- Você é minha Luna

1356 Palavras
A luz da manhã filtrava entre as árvores quando Clara e Paulo retornaram para o território do Sul. O céu ainda estava tingido de tons rosados, e o cheiro de terra úmida anunciava que chuva não tardaria. Tudo parecia mais silencioso do que o normal, como se a floresta estivesse observando os dois com respeito. Ou talvez fosse apenas a forma como Clara agora percebia o mundo: tudo parecia mais vivo, mais nítido, como se a loba dentro dela tivesse aberto um novo sentido. Paulo caminhava ao lado dela sem pressa, atento a cada som, a cada movimento distante. Ele não tocava nela o tempo inteiro, mas Clara sentia a presença dele como um calor constante, como um cordão invisível que ligava os dois desde a batalha. Toda vez que o olhar dele encontrava o dela, havia algo ali que ela ainda não conseguia decifrar, mas que acendia um brilho quente dentro do peito. Havia uma tensão entre eles, mas era diferente de antes. Antes era a tensão de dúvidas, medos, feridas abertas. Agora era outra energia, quase elétrica, como se o próprio ar soubesse que algo ali tinha mudado de forma permanente. Quando chegaram ao hospital da matilha, a equipe correu ao ver os dois ensanguentados e exaustos. Paulo levantou a mão para impedir qualquer aproximação brusca. Clara percebeu que não era autoridade. Era instinto. Ele estava protegido, ainda mais agora que sabia exatamente o que ela significava. Eu estou bem, ela disse antes que alguém pudesse se aproximar. O que importava era tirar aquele terror silencioso do rosto do pessoal da enfermaria. Mas Paulo não relaxou. Ele examinou o rosto dela, o pescoço, os braços, como se procurasse algum risco que ela pudesse estar escondendo. Você perdeu muito sangue, ele murmurou. Clara sentia a preocupação dele vibrar no ar. Estou bem, ela repetiu. E, pela primeira vez, ela não disse isso apenas para acalmar alguém. Ela realmente estava. Pela primeira vez desde que tudo começou, Clara sentia força em cada parte do corpo. Como se a loba tivesse reparado fissuras que ela nem sabia que existiam. Paulo soltou o ar devagar. Ele não estava convencido, mas não insistiu. Isa apareceu no corredor correndo como uma flecha e quase derrubou Clara com um abraço forte. Você voltou. Eu sabia que você ia voltar. Clara apertou a adolescente com cuidado, sentindo o tremor do corpo dela. Isa era mais forte do que parecia, mas aquela menina tinha visto dores demais para a idade. Quando ela recuou, os olhos estavam cheios de lágrimas, mas também de algo que parecia alívio puro. Paulo relaxou um pouco ao ver a irmã, mas a atenção dele permaneceu em Clara. Até Isa notou. Ela está bem, mano, Isa disse, limpando o rosto. Não precisa ficar encarando como se fosse desmontar. Paulo suspirou e desviou o olhar, como se tivesse sido pego em flagrante. Clara sorriu de leve. Era bom ver aquela parte dele — o Paulo humano, o irmão mais velho, não apenas o Alfa. Depois dos exames, Clara foi liberada para descansar em um dos quartos da ala principal. Paulo a acompanhou até lá, recusando qualquer tentativa de o pessoal da matilha assumir a escolta. Quando entraram, o quarto estava silencioso e arrumado, com lençóis limpos e uma janela aberta deixando a brisa fresca entrar. Clara caminhou até a cama, mas parou antes de sentar. Paulo ficou de pé perto da porta, como se estivesse travado entre vontade de se aproximar e medo de ultrapassar um limite. Você pode chegar perto, Paulo, ela disse, sem encarar diretamente. Não precisa ficar aí como se estivesse guardando a saída. Ele se moveu lentamente, como se cada passo carregasse um peso. Quando ficou a poucos centímetros dela, o quarto inteiro pareceu ficar menor. Eu não quero fazer nada que te pressione, ele disse, num tom baixo que parecia arrancado do fundo da alma. Você passou por coisas demais. Mesmo agora… eu posso sentir como você está lutando para respirar com calma. Clara sentia. O corpo dela ainda oscilava entre o instinto e a lucidez. A loba rugia, inquieta, sentindo a presença dele. Mas não era ameaça. Nunca ameaça. Era outra coisa mais selvagem, mais profunda, mais inevitável. Paulo ergueu a mão, devagar, como se pedisse permissão silenciosa. Clara fechou os olhos e inclinou a cabeça para receber o toque. A mão dele acariciou a lateral do rosto dela, quente, firme, segura. A loba acalmou instantaneamente. E Clara sentiu o coração acelerar de um jeito tão forte que quase doeu. Eu achei que tinha perdido você, Paulo murmurou, a voz quase quebrando. Quando vi você na casa dele… quando percebi que você lembrava de tudo… foi como se o chão tivesse sumido. Eu pensei que você não ia querer voltar comigo. Pensei que você ia olhar para mim e ver mais dor. Clara abriu os olhos e encontrou os dele. Havia tanta verdade ali que era impossível olhar por muito tempo sem sentir o peito arder. Eu sempre voltei para você, ela disse com um sorriso pequeno. Mesmo quando não lembrava quem eu era… meu corpo lembrava você. Paulo fechou os olhos como se as palavras dela atingissem o centro do peito. Clara tocou o braço dele, deslizando a mão até o antebraço. O músculo tensionado reagiu como se respondesse ao toque dela instintivamente. Ela sentiu um arrepio percorrer o corpo. Eu estou aqui porque é aqui que eu quero estar, ela continuou. Não é por laço, por destino ou por batalha. É por você. Paulo passou o polegar pelo maxilar dela, num gesto lento e quase reverente. Eu quero cuidar de você, Clara. Não porque você precisa, mas porque eu preciso. Ela segurou o pulso dele, mantendo a mão dele ali. Então cuida. Eu não estou indo a lugar nenhum. O silêncio que seguiu não era desconfortável. Era denso, cheio de uma promessa que ainda estava nascendo. Os dois ficaram ali por alguns segundos — ou talvez minutos — sem pressa, sem medo, respirando no mesmo ritmo, como se o mundo ao redor não existisse. Até que a porta bateu duas vezes. Era Isa, trazendo uma bandeja com sopa e remédios. A menina entrou devagar, mas abriu um sorriso assim que viu a expressão dos dois. Um sorriso esperto, intrometido, típico de quem sabe exatamente o que está acontecendo. Eu trouxe comida, Isa anunciou. Mas se quiserem posso voltar depois. Bem depois. Tipo, daqui umas duas horas. Clara riu baixinho, e Paulo passou a mão no rosto como se tentasse esconder o rubor. Mas Isa já tinha visto. Ela largou a bandeja na mesa do canto e saiu quase pulando de alegria. Quando ficaram sozinhos novamente, Clara se sentou na cama. Paulo ficou parado por um momento, observando ela com aquela intensidade que a fazia estremecer. Eu vou ficar aqui. Na cadeira, ele disse, apontando para o canto. Só até você dormir. Só para ter certeza de que está segura. Clara balançou a cabeça devagar. Eu não quero você na cadeira. Paulo congelou. Quero você aqui. Ela deu um leve tapinha no espaço ao lado dela na cama. Paulo respirou fundo, como se precisasse daquilo para não perder o controle. Ele se aproximou, sentou devagar e ficou com as mãos apoiadas nas coxas, como se temesse tocá-la sem permissão. Clara se aproximou primeiro. Encostou a cabeça no ombro dele, sentindo a respiração dele falhar por um segundo. O corpo dele ficou rígido… depois relaxou, como se finalmente tivesse encontrado o lugar onde sempre quis estar. Paulo virou o rosto devagar e encostou os lábios na testa dela, num beijo lento, cuidadoso, cheio de algo que Clara não sabia nomear, mas sentia em todo o corpo. Você é minha Luna, ele murmurou contra a pele dela. Não importa o que aconteça a partir de agora. Clara fechou os olhos. E você é meu Alfa. O quarto ficou em silêncio. A chuva começou a cair do lado de fora, criando um som suave que embalava o momento. E pela primeira vez desde que voltara para o Sul, Clara sentiu que estava exatamente onde deveria estar. Nos braços dele. Dentro do lar que sempre foi dela.
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