— A LUZ QUE DOI

1543 Palavras
A claridade do quarto ainda incomodava Clara. Era como se cada feixe de luz tocasse diretamente nas regiões que ela guardava trancadas dentro da memória. O hospital tinha aquele cheiro de antisséptico misturado com flores velhas, e ela detestava aquilo desde sempre. Estranho como detalhes tão pequenos voltavam antes mesmo de ela estar pronta para lidar com o resto. Ela estava sentada na cama, com as pernas encolhidas perto do peito, como se quisesse se proteger do próprio ar. Sentia o pulso latejando, o corpo exausto e a alma inteira revirada. Mas nada disso importava tanto quanto o turbilhão dentro da cabeça dela. Lembranças? Sensações? Dor? Era tudo misturado demais para separar. A porta abriu devagar e Paulo entrou, fechando com cuidado atrás de si. Ela percebeu como ele parecia tentar controlar cada movimento, como se tivesse medo de assustá-la. Ele se aproximou lentamente, sem dizer nada. Parte dela queria agradecer. A outra parte queria gritar. Clara respirou fundo. Preciso perguntar. Preciso entender. Mas quando abriu a boca, a voz dela falhou. Paulo chegou até a beira da cama e se inclinou um pouco. Clara, não precisa falar agora. Você está segura. Ela engoliu seco. Essa frase, segura, soava quase como ironia. Eu… eu me lembro de tudo. Paulo ficou imóvel. Como se o ar tivesse ficado mais pesado. Tudo? Clara assentiu. O olhar dela se perdeu em algum ponto no chão. Eu lembro do Kauã. Lembro do Leste. Lembro do medo. Do jeito que ele me olhava, como se eu fosse propriedade… e lembro da noite. A noite em que… em que tudo desabou. Paulo sentou no banco ao lado da cama e passou a mão pelo rosto, exausto. Eu imaginei. Desde o momento em que você começou a reagir no carro… parecia que algo tinha se soltado. Clara não respondeu. Apenas abraçou as próprias pernas mais forte. E lembro de você. Você indo até lá. Você entrando naquele lugar… Paulo a encarou, surpreso. Você viu alguma coisa? Clara fechou os olhos como se uma dor quente subisse pela memória. Não vi tudo… mas senti quando você chegou. Foi como… como se a minha loba esticasse o pescoço depois de dormir por anos. Ela tentou sair. Ela queria te alcançar. Mas eu estava tão perdida… tão presa. Paulo respirou fundo. Eu pensei que tinha te perdido. Quando cheguei, você estava desacordada. E Kauã… não gosto nem de pensar no que ele podia ter feito se eu tivesse chegado minutos depois. O nome de Kauã fez um arrepio percorrer a espinha dela. Ele queria me levar de volta. Sempre quis. Ele não aceitava o não. Não aceitava que eu quisesse ir embora. Dizia que eu era dele, por causa do acordo, por causa do sangue, por causa da linhagem. Minha memória ficou presa porque… porque eu não queria lembrar de nada que me ligasse a ele. A voz dela voltou a tremer, mas dessa vez não foi medo — foi raiva. Uma raiva antiga, profunda, que estava finalmente encontrando espaço. Paulo esticou a mão, devagar, e tocou o dorso da dela. Você não pertence a ninguém. Nunca pertenceu. Clara respirou fundo e deixou a cabeça cair para trás, apoiando no travesseiro. Eu tentei fugir… mas quando vi o rosto dele… tudo voltou de uma vez. A dor. A noite em que… você já sabe. É estranho. Eu deveria ter ficado aliviada por lembrar. Mas estou… cansada. Paulo olhou para ela com um cuidado impossível de fingir. É normal. Recuperar memórias não apaga o trauma. Só coloca luz onde antes era sombra. Clara soltou um riso seco. E luz dói. Ele concordou. Dói mesmo. Mas é melhor do que ficar presa no escuro. Um silêncio pesado se instalou entre eles, mas não era desconfortável. Era um silêncio que dizia tudo o que não cabia em palavras. Depois de alguns instantes, Clara abriu os olhos e o encarou. Por que você foi atrás de mim? De verdade. Paulo pareceu pegar o ar errado por um segundo. Porque você é… importante. Porque eu não ia deixar ninguém te arrancar de novo. E porque eu nunca… jamais… conseguiria viver sabendo que te deixei nas mãos dele. Clara sentiu o peito apertar — não de medo, mas de algo muito mais perigoso. Paulo… você não devia ter arriscado tudo assim. Ele deu um meio sorriso cansado. Eu pensei exatamente o oposto. Que não tinha nada no mundo mais óbvio do que te trazer de volta. Ela desviou o olhar, tentando processar aquele peso, aquela verdade. Eu ainda não estou pronta para nada disso. Nem para o que sinto, nem para o que lembro, nem para o que pode acontecer agora. Paulo se aproximou mais um pouco. Eu não estou pedindo nada. Só quero que você exista. Viva. Respire. O resto a gente resolve no caminho. Os olhos de Clara arderam. Ela piscou rápido, tentando impedir as lágrimas de caírem. Eu tenho medo do que vai acontecer com Kauã agora. Ele não vai aceitar a derrota. Ele nunca aceita. Paulo soltou um suspiro grave. Eu sei. Ele já declarou ao Conselho que você é uma loba do Leste. Que pertence à matilha dele. Mas agora… agora você lembra. Isso muda tudo. A escolha é sua. E Kauã não tem mais nenhum direito sobre você. Clara sentiu o coração bater mais forte. Ele vai vir atrás de mim, Paulo. Você sabe disso. Ele sempre volta. Paulo ficou sério, mais sério do que ela já tinha visto. Se ele vier, ele não te toca. Não enquanto eu respirar. As palavras bateram forte nela, trazendo um calor que a assustava. Paulo… você fala como se… Ele a interrompeu com um olhar que dizia tudo sem pronunciar nada. Como se eu te quisesse? Porque eu quero. E não vou fingir que não. Clara engoliu seco, sentindo o ar faltar. Eu ainda estou quebrada. Paulo balançou a cabeça. Você não está quebrada. Só machucada. E machucados saram. Às vezes devagar, às vezes do jeito errado no começo… mas saram. O corpo dela relaxou um pouco, como se finalmente tivesse permissão para parar de lutar por alguns minutos. A porta do quarto bateu com uma rajada de vento. Clara se encolheu instantaneamente. O barulho fez a memória dela disparar como uma flecha — o porão, os gritos, o cheiro de sangue na madeira. Paulo percebeu na hora. Se levantou, fechou a porta com calma e voltou para a cama. Está tudo bem. Só foi o vento. Clara enxugou discretamente uma lágrima que escapou. Eu odeio que meu corpo reaja antes da minha cabeça. É o instinto, disse ele suavemente. A sua loba ficou presa tempo demais. Agora que acordou, ela reage a tudo. Clara fechou os olhos. Eu senti ela quando estava com Kauã. Ela queria sair. Queria me proteger. Quando ele tentou me tocar… foi como se ela gritasse dentro de mim. E quando eu quebrei o braço dele… Paulo arregalou os olhos. Você quebrou o braço dele? Clara abriu um sorriso pequeno, quase culpado. Acho que sim. Quer dizer… senti algo estalar, e vi o jeito que ele caiu. Estava escuro, mas… parecia que eu tinha força demais para alguém no meu estado. Paulo ficou em silêncio por alguns segundos, como se recalculasse tudo sobre ela. Isso não é pouca coisa. Se a sua loba está emergindo assim, Clara… você é muito mais poderosa do que imagina. Clara franziu o cenho. Ou muito mais perigosa. Ele negou com a cabeça. Perigosa é a pessoa que te feriu. Você… você é só alguém tentando sobreviver ao caos que jogaram em cima de você. Clara mordeu o lábio, absorvendo cada palavra, como se estivesse guardando um pouco de coragem para mais tarde. O que vai acontecer agora, Paulo? Ele respirou fundo. Primeiro, você sai daqui. Não dá para ficar no hospital sem chamar atenção. Depois, levamos você para a minha matilha. Vai estar segura lá. Eu garanto. Clara hesitou. E se Kauã aparecer? Então ele vai descobrir que você não está sozinha. Ela queria acreditar. Queria muito. E talvez, pela primeira vez em meses — ou anos — tivesse espaço para isso. Clara encostou a testa no joelho por alguns segundos, respirando devagar. Tudo bem. Eu confio em você. Paulo não sorriu dessa vez. Obrigado. Isso significa mais do que você imagina. Ela levantou a cabeça, os olhos ainda úmidos, mas com outra coisa ali dentro… uma centelha. Mas não pense que eu vou ficar atrás de você o tempo todo. Eu quero aprender a me defender. Quero que minha loba pare de reagir só ao medo. Paulo cruzou os braços, aprovando a decisão com o olhar. Então vamos acordá-la direito. No seu tempo. Do seu jeito. Clara sentiu uma calma estranha tomar conta dela. Paulo… obrigada por me buscar. Por não desistir. Ele se aproximou devagar e tocou a bochecha dela com a ponta dos dedos, como se ela fosse feita de algo precioso. Eu não vou desistir de você. Nunca. Ela fechou os olhos por um instante, deixando a pele memorizar aquele toque — não de posse, não de ameaça, mas de promessa. E pela primeira vez, desde que recobrou a memória, Clara sentiu não só dor… mas esperança. A loba dentro dela, silenciosa e atenta, parecia se mover. Quase como se respondesse.
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