não. — ela soltou com aquele jeito de vó braba, e a gente até riu fraco. A tarde passou assim, entre desabafos, abraços, choro e até uma comidinha que minha mãe preparou. No início da noite, elas foram embora. Subi, escovei os dentes, coloquei meu pijama e deitei com o celular na mão. Liguei pra ele… chamou até cair. Tentei mais quatro vezes. Nada. Larguei o telefone na mesa e o cansaço me venceu. Adormeci com o coração em pedaços, e o nome dele ecoando dentro de mim. Continua.....
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