— A DESPEDIDA QUEBRADA

1369 Palavras
A porta da sala ainda vibrava com o impacto da discussão entre Clara e Paulo. O ar parecia pesado, carregado de tudo o que ambos disseram… e de tudo o que não tiveram coragem de dizer. Clara saiu primeiro, o rosto quente, o peito apertado, sentindo aquela mistura amarga de raiva, frustração e — por mais que odiasse admitir — desejo contido. Paulo ficou para trás, respirando fundo, tentando processar a sensação de vazio que se formou assim que ela passou pela porta. Ele sabia que havia exagerado, sabia que a sua teimosia e necessidade de controle sempre acabavam afastando quem ele queria proteger. Mas com Clara era diferente. Tudo era mais intenso. Mais perigoso. Clara caminhou rapidamente pelo corredor da casa da matilha, ignorando os olhares curiosos de alguns lobos que cochichavam sobre a briga. Ela saiu pela porta dos fundos, o ar fresco da tarde batendo no seu rosto como um convite silencioso para ir embora. Para respirar. Para fugir. E ela fugiu. Outra vez. Clara não levou nada além da pequena mochila que sempre deixava pronta — um hábito antigo, nascido da necessidade de estar sempre preparada para correr. A raiva que sentia por Paulo ainda queimava em seu peito, alimentando as pernas enquanto ela atravessava a mata ao redor da casa da matilha. Ela não queria pensar nele. Não queria pensar no modo como ele a olhava, como se pudesse enxergar nela algo que nem ela mesma entendia. Não queria pensar na voz dele dizendo que ela precisava parar de agir como se o mundo estivesse tentando devorá-la a cada esquina. — Eu faço o que quiser com a minha vida — sussurrou para si mesma, sentindo os olhos arderem. Mas a verdade era que, pela primeira vez em muito tempo, ela não tinha certeza alguma do que queria. Clara correu por mais de uma hora até chegar na estrada velha que cortava a floresta ao meio. Ali, os lobos raramente patrulhavam. Era um território esquecido, fronteira entre duas alcateias que preferiam fingir que o lugar não existia. Foi ali que ela sentiu o cheiro. Dois lobos. Dois que ela conhecia. Ela não teve tempo de reagir. — Ora, ora... se não é a fugitiva favorita do Paulo. — Sara surgiu de trás da árvore, sorriso venenoso, uniforme preto perfeitamente alinhado como se ela tivesse acabado de sair de um desfile militar. Kauã veio logo atrás, mais silencioso, mais calculista. Clara recuou um passo. O instinto pegou fogo dentro dela, mas ela estava cansada. Fraca. E machucada emocionalmente demais para lutar com clareza. — Saiam do meu caminho — rosnou. Sara riu. — Engraçadinha. Mas você já deveria saber que a suas fugas acabaram, Clara. Clara trincou os dentes. Kauã inclinou a cabeça, observando-a com um estranho brilho nos olhos. — Você deveria ter ficado onde Paulo te colocou. Ele não consegue te proteger de todos. — Inclusive de mim — Sara completou. E então veio o golpe. Foi rápido. Cruel. Preciso. Sara avançou como um raio, e antes que Clara pudesse levantar o braço, a guerreira atingiu a sua têmpora com a coronha da arma. Clara ouviu um estalo, como se o próprio ar tivesse quebrado. Sentiu o chão sumir. O mundo rodou. A dor explodiu na cabeça. E então… Escuridão. Clara não sabia quanto tempo havia passado quando abriu os olhos, mas o teto cinzento e úmido não lhe era familiar. O ar cheirava a mofo. A ferro. A água parada. Uma lâmpada antiga oscilava acima dela, piscando como um coração cansado. Ela tentou se sentar, mas o corpo não respondeu de imediato. E então percebeu: — Quem… onde… quem sou eu? A pergunta saiu rasgada. Um fio de voz. Kauã apareceu na porta poucos segundos depois, como se já estivesse esperando que ela acordasse. — Clara. — Ele disse seu nome com suavidade ensaiada. — Você está segura agora. Ela piscou, tentando puxar imagens, memórias, nomes, rostos. Tudo era um borrão. — Eu… eu não lembro de você. Kauã sorriu. E foi ali que tudo começou a dar errado. — Claro que lembra. — Ele sentou ao lado da cama, segurando a mão dela com carinho envenenado. — Nós estávamos prestes a começar a nossa vida juntos. Você e eu. Estávamos noivos. Ia ser um belo casamento. O coração dela apertou, mesmo sem entender por quê. — Noivos? — repetiu, confusa. — Sim. Você só… sofreu um acidente. Nada que não possamos resolver juntos. — Ele tocou o rosto dela, como se tivesse todo o direito do mundo. Algo dentro dela gritou. Literalmente. Sua loba acordou. — Ele mente. Ele fede à mentira. Saia daqui. Corra. A voz ecoou dentro da mente dela, feroz, urgente. Clara arfou, a respiração acelerando. — Eu… preciso de ar. Kauã a segurou pelo queixo. — Você só precisa de mim. Ela se encolheu. Algo estava profundamente errado. E o seu instinto nunca falhava. Nos dias que se seguiram, Kauã manteve Clara presa no subterrâneo — um prédio antigo e abandonado da Alcateia do Leste, usado antigamente como arsenal. Agora era a prisão particular dele. Ele tentava convencê-lo todos os dias de que eram destinados amar, que estavam prestes a se casar, que ela havia se afastado por medo e agora precisava “recomeçar”. Mas nada encaixava. Nada fazia sentido. E a voz da loba só ficava mais forte: — Ele vai marcar você à força. Ele quer te prender. Corra quando eu mandar. Até que a chance veio. Uma tempestade atingiu a região, derrubando parte da energia elétrica. Por alguns minutos, as grades eletrônicas ficaram vulneráveis. Clara — fraca, atordoada, com o corpo ainda dolorido — sentiu a sua loba empurrá-la: — Agora. Agora! Ela correu. Subiu as escadas de concreto. Atrás dela, ouviu o grito de Kauã ecoando: — CLARA! VOLTA AQUI AGORA! Ela não voltou. E mesmo sem memória, mesmo sem saber quem era, ela corria como se o mundo dependesse daquilo. Porque dependia. Clara atravessou a mata de forma instável, tropeçando, caindo, levantando. O corte na cabeça ardia. A sua visão escurecia nas bordas. O seu corpo cambaleava como se fosse cair a qualquer momento. Quando finalmente viu os portões da fronteira do Sul, ela quase desabou de alívio. Os guardas se entreolharam ao vê-la. Ela estava coberta de sangue, lama e suor. — Ei! Garota! Você está bem? — Um deles correu até ela. Ela tentou responder, mas a voz falhou. — Me… ajude… E então caiu nos braços do guarda. O rádio chiou. — Avisem o Alfa. Agora. Paulo chegou à fronteira em menos de quinze minutos, dirigindo como se o carro fosse parte dele. Quando viu Clara inconsciente, o mundo dele parou. Ele ajoelhou-se ao lado dela, tocando o rosto da mulher que havia fugido dele, brigado com ele… e ainda assim, era tudo o que importava. — Clara… — sussurrou, quase sem voz. — O que fizeram com você? Ele a levou nos braços até a casa principal da matilha, dando ordens rápidas aos curandeiros. Mas assim que ela acordou… — Quem… quem é você? — ela perguntou, o olhar perdido. O coração dele simplesmente quebrou. Os dias seguintes foram os mais estranhos da vida de Paulo. Clara não lembrava nada. Nem o próprio nome ela reconhecia de imediato. E mesmo assim, havia algo nela — uma luz nova, suave, curiosa — que fazia com que ele quisesse protegê-la mais do que nunca. Clara apegou-se à irmã dele, Isa, a adolescente cheia de energia que encontrou nela uma figura de apoio inesperada. Clara a ajudava em tudo: lições, refeições, exercícios. Descobriu prazer genuíno em cuidar dos outros. Paulo percebeu isso e, pela primeira vez, teve a coragem de incentivá-la: — Você é boa nisso. De verdade. Talvez… medicina? Nutrição? Curandeirismo? Você tem mãos de quem nasceu pra salvar vidas. Clara sorriu pela primeira vez desde que acordou. E ali algo brilhou dentro dela. Ela estudou. Se dedicou. Aprendeu com os curandeiros do Sul, depois com médicos humanos, depois com especialistas em outras alcateias. Ela floresceu. Virou uma referência. Famosa. Respeitada. Reconhecida. E foi assim, quando a suas fotos começaram a circular pela internet dos humanos e pelos registros das matilhas… Kauã finalmente a encontrou. E veio buscá-la.
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