A noite parecia mais silenciosa depois da captura de Sara, como se a própria floresta respirasse aliviada. Mas Clara não conseguia dormir. Mesmo deitada ao lado de Paulo, sentindo o calor do corpo dele, o ritmo firme de sua respiração e o peso confortável do abraço envolvendo sua cintura, a mente dela insistia em andar em círculos. A imagem da magia n***a se quebrando ainda queimava atrás das pálpebras.
Paulo acordou antes do sol nascer. Ele sempre acordava assim, como se o corpo já estivesse preparado antes mesmo da luz tocar a terra. Clara fingiu dormir, mas sabia que ele percebia a inquietação dela. Ele passou a mão devagar pelo rosto dela antes de se levantar, e só esse gesto bastou para aquietar um pedaço da dor que ela carregava no peito.
Quando finalmente se levantou, Clara encontrou Isa na cozinha da sede. A adolescente bebia um chá amargo, pálida e abatida, mas viva. Só o fato de vê-la ali já fazia um nó se desfazer no peito de Clara.
Isa olhou para ela com olhos brilhando de culpa. Disse que não deveria ter saído sozinha, que sabia que era perigoso. Mas Clara apenas puxou a cadeira e sentou ao lado dela. Passou a mão pelos cabelos da garota, e Isa se inclinou como uma criança procurando abrigo.
Clara disse que nada daquilo era culpa dela. Disse que Sara escolhera um alvo fácil, alguém indefeso, para alimentar sua feitiçaria. Isa respirou fundo e encostou a cabeça no ombro dela, como se Clara fosse o único porto seguro possível.
Paulo apareceu alguns minutos depois, já com o olhar de Alfa ligado. A presença dele preenchia todo o ambiente, pesada e protetora. Disse que haveria uma reunião emergencial com o Conselho da Matilha. Sara tinha confessado tudo, inclusive os métodos que usara. E o Conselho queria saber se Clara conseguia identificar o tipo de magia envolvida.
Clara sentiu o coração apertar. Ela sabia que podia. Mas também sabia que aquilo significava entrar em contato com algo que a marcara profundamente. Magia n***a tem o hábito de deixar cicatrizes invisíveis; ela sentia isso no corpo, nos ossos, nas lembranças. Mesmo assim, assentiu. Não podia permitir que outros corressem o risco que Isa correu.
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A sala do Conselho era ampla, cercada por paredes de pedra antiga. Os líderes estavam sentados em semicírculo, observando Clara com atenção. Paulo estava ao lado dela, firme, implacável, como se não fosse permitir que ninguém chegasse perto demais. Ela inspirou fundo antes de começar a explicar.
Contou como encontrou Isa. Descreveu a sensação do toque na energia drenada. A vibração úmida e pesada que só feitiços proibidos deixam para trás. Explicou que a magia usada por Sara não era apenas uma tentativa de engravidar à força, mas um ritual de dominação, algo que poderia controlar completamente a mente e o corpo do alvo se tivesse sido concluído.
Os líderes se olharam em choque. Alguns pareceram nauseado, outros revoltados. Uma anciã, rígida como mármore, perguntou se o ritual poderia ter afetado Clara de algum modo.
A resposta veio antes mesmo que Clara abrisse a boca. A loba dentro dela sussurrou uma única palavra.
Sim.
Clara respirou fundo. Disse ao Conselho que, embora tivesse quebrado o feitiço, parte da energia n***a ficou presa nela por alguns instantes. Disse que Paulo ajudou a estabilizá-la, mas que ainda sentia pequenos fragmentos da força suja tentando se aproximar de suas emoções mais profundas.
Paulo virou o rosto para ela, visivelmente tenso, como se qualquer sinal de dor precisasse ser arrancado dela com as próprias mãos.
O Conselho concordou que Sara deveria permanecer isolada, cercada por runas de contenção e supervisionada por guardas com treino em defesa espiritual. Clara sentiu um alívio estranho. Não queria vingança. Queria paz. Queria descanso. Queria olhar para o futuro e vê-lo claro, não manchado de sombras.
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Quando a reunião terminou, ela e Paulo caminharam para fora da sede. O ar frio tocou a pele dela como uma limpeza suave. Paulo parou, virou o corpo inteiro para ela e segurou seu rosto com as duas mãos.
Ele disse que sabia que ela estava tentando ser forte. Disse que estava orgulhoso. Mas também disse que ela não precisava carregar tudo sozinha.
Clara fechou os olhos. A verdade era que, desde o sequestro, desde o despertar abrupto da memória, desde o reencontro com Paulo... ela vinha lutando contra a sensação constante de que algo podia ser arrancado dela de um momento para o outro. Kauã deixara marcas profundas, e Sara acrescentara novas cicatrizes.
Paulo aproximou a testa da dela e ficou ali, respirando junto, até que o corpo dela finalmente relaxou. Só depois disso ele a levou para o quarto deles. Não para que descansasse à força, mas para que tivesse um lugar seguro onde pudesse voltar a respirar.
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Horas depois, um novo alvoroço movimentou a base. Clara acordou com gritos lá fora. Paulo já estava puxando uma camisa quando ela o seguiu. O cheiro de sangue fresco chegou primeiro.
Dois guardas arrastavam alguém cambaleante. O corpo magro, os cabelos desgrenhados, o olhar em puro desespero. Era Sara.
Mas não como antes.
As runas de contenção estavam queimadas na pele dela. A energia n***a que ela usara havia começado a consumir seu corpo de dentro para fora. Era o preço pela tentativa de ritual proibido. Nenhum humano, lobo ou bruxa sai ileso desse tipo de pacto.
Sara tremia. Caiu de joelhos. Olhou para Clara como se a odiasse e implorasse por ajuda ao mesmo tempo.
Clara sentiu um aperto no peito. Não por pena da mulher que tentou destruir tudo o que ela amava, mas pelo horror de ver até onde o ódio pode levar alguém.
Paulo colocou o corpo entre elas, como faria sempre, como faria para o resto da vida. Disse aos guardas para levarem Sara para a enfermaria mágica, porque não permitia que alguém morresse assim em seu território — nem mesmo ela.
Sara tentou protestar, balbuciando que Clara tinha roubado sua chance, que Paulo deveria ter sido dela, que o destino havia sido manipulado. Mas a voz falhou. Os músculos falharam. A magia se desfez. Ela desmaiou antes de terminar a frase.
Clara ficou parada ali, observando enquanto a arrastavam, sentindo a própria respiração pesar no ar.
Paulo se aproximou. Pegou a mão dela. Disse que aquilo era o fim, que não precisava mais ter medo. Disse que Sara nunca mais levantaria outra arma contra eles.
Clara se inclinou e deixou a cabeça encostar no peito dele. Queria acreditar. E parte dela já acreditava.
Mas outra parte sabia que embora Sara estivesse caída, a guerra contra as sombras ainda não tinha terminado.
Não enquanto a magia n***a continuasse rondando suas memórias.
Não enquanto o passado pudesse ressurgir em qualquer momento.
Não enquanto Clara e Paulo não fechassem todas as portas que ainda permaneciam abertas.
Mas pela primeira vez desde que tudo começou, Clara sentiu esperança.
E aquilo era suficiente para começar.