— O PREÇO DA ESCURIDÃO

1025 Palavras
O ar parecia carregado naquela manhã na Matilha do Sul, como se até o vento tivesse parado para observar Clara enquanto ela cruzava o pátio interno. Havia semanas desde que ela e Paulo haviam derrotado Kauã juntos, e a união deles só ficava mais forte. O vínculo entre Alfa e Luna crescia de um jeito tão natural que até os guerreiros mais antigos comentavam. Mas nem tudo era paz. Desde a queda do Leste, um rumor incômodo começará a rastejar pelas paredes como uma sombra: Sara não havia fugido. Ela estava ali em algum lugar, escondida, se alimentando do próprio rancor. Clara sentia a presença dela como uma pulsação distante, uma vibração incômoda na nuca. Sua loba, que agora falava com mais clareza, murmurava que algo r**m estava se movendo, como a ponta de uma lâmina prestes a tocar a pele. Paulo, por outro lado, não tirava os olhos dela nem por um minuto. Ele percebia que Clara estava inquieta, mas não queria puxar essa corda. Só que naquela noite, o destino puxou por eles. Tudo começou durante uma reunião entre os líderes. Clara organizava algumas ervas secas, preparando um unguento para um guerreiro ferido. O gesto, que antes parecia simples, agora era parte do brilho da sua nova vida. Ela se tornou a melhor curandeira do Sul, admirada pela precisão e sensibilidade. Paulo observava de longe, apoiado na porta, como se só de vê-la respirar já ficasse mais calmo. Mas o clima se quebrou quando um lobo jovem entrou correndo, pálido, como se tivesse visto um fantasma. Ele disse que Isa estava desacordada no bosque. Isa, a irmã de Paulo, uma adolescente que adorava contrariar ordens e sair escondida quando queria um pouco de liberdade. Estava ferida, caída entre raízes secas, como se tivesse sido atacada. Paulo não pensou duas vezes e correu com Clara logo atrás. Isa estava pálida demais. Clara se ajoelhou, pousou a mão sobre a testa dela e percebeu uma coisa imediata: aquilo não era um ataque comum. Algo a drenara. A energia espiritual da garota parecia ter sido puxada, arrancada à força. A loba de Clara sussurrou dentro dela, rouca e alarmada. É magia. Magia suja. Reconheço esse cheiro. Clara olhou para Paulo em silêncio, e ele entendeu sem que ela precisasse dizer. Um nome se formou entre eles como veneno. Sara. A partir dali, a noite virou uma caça às cegas. Os rastros eram sutis, quase imperceptíveis, mas Clara conseguia sentir a magia retorcida que impregnava o ar como um perfume tóxico. Eles seguiram até uma parte antiga do território, onde árvores gigantescas escondiam ruínas que quase ninguém visitava. E aí, uma risada ecoou. Sara saiu das sombras com um sorriso vitorioso, como se estivesse prestes a ser coroada. Seus olhos estavam brilhando de um jeito febril. E o mais chocante: sua barriga parecia levemente inchada. Clara sentiu um arrepio na espinha. Paulo ficou rígido, o corpo pronto para o ataque. Sara ergueu as mãos, satisfeita. Disse que finalmente tinha conseguido. Disse que em breve se tornaria a Luna legítima. E então, largou a bomba. Admitiu que havia usado feitiços proibidos, aqueles arrancados dos livros negros, para tentar engravidar de Paulo. Disse que precisava de um herdeiro Alfa. Disse que seria sua maneira de se elevar, de apagar Clara da história. Clara sentiu o estômago virar quando ouviu o resto. A tentativa de envenenar Isa. Os rituais escondidos na escuridão. As oferendas feitas com sangue que ela mesma arrancara dos lobos que capturaram. E a parte mais repugnante: o feitiço que pretendia usar naquela noite. O ritual final, aquele que destruiria Clara de dentro para fora. O silêncio que se seguiu foi tão denso que parecia física. Sara manteve o sorriso, achando que tinha vantagem. Mas Paulo estava prestes a explodir. O olhar dele ardia. Clara sentiu o vínculo deles pressionando contra a pele. Sara avançou um passo, delirante, dizendo que não importava o que fizessem. Que já estava marcada pela linhagem dele. Que a magia garantiria a gravidez. Clara respirou fundo, aproximou-se e fitou a barriga da mulher. Quando pousou a mão ali, sentiu a energia escura pulsar. Era magia, nada mais. Uma ilusão criada por força n***a, sustentada por ódio e desespero. Uma farsa que podia ser quebrada. Clara fechou os olhos, canalizou a própria força, e puxou. A energia suja entrou em conflito com a dela, tentando queimar seus ossos, mas a loba rugiu dentro de sua mente, fortalecendo-a. Quando Clara abriu os olhos, a falsificação se desfez. A barriga falsa murchou como fumaça. Sara gritou, enlouquecida, dizendo que Clara havia destruído sua única chance. Tentou lançar outro golpe, uma rajada de magia feita para rasgar pele e alma. Mas Clara desviou. Paulo avançou ao mesmo tempo. Eles se moveram como um só organismo, instintivos, conectados, inevitáveis. Sara ainda tentou lutar, mas o poder dela já estava se desmanchando. A magia n***a cobra caro, e ela estava no limite. Quando ela tentou fugir, Paulo a derrubou. Clara colocou as duas mãos sobre o peito dela, e uma luz dourada queimou a energia escura que Sara escondia no corpo. A magia maldita gritou. Sara tentou levantar, mas Paulo segurou seus pulsos enquanto Clara finalizava o selo de contenção. Sara caiu desacordada, exausta, vazia. Paulo olhou para Clara, respirando pesado. Não houve vitória na expressão dele. Apenas alívio por ter acabado. Clara desviou o olhar para o corpo frágil e derrotado no chão. Não havia prazer ali também. Só pena — e um aviso silencioso: ninguém que brinca com magia n***a escapa do próprio fim. Os guerreiros chegaram minutos depois, chamados por Isa, quando acordou com as últimas forças. Sara foi levada para a prisão mágica, onde ficaria sob vigilância, proibida de usar sequer um sopro de energia. Clara e Paulo caminharam de volta juntos. Não era o fim da luta deles. Só o fim de uma sombra antiga que finalmente tinha caído. E pela primeira vez naquela noite, quando Paulo entrelaçou os dedos nos dela, Clara sentiu algo tranquilo florescer dentro do peito. Não era apenas amor. Era um destino ecoando em silêncio. Eles estavam juntos. E nada, nem magia n***a, nem passado, poderia quebrar isso.
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