- Alfa e Luna

1104 Palavras
A floresta parecia respirar com eles depois da batalha. O silêncio que tomou o lugar dos gritos e estalos era pesado, quase sagrado, como se a própria terra estivesse tentando entender o que tinha acabado de acontecer. A lua filtrava sombras prateadas pelas folhas altas, e o ar frio trouxe consigo um sopro de realidade amarga: a guerra pelo corpo e pela alma de Clara finalmente tinha terminado. Paulo caminhava alguns passos à frente, ainda em estado de alerta, como se esperasse que algum inimigo surgisse do meio das árvores. O corpo dele mostrava sinais de cansaço, mas a presença dele continuava firme, inabalável, como se a força viesse de algum lugar muito mais profundo do que músculos e treinamento. Clara o seguia, respirando devagar, tentando conter as ondas de adrenalina que continuavam percorrendo o corpo dela. A transformação parcial ainda pulsava sob a pele, uma energia quente e selvagem que ela não sabia controlar completamente. Era estranha demais e ao mesmo tempo familiar, como se tivesse passado a vida inteira dormindo e agora finalmente acordado. A loba dentro dela estava viva, atenta, esfomeada por liberdade. Clara sentia medo disso, mas também sentia um orgulho silencioso, escondido em algum lugar que Kevin nunca conseguiu alcançar. Paulo parou quando chegaram a uma área mais aberta. Ele virou de leve o rosto para trás, só o suficiente para observar Clara sem que ela percebesse que estava sendo analisada. Mas ela percebeu. Ela sempre percebia quando se tratava dele. Paulo correu os olhos pelo corpo dela como se procurasse ferimentos ocultos, algo que ela não tivesse sentido por causa da adrenalina. Clara levantou a cabeça, respirando fundo, e esperou que ele dissesse alguma coisa. Ele não disse. Mas havia uma pergunta gritando dentro dele, tão óbvia quanto a lua no céu. Você está bem? Clara sabia. Estou. Só… acho que nunca senti nada tão forte assim antes. Paulo se aproximou devagar, como se temesse assustá-la. Mas Clara não recuou. Não dessa vez. Ele ergueu a mão e tocou o rosto dela com a ponta dos dedos, de um jeito suave demais para um Alfa acostumado a guerras. A gente vai entender isso juntos. Ela fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso da promessa. Era engraçado como o toque dele conseguia acalmar a loba. Como se a fera dentro dela reconhecesse nele algo tão essencial quanto o próprio ar. Clara respirou fundo, apoiando a mão sobre o peito dele, bem onde o coração batia forte demais para ser ignorado. Aquele batimento não era só de cansaço. Era reconhecimento. Paulo segurou a mão dela contra o peito e manteve ali, como se estivesse mostrando sem palavras que aquele coração sempre seria o lugar dela. Os olhos dele estavam escuros, profundos demais, cheios de um misto de orgulho, susto e uma devoção que ele nem tentava esconder mais. Você se lembrou de tudo quando viu Kauã? Clara assentiu devagar, sentindo a voz prender na garganta. Foi como se tudo explodisse de uma vez. Eu vi ele… e vi tudo. O cativeiro, as mentiras, o medo. Mas também vi você me segurando no hospital. Vi você me chamando. Vi a Isa me abraçando quando eu não lembrava nem quem eu era. Paulo engoliu seco, desviando o olhar por um instante. A vulnerabilidade dele era bonita de um jeito que doía. Eu achei que tinha perdido você para sempre. Você nunca perdeu nada, Paulo. Eu que fui tirada de nós dois. Ele ergueu os olhos, surpreso por ouvir aquilo. Clara percebeu, naquele instante, que pela primeira vez desde que tudo começou, os dois estavam falando sem barreiras. Sem medo. Sem passado entrelaçado com dor. Só eles dois. E a verdade. Clara deu um passo para mais perto, sentindo o calor do corpo dele se misturar ao dela. A loba dentro dela ficou inquieta, mas não agressiva. Era outra coisa… algo quase carinhoso, como um reconhecimento profundo, ancestral, inevitável. Você me salvou, Paulo. E eu sinto que agora… eu posso respirar. Paulo respirou fundo, como se precisasse de coragem para tocar o assunto que mais queimava dentro dele. Clara… você sabe o que significa lutar ao meu lado desse jeito? Ela sabia. Ela sentia. Desde o momento em que os dois se moveram como um só na batalha, ela sabia. Eu sei. Os olhos dele ficaram mais escuros ainda, a transição do lobo cintilando nas íris. Significa que você é minha Luna. Clara sentiu um arrepio quente percorrer todo o corpo. Não de medo. Nunca de medo. Era outro tipo de tremor, algo que fazia os joelhos dela quase cederem. Luna. A palavra ecoou nela como um chamado antigo, como uma chave que encaixava perfeitamente em um lugar que ela nem sabia que tinha. Ela deu outro passo, ainda mais perto dele, até que seus corpos quase se tocassem. E você é meu Alfa. Paulo fechou os olhos por um segundo, como se aquela confirmação tivesse derrubado todas as defesas dele de uma vez. O peito dele subiu e desceu com força. Ele segurou a nuca dela com firmeza, mas com cuidado, como se segurasse algo precioso demais para ser pressionado. Eu esperei por isso mais tempo do que você imagina. Clara sorriu, um sorriso pequeno, mas cheio de verdade. Acho que eu também. Ele respirou fundo, como se estivesse tentando conter algo que queria explodir. E, por um segundo, o mundo ficou quieto. As árvores pararam de balançar, o vento ficou imóvel, e até a lua pareceu observar os dois com curiosidade. Paulo inclinou a testa contra a dela, e Clara sentiu o toque como se fosse a promessa mais antiga do universo. Não havia nada carnal ali, nada urgente. Era um encontro de almas, de lobos, de vidas que finalmente pararam de correr em direções opostas. Você está comigo agora, Clara. E eu estou com você. Sempre. Clara fechou os olhos, deixando o corpo se encaixar no dele como se tivesse sido moldado para aquilo. A gente vai reconstruir isso juntos, Paulo. Do jeito certo. Sem dor. Sem prisão. Sem medo. Ele puxou o ar como se finalmente conseguisse respirar depois de anos submerso. Você é a minha escolha. E você é a minha. A loba rugiu dentro de Clara, mas dessa vez não era fúria. Era reconhecimento. Era aceitação. Era destino. Paulo segurou a cintura dela e a trouxe contra o peito, envolvendo-a nos braços como se tivesse encontrado o lar que procurou a vida inteira. E pela primeira vez, Clara se sentiu inteira. Eles não eram mais vítimas do passado. Não eram mais fugitivos do destino. Eram Alfa e Luna. Prontos para o que viria a seguir.
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