Clara acordou antes do amanhecer, quando a luz cinza da madrugada m*l riscava o céu. O hospital estava silencioso, apenas o bip baixo do monitor lembrando que pessoas ainda respiravam ali. Ela passou a mão pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos, mas tudo continuava embaralhado demais. Memória demais. Sentimento demais. Tudo vindo rápido, como se uma barragem tivesse rompido.
A porta se abriu devagar e Paulo apareceu, com o cabelo bagunçado e os olhos denunciando que não tinha dormido nada. Ele carregava dois copos de café e uma expressão que misturava preocupação e uma determinação silenciosa.
Bom dia, Clara.
Ela o encarou com um ar que oscilava entre desconfiado e agradecido.
Você não dormiu.
Ele deu de ombros.
Eu durmo depois. Queria garantir que você acordaria com alguém do lado.
Ela desviou o olhar, sentindo o corpo reagir ao cuidado dele de uma forma que tentava disfarçar.
Não precisava ficar aqui a noite inteira.
Precisava sim, respondeu ele sem hesitar.
Clara tomou o café e o aroma quente trouxe algo parecido com conforto. O estômago dela ainda revirava, mas pelo menos estava acordada, consciente, inteira o suficiente para seguir em frente.
Você disse que tinha um plano para me tirar daqui sem chamar atenção.
Sim. Mas preciso que você esteja pronta. A fronteira do Leste ainda está em alerta depois do ataque que Kauã ordenou para te capturar. Se algum dos homens dele descobrir que você recuperou a memória, ele tenta te pegar de novo. E dessa vez, ele vem pessoalmente.
Clara respirou fundo. As lembranças vinham como facas, mas ela as encarou.
Eu não vou voltar. Não importa o que ele diga.
Paulo concordou, mas ela percebeu nos olhos dele que havia mais ali. Algo não dito.
O que você está escondendo?
Ele se aproximou da cama.
Kauã enviou um comunicado ao Conselho nesta madrugada. Ele declarou que você é uma desertora, que renegou a matilha do Leste e que eu… violei território ao tirá-la de lá.
Clara arregalou os olhos.
Mas você só me resgatou!
Eu sei disso, Clara. Mas Kauã vai usar isso como argumento político. Ele quer você de volta porque te perdeu no controle. Nada irrita mais um alfa abusivo do que perder aquilo que acha que lhe pertence.
Clara sentiu o sangue ferver. Era um ódio limpo, direto, sem medo, pulsando pela primeira vez em muito tempo.
Ele nunca mais encosta em mim.
Paulo sorriu de um jeito quase imperceptível.
É assim que quero te ver.
Ela ajeitou os lençóis, respirando fundo.
Então vamos. Quero sair deste hospital. Quero seguir com a minha vida. E quero aprender a lutar com a minha loba, não só fugir com ela.
Ele assentiu.
Os médicos liberaram você há uma hora. Só estávamos esperando você acordar.
Clara congelou.
Você ficou aqui apenas… me esperando?
O olhar dele suavizou.
Queria ser o primeiro rosto que você visse hoje.
Ela desviou rapidamente, sentindo um calor desconfortável no peito.
Eu… obrigada.
Paulo se aproximou com calma, estendeu a mão para ela.
Pronta para ir?
Clara colocou os pés no chão. A perna ainda tremia, mas não de fraqueza — era ansiedade, adrenalina, vida voltando para o corpo. Ela segurou a mão dele e deixou que a ajudasse a ficar de pé.
Antes de sair do quarto, Clara parou. Algo dentro dela se agitou, uma sensação quente se espalhando pela pele. Não era medo. Era como se algo lá dentro despertasse, tentando reconhecer o mundo.
A minha loba está acordando. Eu posso sentir.
Paulo observou atentamente.
Isso é bom. Mas também significa que suas emoções vão ficar mais intensas. Cuidado com isso.
Ela ergueu o queixo.
Eu não tenho mais medo das minhas emoções.
Ele sorriu.
Então vamos começar.
---
Os corredores estavam quase vazios quando eles saíram do quarto. Paulo caminhava na frente, atento, com os sentidos ampliados. Clara manteve o passo firme atrás dele, ouvindo tudo mais nitidamente do que o normal. Um carro passando lá fora. Um rádio chiando. O coração acelerado de uma enfermeira na sala ao lado. Era como se o mundo tivesse ficado mais barulhento.
Ela piscou, confusa.
Paulo… isso é… normal?
O despertar da loba faz isso, explicou ele sem parar de caminhar. Seus sentidos aumentam, principalmente quando você está emocionalmente carregada.
E eu estou emocionalmente carregada desde que acordei.
Exato.
Saíram pela porta dos fundos do hospital. Um carro preto estava estacionado, motor ligado. Clara reconheceu o cheiro antes de ver os rostos. Dois soldados da matilha do Norte estavam ali, esperando.
Ela ficou tensa.
Eles são confiáveis?
Totalmente. São meus homens. E estão aqui para te proteger.
Clara entrou no banco de trás, respirando fundo. O carro começou a se mover e, enquanto a cidade ficava para trás, ela sentiu a tensão no peito diminuir pouco a pouco.
Paulo se virou para ela.
Você se lembra de como era… antes de tudo isso? Antes do acordo com o Leste?
Clara olhou pela janela, observando as árvores passarem.
Eu lembro de flashes. Do meu pai me ensinando a correr na floresta. Da voz da minha mãe me chamando de madrugada. Lembro da sensação de liberdade. E lembro do dia em que tudo acabou.
Ela fechou os olhos enquanto a memória emergia.
O incêndio… a noite inteira queimando. Eu era só uma adolescente. Kauã apareceu como se fosse um salvador, oferecendo abrigo, oferecendo poder. Mas ninguém me disse que o preço seria minha vida inteira.
Paulo ficou em silêncio por alguns segundos.
Ele tirou tudo de você.
Tirou.
A voz de Clara saiu firme, sem vacilar.
Mas não vai tirar mais nada.
A loba dentro dela vibrou. Quase como se aprovasse.
---
Quando o carro entrou no território do Sul, Clara sentiu algo mudar no ar. Era mais leve. Mais limpo. O cheiro da floresta era familiar de um jeito que ela não esperava. O coração dela bateu forte.
Eu já estive aqui antes. Não lembro quando… mas já estive.
Paulo a observou com surpresa.
Sua memória deve estar voltando por partes. Isso é um bom sinal.
Eles pararam diante da sede da matilha. Era uma construção grande, imponente, mas acolhedora. Clara desceu devagar, observando tudo com atenção. Alguns lobos a olhavam com curiosidade, outros com respeito silencioso.
Ela engoliu seco.
Eles sabem quem eu sou?
Sabem quem você é agora. Uma loba que sobreviveu ao Leste. Isso já vale mais do que qualquer título.
Clara o acompanhou até o interior da casa principal. O lugar era quente, iluminado, cheio de vida. Era tão diferente do ambiente sufocante e controlado do Leste que ela quase se sentiu deslocada.
Paulo a conduziu até um quarto.
Este será o seu espaço. Privado. Seguro. Ninguém entra sem sua permissão.
Clara passou a mão pela colcha, tocou o armário, percebeu o cheiro de madeira antiga.
É… acolhedor.
Foi o mais próximo de confortável que conseguimos arrumar em pouco tempo, disse ele. Mas se quiser mudar algo…
Está perfeito, interrompeu Clara. É a primeira vez em muito tempo que… tenho um lugar meu.
Ele a observou por longos segundos.
Clara… eu preciso te preparar para o que vem agora.
Ela se virou, tensa.
O que vem agora?
Treinamento.
Paulo cruzou os braços.
Sua loba está acordando e isso muda tudo. Ela vai reagir a emoções fortes, vai tentar sair quando sentir ameaça, vai responder ao instinto antes da razão. Se você não aprender a controlar, Kauã pode usar isso contra você.
Clara respirou fundo.
Então me ensine.
Ele se aproximou, ficando a poucos centímetros dela.
Tem certeza? Não é um caminho fácil. E exige que você enfrente tudo o que evitou até agora.
Clara ergueu o olhar, firme.
Eu enfrentei Kauã de frente. Eu quebrei o braço dele. Se consegui isso, consigo enfrentar o resto.
O brilho de orgulho nos olhos de Paulo foi impossível de esconder.
Tudo bem. Começamos amanhã cedo.
Ela sorriu pela primeira vez desde que acordou no hospital.
Amanhã cedo. Estou pronta.
Mas enquanto ele se afastava, Clara sentiu novamente aquele calor dentro do peito. A loba está se mexendo, como se reconhecesse algo nele. Como se respondesse a algo que Clara não entendia… ainda.
Ela observou Paulo sair do quarto, deixando-a sozinha. A porta fechou macia, mas o mundo dentro dela estava barulhento.
Clara sentou-se na cama, respirando fundo, tentando se acostumar com a ideia de liberdade, poder e escolhas.
Mas antes que conseguisse relaxar, uma sensação gelada percorreu sua espinha.
Era como se algo a chamasse de longe.
Um eco.
Um rugido abafado.
Uma presença que ela reconhecia.
Kaua.
Clara fechou os olhos e deixou o instinto responder.
Ele está vindo.
Mas, pela primeira vez… ela não estava com medo.
Estava pronta.