— O QUE SOBRA DEPOIS DA GUERRA

958 Palavras
O território do Norte não voltou ao normal depois da queda de Sara. A paz nunca retorna inteira quando a magia n***a toca a terra. Ela apenas se reorganiza, como um corpo que aprende a viver com cicatrizes. Clara sentia isso todos os dias, logo ao acordar, no silêncio que se estendia além das janelas da casa da matilha. Paulo também sentia. Ele não falava sobre isso, mas o olhar estava mais atento, o corpo sempre pronto. A liderança cobrava um preço invisível, e ele o pagava sem reclamar. A diferença era que agora não estava mais sozinho. Clara ocupava um lugar que não podia ser negado. Não apenas como Luna destinada, mas como pilar da matilha. Os lobos vinham até ela em busca de cura, orientação e, às vezes, apenas para ouvir sua voz. Ela não prometia milagres. Apenas presença. E isso bastava. Na enfermaria, Claudio ajudava silenciosamente. Ele era jovem, magro, com olhos atentos demais para alguém da sua idade. Desde o ataque final ao Leste, ele se tornara indispensável. Aprendia rápido, obedecia sem questionar e observava Clara como quem tenta memorizar cada gesto. Clara percebeu o peso que ele carregava quando o encontrou sozinho, limpando instrumentos que já estavam limpos. Ela perguntou por que ele não descansava. Claudio respondeu que enquanto os outros dormiam, ele precisava garantir que ninguém mais fosse ferido. Ela entendeu. Havia visto aquele mesmo tipo de culpa no espelho durante muito tempo. Paulo apareceu na porta naquele momento. Observou os dois em silêncio antes de dizer que havia recebido notícias do Conselho. Sara havia acordado. A notícia não trouxe alívio. Apenas tensão. --- Sara estava contida em uma cela reforçada com runas antigas. O corpo parecia menor do que antes, como se parte dela tivesse sido drenada junto com a magia que usara. Os olhos, antes arrogantes, agora estavam opacos, mas não vazios. Ainda havia algo ali. Raiva. Frustração. Talvez arrependimento, embora Clara não confiasse nisso. Paulo permaneceu de pé, distante. Clara se aproximou. Sara sorriu, fraco, torto. Disse que sempre soube que perderia. Disse que o erro não foi tentar tomar o lugar de Clara, mas subestimá-la. Clara não respondeu de imediato. Observou as marcas negras que ainda manchavam a pele da mulher. O preço da magia não perdoa. Sara confessou sem rodeios. Disse que nunca amou Paulo. Amava o poder que ele representava. Amava a ideia de ser temida, obedecida, desejada. Disse que quando percebeu que Clara não podia ser removida, decidiu destruí-la. Clara perguntou sobre Isa. Sara desviou o olhar pela primeira vez. Disse que nunca pretendia matá-la. Precisava de energia jovem. Vulnerável. Disse isso como se explicasse algo simples. Paulo encerrou a conversa. Disse que o Conselho decidiria o destino dela. Mas garantiu que nunca mais pisaria livremente em território algum. Quando saíram da cela, Clara respirava com dificuldade. Não por medo. Por cansaço. Paulo segurou sua mão e disse que aquilo tinha acabado. Mas os dois sabiam que o fim nunca é limpo. --- Os dias seguintes trouxeram reconstrução. A matilha do Norte absorveu grupos dispersos do antigo Leste. Lobos feridos, famílias quebradas, jovens sem liderança. Paulo impôs regras claras. Nada de vingança. Nada de submissão forçada. Quem ficasse teria que aceitar a nova ordem. Alguns partiram. Outros ficaram. Clara começou a estruturar um sistema de cuidado mais amplo. Não apenas curas físicas, mas acompanhamento psicológico, ainda que ninguém chamasse assim. Ela escutava. Observava. Identificava padrões. Sabia que traumas ignorados apodrecem. Claudio passou a acompanhá-la em quase tudo. Ele tinha mãos firmes e um olhar que buscava aprovação. Clara começou a ensiná-lo mais profundamente. Ervas. Reações. Limites. Responsabilidade. Um dia, ele perguntou se ela nunca teve medo de se tornar poderosa demais. Clara respondeu que o medo nunca esteve no poder, mas em quem tenta usá-lo para preencher vazios. Claudio guardou aquilo como quem recebe uma ordem silenciosa. --- A presença online de Clara crescia sem que ela buscasse. Vídeos simples, mostrando técnicas de recuperação, alimentação adaptada para lobos feridos, equilíbrio entre instinto e razão. O mundo sobrenatural observava. Comentava. Compartilhava. Paulo não gostava da exposição, mas entendia o alcance. Disse apenas que reforçaria a segurança. Foi Claudio quem percebeu o padrão estranho nos acessos. Picos vindos do Leste. De regiões específicas. De servidores antigos ligados à família de Kauã. Clara sentiu o estômago se fechar ao ouvir o nome. Paulo também. Eles sabiam que Kauã não havia sido totalmente silenciado. Apenas derrotado. E homens como ele não aceitam perder. --- A tentativa veio rápido demais. O sequestro foi quase bem-sucedido. Clara saía de uma gravação quando o cheiro mudou. O instinto gritou. Ela reagiu antes de pensar. O corpo lembrava. O trauma também. Houve luta. Clara feriu um deles. Claudio apareceu e puxou o alarme. Paulo chegou segundos depois. Os invasores recuaram. Não levaram Clara. Mas deixaram o aviso. Kauã ainda a queria. E agora sabia exatamente onde ela estava. --- A noite caiu pesada. Clara sentou-se na varanda, encarando a floresta. Paulo se aproximou e sentou ao lado dela. Nenhum dos dois falou por um tempo. Ela disse que não queria fugir. Ele respondeu que não permitiria que ela fosse caçada novamente. Ela disse que Kauã nunca pararia enquanto acreditasse que podia possuí-la. Paulo entendeu o que ela não disse em voz alta. A guerra não estava completamente encerrada. Mas agora, eles estavam preparados. Não mais separados. Não mais confusos. Não mais quebrados. Clara apoiou a cabeça no ombro dele. Sentia o vínculo firme, estável, profundo. Não como uma prisão, mas como uma escolha diária. Paulo segurou sua mão com força suficiente para prometer proteção, não controle. Naquela noite, a matilha dormiu alerta. E pela primeira vez desde o início de tudo, Clara não sonhou com o passado. Sonhou com o que ainda viria.
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