— O Despertar da Loba

1296 Palavras
Kauã estava sentado na poltrona de couro do escritório do Leste, batendo o dedo impaciente contra o tampo da mesa, quando a tela do holo.com estalou com uma notificação. Ele só olhou por impulso, quase ignorando. Mas então o mundo inteiro dele parou. Clara. A imagem dela brilhava na tela: um vídeo simples, doméstico, gravado na casa da Matilha do Sul. Ela aparecia sorrindo levemente enquanto explicava uma técnica de cura com ervas. A legenda dizia: Clara Santos, curandeira da Fronteira do Sul. O coração dele começou a bater rápido demais. Rápido como quando era criança e testemunhou a primeira execução do pai. Rápido como no dia em que viu a irmã de Clara morrer em seus braços. Rápido como nas noites em que sonhava com ela, com o cheiro dela, com a marca que nunca conseguiu gravar em sua pele. Ele levantou tão abruptamente que a cadeira virou. A expressão dele se distorceu. Algo entre ódio, obsessão e desespero. Clara estava viva. Clara estava solta. E Clara era agora… famosa? Kauã ficou imóvel por três segundos. Depois gritou para o corredor. Tragam ela de volta. Agora. Dois lobos de elite surgiram na porta, silenciosos como lâminas. Ele repetiu, com a voz baixa e envenenada: Eu disse agora. Não deixem ela gritar. Não deixem ela correr. Se puderem, tragam ela respirando. Se não puderem… tragam do mesmo jeito. --- A noite estava calma no Sul. Clara estava sentada na varanda da casa de Paulo, coberta com um casaco quente, observando a lua que parecia mais brilhante do que nos últimos meses. Ela vinha sentindo estranhamento, pequenos lapsos, arrepios repentinos, como se algo estivesse tentando subir à superfície dentro dela. Mas não contava para ninguém. Isa dormia. Paulo ainda não tinha voltado da patrulha. E por um breve momento Clara sentiu paz. Foi aí que o ar mudou. A madeira da varanda vibrou levemente. Um cheiro metálico, frio, cortante, invadiu o espaço. Ela se levantou devagar, o coração acelerando sem motivo aparente. Algo estava errado. Muito errado. Quando ela deu o primeiro passo para trás, a sombra caiu sobre ela. Três lobos. Negros. Musculosos. Olhos do Leste. Ela não teve tempo nem de gritar. Um deles agarrou sua cintura. Outro segurou seu pescoço. O terceiro prendeu sua perna com uma força brutal, e o mundo girou com violência quando a jogaram dentro de uma van escura. Clara lutou. Chutou. Mordeu. Arranhou. Mas era como bater contra rochas. Uma voz fria sussurrou perto do ouvido dela: Relaxa, Clara. O Rei do Leste está esperando você. Ela congelou. Aquela voz. Aquele cheiro. Aquela sensação de algo antigo e r**m tentando acordar dentro dela. Mas antes que pudesse reagir, a agulha atravessou o braço dela. E tudo ficou preto. --- Quando Clara abriu os olhos novamente, estava no subterrâneo do Leste. As paredes eram de pedra áspera. Havia cheiro de ferrugem, sangue velho, e velas queimando até o fim. Ela estava presa a uma cadeira de metal com correntes grossas, o pulso dolorido, o corpo pesado e a mente turva. E então uma porta se abriu. Kauã entrou. Ele usava a expressão calma demais de alguém que simula paciência enquanto o mundo interno dele está explodindo. Andou até ela devagar, como um predador analisando o estado da presa antes do ataque. Ele passou o dedo pela bochecha dela e sorriu. Você voltou pra casa. Clara tentou afastar o rosto, mas o corpo não respondia direito. Kauã se inclinou para perto, respirando fundo o cheiro dela, como alguém que encontra algo que perdeu há anos. Você sumiu, Clara. Você fugiu de mim. E ainda decidiu viver a farsa de uma vida nova… no Norte. Ela tentou raciocinar. Tentou lembrar de algo. Mas havia um buraco. Um vazio. Uma memória soterrada por sombras. Kauã percebeu a confusão dela e o sorriso dele se expandiu, torto, satisfeito. Não lembra. Que conveniente. Eu posso começar do zero com você. Ele caminhou pela sala, pegou uma pequena caixa de metal, abriu calmamente e tirou um frasco de líquido âmbar. Clara tentou engolir, mas a garganta estava seca. Kauã voltou para perto dela, segurou seu queixo e disse com voz baixa: Eu te amo, Clara. Sempre te amei. Você ia ser minha Luna. A marca era pra ser minha. Mas você fugiu. Fugiu… e fez eu parecer fraco perante o Leste. Agora você vai reparar isso. Ela sussurrou, com dificuldade: Eu não… eu não lembro. Kauã riu, mas a risada dele tremia. Eu vou te lembrar de tudo. Vou te contar nossa história. Vou te contar quem você era. Quem você é. E quem você será. E então ele começou a falar. Contou mentiras com a segurança de quem as repetiu tantas vezes que passou a acreditar nelas. Falou de um amor que nunca existiu. Falou de promessas que ela nunca fez. Falou de um futuro que ele estava decidido a forçar. Mas algo dentro de Clara tremia. Algo se contorcia, tentando acordar. A cabeça doía, latejava, queimava. Kauã ergueu o frasco, aproximando do pescoço dela. Tudo vai ficar bem, Clara. Você vai ser minha. Pra sempre. Quando o frasco tocou a pele dela, algo quebrou. Um estalo mental. Um r***o. Um clarão. Imagens explodiram na mente dela: A floresta. O sangue. A dor nas costas. A noite do laço forçado. A fuga. Paulo. Isa. A Lua de Sangue. E, por fim, o rosto de Kauã acima dela, não com amor… mas com domínio. Ela gritou. Mas não foi um grito humano. Foi um rugido. As correntes tremeram. A cadeira inteira vibrou. O olhar de Kauã se arregalou. Clara arquejou, a respiração acelerada, e então sua loba falou pela primeira vez em meses. Fuja. A palavra ecoou dentro dela como um trovão. Kauã se aproximou para tentar segurá-la. Clara levantou o rosto. Os olhos dela estavam dourados. Totalmente dourados. Kauã sussurrou, aterrorizado: Não… não agora… Clara puxou o braço para trás. A corrente rangeu. Ela puxou de novo. Um estalo seco encheu a sala. A corrente se rompeu. Kauã deu um passo para trás, surpreso demais para reagir. Clara se levantou com um movimento brutal, ainda meio cambaleante, a visão turva e o corpo fraco, mas tomada pela força primal que dormia desde que perdeu a memória. A respiração dela saía quente, quase fumegante. Kauã tentou segurá-la pelos ombros. Clara rosnou. Não toca em mim. A voz dela parecia duas sobrepostas: a humana e a da loba. Kauã agarrou o braço dela, tentando dominá-la. E foi aí que aconteceu. Clara virou o pulso, num movimento mais rápido do que Kauã conseguiu acompanhar, agarrou o antebraço dele e o torceu com toda a força. Um crack seco ecoou pela sala. O braço de Kauã quebrou como se fosse um galho podre. Ele caiu de joelhos, gritando, o rosto distorcido. Clara cambaleou para trás, respirando rápido, a visão oscilando entre o presente e flashes do passado. A loba dentro dela rugia, exigindo que ela corresse, lutasse, sobrevivesse. Kauã chorava de dor, segurando o braço pendendo em ângulo grotesco. Clara encarou ele por um longo momento. A voz dela saiu baixa, rouca, animal. Eu lembro de tudo. E então correu. Correu com a força de dez anos de ódio, trauma e sobrevivência. Correu como uma loba renascendo. Correu até romper a porta de metal, até ultrapassar as grades, até sentir o vento frio do norte batendo no rosto, rasgando suas roupas e despertando cada fibra de seu instinto. Ela só parou quando seus joelhos cederam na fronteira do Sul. Mas antes que desmaiasse completamente, ouviu um rugido conhecido ecoando pela clareira. Um rugido que atravessou o coração dela como um chamado. Paulo. Ela tentou levantar, mas caiu. E então braços fortes a seguraram antes que tocasse o chão. Clara, me olha… me olha… Mas tudo ficou escuro outra vez.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR