Pilotando a mente

3073 Palavras
- Jean.- Sinto alguém me balançar.- Jean, acorda. Abro os olhos e enxergo Vlad me levantando do banco, olho para os lados e não havia mais ninguém no campo apenas nós dois, o céu estava um pouco mais calmo e o sol quase não aparecia, era de tarde e eu percebi que ainda estava com os fones de ouvido. Ele estava me mantendo de pé com seus braços em volta. - Por quanto tempo eu dormi?- pergunto tirando os fones. - Por quatros horas.- responde me soltando. - Quatro horas? Perdi a aula do Sr.Carter... - É eu também.- conclui ele.- Tive que ficar aqui com você, não tive escolha. - Matou aula? Por quê? Eu podia ficar aqui dormindo. Não tinha que se preocupar comigo. Ele revira os olhos. - Claro eu que tinha.- seu tom era autoritário.- Se você já não está segura consciente imagina inconsciente. Eu franzo a testa. - Como assim não estou segura? Ele não respondeu, apenas ficou me olhando com a expressão preocupada. - Jean, você precisa... - Responde.- eu exijo calma.- Como assim não estou segura? Ele olhou para os lados, vendo se alguém estava por perto para nos ouvir. - Aqui não.- diz me puxando para sair do campo. - Vlad? O que está havendo?- pergunto assustada. Andamos até o estacionamento da escola, puxei meu braço quando paramos em frente a uma moto preta. Olhei para os lados sem saber o que estava acontecendo e quando vi, Vlad já estava me dando um capacete. - Coloque isso.- ele ordenou. - Se vai me s********r, você deve ter pensado na possibilidade de que eu posso gritar.- digo sem rodeios. Ele me encarou com o rosto impaciente. - Não vou s********r você. - Então por que me arrastou pra cá sem ao menos ter me perguntado se eu quero subir em uma ducate preta? - Entende de motos?- ele pergunta tirando alguma coisa do bolso. - Meu ex-namorado tinha uma. E ela era uma ducate preta. Ele pareceu ficar incomodado, pois já estava colocando o capacete e sentando na moto. - Vamos - mandou.- Suba logo. - Qual foi a parte que você não entendeu de que eu não vou á lugar nenhum com você? - Se você não subir, eu vou te carregar.- garantiu ele. - Eu posso correr. - Sou mais rápido.- diz ele sorrindo. Claro que ele era. Eu sento na moto em silêncio. Ele coloca a chave para ligá-la e dá a partida, ponho as minhas mãos rapidamente em volta da cintura dele com a agressão da aceleração. - Se você não se importa. - Nem um pouco.- diz ele entrelaçando mais as minhas mãos em sua cintura.- Se segura. O vento era agressivo e pesado conforme ele acelerava, fiquei pensando aonde estava me levando, se eu deveria me preocupar ou apenas relaxar enquanto ele davas as curvas, algumas gotas de água começaram a cair e depois elas se transformaram em uma chuva forte, fazendo barulho e impacto no capacete que eu estava usando. Eu gritei algo para Vlad e ele pareceu não ouvir. - Vlad! Ele não virou a cabeça, mas se endireitou na moto como um sinal de que estava me ouvindo. - Pra onde estamos indo?- perguntei alto entre o barulho da chuva. - Você vai ver!- ele gritou de volta e depois acelerou, dobrando em uma esquina deserta. O céu já estava escurecendo e conforme escurecia a chuva ficava mais forte. Tudo parecia mais amplo, mais complexo e compreensível, era como poder enxergar o mundo de forma diferente do que ele costumava ser. Encostei meu queixo no ombro dele e pude sentir o couro preto de sua jaqueta, com o calor expandido minha pele. Eu não sabia se eu estava imaginando, mas eu consegui ouvir as pessoas falando mesmo eu estando em uma moto em alta velocidade, eu conseguia sentir o cheiro de sushi fresco sendo servido em um restaurante, e eu pude enxergar as gotas caindo em câmera lenta. Como se a chuva estivesse caindo lentamente para eu poder vê-la direito. Tirei o capacete para poder sentir a chuva em meu rosto, segurei ele com a mão esquerda enquanto a outra ainda estava na cintura de Vlad. Levei a cabeça para trás e relaxei sobre aquelas gotas que caíam sobre mim, se desfazendo em água. Me senti relaxada ali, não estava mais preocupada com nada, com formatura, faculdade, Aaron ou comigo mesma. Eu apenas queria curtir aquela sensação, de estar livre totalmente em meio a natureza. Nós estacionamos em frente a um restaurante francês chamado Gastê, desci da moto encharcada e desorganizada. Vlad me encarou assim que desceu depois de mim, ele não estava encharcado como eu, seu cabelo loiro estava intacto e arrumado, apenas a sua jaqueta de couro estava molhada. Eu por outro lado, estava com o cabelo pesado e com as roupas encharcadas. Ele começou a rir de forma rebelde. - Isso é uma das coisas que acontece quando se tira o capacete.- diz ele andando para entrar no restaurante. - Engraçadinho.- debocho revirando os olhos. - Se você quiser eu posso hipnotizar todos no restaurante. Assim eles não vão encará-la como eu estou encarando agora.- diz ele me olhando dos pés a cabeça- Vai por mim. - Não me importo com o que pensam de mim.- digo dando de ombros.- Você deveria fazer o mesmo. Ele sorriu quando eu fui em direção a porta do restaurante. Entrei apressada fazendo uma entrada meio dramática e percebi que Vlad estava certo, todos estavam me encarando. Me encolhi assustada com os olhares, eles começaram a cochichar e algumas mulheres apontaram em direção as minhas roupas e o meu cabelo solto molhado. - Com licença, senhorita.- uma voz feminina falou atrás de mim. Me virei e uma garota de cabelos vermelhos uniformizada, com um crachá escrito Beth, me olhava atentamente.- Você está precisando de alguma coisa? - Eu... - Ela está comigo.- Vlad surgiu na porta. - Oh..- a garota ficou sem jeito. - Arranje uma mesa pra dois.- pediu ele.- E também peça para aqueles senhores pararem de olhar a minha amiga. Ou eu vou pedir. Ele apontou para uma mesa perto do bar de bebidas, onde estavam três homens vestidos formalmente de ternos, eles olhavam para mim com sorrisos e expressões maldosas. - Eu pedirei.- garantiu ela olhando para Vlad como se ele fosse o único ali para ela. Revirei os olhos quando ela piscou para ele. Ela nos levou até uma mesa longe daqueles homens que ainda me encaravam, sentamos e fiquei de costas para eles. - Se precisar é só chamar.- diz ela com a voz melosa encarando Vlad com os olhos ardentes. - Obrigada.- diz ele a ignorando.- Você pode ir agora. Ela se entrolhou e depois foi embora. - Ela está interessada em você.- digo apontando para a garota de cabelos vermelhos. Ele bufa. - Ela estava oferecendo muito mais do que só interesse.- diz sorrindo. - Vocês vampiros são assim o tempo todo? - Assim como?- ele perguntou ainda sorrindo.- Excitados o tempo todo? - Deus...- eu hesito quando ele sorrir ainda mais.- Esqueça. - Tudo bem.- ele relaxa as costas na cadeira. Desvio o olhar dele e volto o meu olhar para o lugar. Era mesmo um restaurante francês, o bar era cheio de vinhos tintos e brancos com plaquinhas escritas 1973, 1992, 1879..., as luzes tinham enfeites de madeira branca e as mesas pareciam aquelas mesas que usamos para fazer um piquenique em jardins. - Por que você me trouxe aqui? Ele me olhou com um ar sério. - Achei que um restaurante cheio de pessoas evitaria que você saísse correndo e gritando.- diz ele entrelaçando seus dedos. - Eu não faria isso. - Não depois do que eu tenho a dizer?- ele pergunta com a sobrancelha erguida. - Vamos ver.- digo cruzando os braços.- Estou esperando. Ele respirou profundamente e depois se endireitou. - Como eu disse antes, você não está segura Jean. Não mais. - O que? - Depois do que eu disse a você...- ele hesitou balançando a cabeça em negação.- E por você ser imune, meu pai não vai descansar até vir atrás de você. Meu queixo caiu. - Vir atrás de mim?- minha voz falhou.- Eu não fiz nada. - Você é imune. - Ele não sabe disso, ninguém sabe.- digo nervosa.- Só você. - O meu pai tem um país a favor dele, a maioria dos vampiros que o serve, são skyters. - Skyters? - São vampiros analisadores.- respondeu.- Guerreiros extremamente habilidosos que lutam para m***r. Eles estão por todo o lado Jean, são os olhos e ouvidos do Drácula. A essa altura, já sabem de você. - E como você pode ter tanta certeza disso?-pergunto.- Não tem como alguém descobrir coisas assim rápido demais. - Eles analisam você primeiro, cada passo seu, se você está infringindo a regra do equilíbrio. - E eu a infringi? Ele suspirou. - Não, a regra não se aplica aos humanos, ela só diz que nenhum de vocês devem saber sobre nós, lobisomens ou vampiros. - O que acontece se alguém a infrigi? - Para um vampiro, a punição é a exposição ao sol, ocasionando a morte.- ele toca o colar em seu pescoço. - E os lobisomens?- pergunto e em seguida me arrependo. - Não queira saber, Jean. Abracei a mim mesma quando tentei imaginar. - Se o que você diz é verdade, eu nem deveria estar aqui e nem com você.- digo me levantando, mas Vlad se adianta segurando a minha mão- Me solte. - Jean me escute.- ele exigi sussurrando.- Eu não a trouxe aqui por que pensei que você não faria nada na frente dessas pessoas. Eu a trouxe, por que eles não iriam fazer nada em um restaurante lotado de gente. - Eles? - Olhe atrás de mim.- mandou ele.- O homem de cabelo platinado. Eu me inclinei para olhar o homem que estava em uma mesa bem longe da nossa, ele não estava olhando o cardápio, ele estava usando-o para disfarçar que olhava para nós. Do lado dele tinha outro homem sentado, um homem ruivo de boné com uma expressão de observação. - São skyters. - Boa garota.- diz sorrindo.- Senti a presença deles assim que entramos. - Então por que ainda não fomos embora? - Eles não faram nada aqui.- ele responde ainda segurando a minha mão.- Pelo contrário, estaram infringido a regra do equilíbrio. - Mas não podemos ficar aqui pra sempre. O homem de cabelo platinado se inclinou para poder me enxergar. Os olhos dele brilharam em um tom de vermelho claro, não como os de vlad que eram azuis e brilhantes, mas um vermelho. - Eu posso.- brincou.- Nós vamos sair daqui. - Como? Eles parecem esperar por isso. - É só você fazer o que eu mandar. Fique aqui.- mandou se levantando. - Não!- eu sussurro firmemente. Mas Vlad já estava se movendo em direção a garçonete de cabelos vermelhos. Ela sorriu para ele exageradamente, e me dei conta de que ele estava a cantando. Ela balançou a cabeça e entregou algo para ele, em seguida ela foi até a mesa na qual os dois homens estavam. Vlad veio rapidamente até mim e me puxou pelo braço. - Vamos não temos muito tempo.- diz me levantando. Andamos até a porta do restaurante e olhei para trás, os dois homens estavam de pé, como se estivessem querendo vir atrás de nós, mas estavam sendo bloqueados pela garçonete que jogava seu charme para cima deles. Vlad tirou a chave do bolso e entregou o capacete para mim. - O que ela estava fazendo?- perguntei sentando na moto logo depois dele. - Distraindo eles.- responde ligando a moto. - Você a usou. - Para sairmos de lá. Não era o que você queria? Ele deu a partida e saímos da frente do restaurante. Mas não desse jeito, pensei. Meu estômago começou a embrulhar e as dores na nuca voltaram a latejar. - Eu não estou nada bem... Ele acelerou ao máximo quando viu um carro preto atrás de nós. Um homem saiu correndo pela rua quando nós passamos com agressividade. Minha visão apagou e voltou como um flash de luz nos olhos. Sonhar é prazeroso... A frase surgiu na minha cabeça tão rápido, que não tive tempo para lembrar de onde eu tinha a visto. Apertei os olhos para poder enxergar, mas de alguma forma, só fez com que a minha visão ficasse mais fraca. - Vlad... Foi a última coisa que eu disse depois de desmaiar. **** O vento entrava suavemente pela janela do quarto aberta. Ursinhos de pelúcia estavam espalhados em prateleiras de vidro e as paredes cheias de pinturas das nossas viagens em família. - Você não está sozinha. Olhei para o lado e vi meu pai sentado ao meu lado na cama, acariciando meu rosto com um sorriso orgulhoso. Os cabelos castanhos dele estavam bagunçados e ele ainda usava seu jaleco de cientista. - Não estou.- digo embrulhando meus pés com o cobertor.- Mais por que você vai embora? Seu sorriso desapareceu. - Eu não vou embora, joaninha.- seu tom era triste.- Só irei para o Tibete por algumas semanas... Encaro a noite através da janela, estava tão calmo e frio. - Me prometa que vai voltar logo. Eu tenho pesadelos quando o senhor não volta. Ele virou os olhos para mim, espantado. - Com que frequência? - Toda vez que eu estou triste ou zangada. A mamãe vai estar o mês todo fora e Ross e eu vamos ficar com aquela babá que dorme a maior parte do tempo de olho aberto. É assustador!- respondo.- Por favor papai, não me deixe aqui sozinha. Ele arregalou os olhos e se inclinou para beijar a minha testa. - Você já tem quase doze anos. Não precisa ter medo dos seus pesadelos. - E o que eu devo fazer? - Enfrente-os.- ele se levantou da cama.- Enfrente-os tendo sonhos. Eu franzi a testa confusa. - Eu posso fazer isso? - Mas é claro que pode.- diz indo em direção a porta.- Sonhar é prazeroso, e quanto mais você sonha, mais você tem o controle da sua mente. Mostre aos seus pesadelos quem é quem manda. Suspirei lentamente e depois concordei com a cabeça. - Eu vou tentar. Ele sorriu puxando a porta para fechá-la. - Boa noite Jean. Acordo espantada e me deparo com Vlad andando em círculos preocupado. Ele parou de andar quando acordei e veio na minha direção mais calmo. - A gente tem que parar de se encontrar assim.- diz ele sentando na cama com um sorriso. - O que aconteceu?- pergunto me endireitando para sentar na cama. - Você caiu. Ergui as sombracelhas surpresa. - Eu caí? - Não exatamente. Você caiu da moto, mas eu a soltei para poder pegar você. Estou de luto, ela era a minha moto preferida. - Como....- olho para os meus pés ainda com os tênis.- Como isso foi acontecer? - Me diga você. Eu estava tentando despistar os skyters e do nada você resmungou algo e...- ele foi interrompido por batidas na porta. - Jean?- era Ross batendo.- Você está bem? Por que a porta está trancada? Olhei rapidamente para Vlad que deu de ombros. - É que eu...- hesitei pensando.- Estava estudando para um teste e precisava muito de concentração. - Tudo bem.- Ela responde.- Tem alguém aí com você? - O que? Não! - Sério? Por que eu ouvi outra voz aí dentro.- insistiu ela. - Ross eu estou com alguém, ok. Ela abafou uma risada. - É aquele novo vizinho gato da casa ao lado? Por que Jesus... - Ross vá logo! - Ok, ok. Eu vou.- Ela diz se afastando da porta. Me jogo na cama e enterro o rosto entre os travesseiros. - Acho melhor você ir.- digo envergonhada. - E você ainda corre perigo, não se lembra? - Eu sei, mas isso não quer dizer que tem que ficar me vigiando a cada cinco minutos ou quando também estou desmaiada- declaro ainda com os travesseiros no rosto. Ele se levanta e caminha até algum lugar do quarto. Tiro os travesseiros e vejo Vlad sentado na beirada da janela com um sorriso curto. - O que você está fazendo? - Indo embora.- diz se inclinando.- Se precisar de mim, sabe onde me encontrar. Você pode contar comigo Jean, não sou o inimigo. Corro rapidamente para a janela quando ele pula. Olho para os lados e não havia sinal dele nas ruas do condomínio. Dei um salto de susto quando o meu celular tocou. Era Aaron ligando, olhei mais de três vezes para checar se eu não estava lendo o nome errado, mas era ele. - Jean? - Você ainda tem a d***a do meu número.- digo e ele ignora. - Não temos tempo pra isso agora.- ele diz e sua voz soa assustada.- Liga a TV no canal 9. - Mas o que? Aaron.. - Liga agora!- diz quase gritando. Suspiro pegando o controle remoto em cima da cama, coloco no canal 9 e largo o controle no chão quando vejo a foto de Dylan na tela. "A adolescente Dylan Clayton de 17 anos está desaparecida há 72 horas e não deu nenhum vestígio de vida. Os responsáveis da jovem já solicitaram patrulhas de busca, mas não tiveram nenhum progresso." Disse a repórter do jonal local em frente a casa de Dylan. Eu pego o celular e coloco no ouvido. - Aaron? - Você viu?- ele pergunta.- Ela está desaparecida. - Olha eu a conheço e você também, ela pode estar na casa de alguém ou.. - Ninguém a viu desde que fomos ao parque de diversões. - Pera aí, vocês foram ao parque de diversões?- pergunto intrigada. - Essa não é a questão. - Ok, tudo bem. Eu vou ligar pra Olive e ver se ela viu alguma coisa. Tá? Você vai ver, ela deve estar na casa de algum namorado ou Seilá. - Tudo bem.- concorda e eu desligo. Olhei para a TV ainda ligada com a foto de Dylan. "Nós temos dinheiro, se você a sequestrou, por favor solte-a. Iremos pagar qualquer quantia, mas devolva a nossa filha." O pai de Dylan diz acabado ao lado de sua esposa. "Por favor... Não a machuque, é a nossa menina. A nossa garotinha, por favor, só queremos a nossa garotinha..." A mãe de Dylan implora chorando na TV.
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