A noite caiu devagar no território do Sul, como se o céu hesitasse antes de apagar as últimas cores do entardecer. Clara sentou-se à beira da cama, observando a janela aberta. O vento frio atravessava o quarto e carregava o cheiro da floresta úmida. Um cheiro que, estranhamente, a deixava calma. Era familiar. Era lar.
Mas a calma não durou muito. Desde que sentira aquele pressentimento — a sombra de Kauã se aproximando, o eco distante da presença dele — sua loba não parava de se mover dentro dela. Não era medo. Era algo mais parecido com alerta, como se estivesse tomando posição, preparando-se para lutar outra vez.
Clara fechou os olhos e tentou respirar.
Eu estou segura, repetiu mentalmente. Estou no Sul. Ele não pode me alcançar aqui.
Uma parte dela acreditava nisso. A outra, mais antiga e ferida, sabia que Kauã nunca aceitava perder. Nunca.
Um leve som na porta interrompeu seus pensamentos. Paulo apareceu apoiado no batente, a postura casual contrastando com o olhar atento que nunca abandonava.
Não consegue dormir.
Clara balançou a cabeça, puxando os joelhos contra o peito.
Sinto como se alguma coisa estivesse chegando. Como se alguém estivesse tentando me alcançar, mesmo de longe.
Paulo entrou no quarto em silêncio e puxou uma cadeira, posicionando-a perto dela.
Sua loba está tentando te avisar.
Sobre o quê.
Ele pensou por um instante.
Sobre o que te conecta ao passado. Quando a memória volta, ela não traz só lembranças. Ela reacende laços quebrados. E alguns laços… ainda querem te prender.
Clara sentiu um arrepio na nuca.
Kauã.
Paulo não respondeu de imediato, mas a ausência de negação foi suficiente.
A segurança do território está reforçada. Mesmo se ele tentasse atravessar, seria parado.
Clara suspirou, mas a tensão não diminuiu.
Você acha que ele vem atrás de mim.
Ele sempre foi obcecado pela ideia de posse, explicou Paulo. Mas agora não é só obsessão. É ferida no orgulho. E alfas feridos fazem escolhas idiotas.
Clara encarou as mãos, estudando as cicatrizes, lembrando da dor, do medo, da sensação sufocante de estar presa.
Eu não sou mais aquela garota que fugia no meio da noite. Eu quebrei o braço dele. Eu voltei a ser eu mesma.
Paulo sorriu de canto.
Você está diferente. Mais forte. Mas isso também significa que ele vai tentar dobrar você outra vez.
Ela ergueu o olhar.
Não vou deixar.
E não vai mesmo, respondeu Paulo, com firmeza. Não enquanto eu estiver respirando.
A frase ficou suspensa entre eles, pesada e ao mesmo tempo estranhamente reconfortante. Clara desviou o olhar para a janela, tentando esconder o calor repentino que subiu pelo rosto.
Paulo se levantou devagar.
Amanhã começamos o treinamento. Mas, por hoje, precisa descansar. Seus sentidos estão sobrecarregados. A loba está se ajustando. Tudo vai parecer mais intenso.
Clara respirou fundo.
Até você parece mais intenso.
O olhar dele baixou, como se captasse o significado oculto.
Clara…
Ela balançou a cabeça rapidamente.
Desculpa. Minha loba fala antes de mim.
Ele deu um sorriso breve, delicado, quase imperceptível.
Tudo bem. Só tente dormir.
Clara deitou, e Paulo apagou a luz antes de sair. Quando a porta se fechou, ela continuou acordada por algum tempo, olhando o teto escuro, ouvindo cada som da casa, cada passo distante, cada sussurro da floresta. Sua loba permanecia inquieta, mas não aterrorizada. Parecia… pronta. Como se aguardasse o próximo movimento.
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Na manhã seguinte, Clara acordou com o corpo dolorido, como se tivesse treinado a noite inteira. Talvez tivesse mesmo. Sonhos estranhos a haviam perseguido — flashes das cavernas do Leste, a voz de Kauã distorcida, a sensação de correntes invisíveis. E, por trás de tudo, uma presença forte e firme, que parecia chamá-la de volta.
Paulo.
Ela levantou, tomou um banho rápido e vestiu as roupas que tinham deixado no armário. Era simples, confortável e muito melhor do que os vestidos desconfortáveis que Sara a obrigava a usar para parecer frágil.
Quando saiu do quarto, encontrou Paulo esperando no corredor.
Dormiu um pouco.
O suficiente.
Vamos começar com algo leve. Só quero ver como sua loba reage à presença do território.
Clara desceu com ele pela casa, atravessando os corredores até chegar ao pátio de treinamento. O lugar era amplo, cercado por árvores altas e plataformas de madeira usadas por guerreiros para práticas avançadas.
Ela olhou ao redor, absorvendo tudo.
É bonito aqui.
Paulo cruzou os braços.
É seguro. Isso é o que importa agora.
Ela respirou fundo e deixou a loba emergir só um pouco, como se abrisse uma porta interna. A sensação veio quente e vibrante, percorrendo sua pele, deixando seus sentidos mais aguçados.
Paulo a observava com atenção.
Assim. Deixe vir. Mas não deixe tomar o controle.
Clara fechou os olhos para se concentrar.
Ela está… curiosa.
Sobre o quê.
Ele ficou imóvel por um instante, mas a expressão dele não se quebrou.
É normal. Eu fui quem te resgatou, quem te protegeu. Sua loba está avaliando se pode confiar.
Clara ergueu uma sobrancelha.
E ela pode.
Paulo deu um passo à frente sem hesitar.
Isso é você falando, não sua loba.
Ela riu baixinho.
Então as duas concordam.
O silêncio que se seguiu foi carregado, profundo. Mas não era incômodo. Era como se tudo ali tivesse espaço para respirar.
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Depois das primeiras instruções, eles caminharam para a floresta. A luz atravessava as copas das árvores como fios dourados, e Clara sentiu o coração acelerar ao colocar os pés na trilha. Era como voltar para casa.
Paulo falava enquanto caminhavam.
Quero que sua loba reconheça os caminhos. Seu corpo precisa se acostumar de novo a terrenos naturais. No Leste, você vivia cercada por concreto.
Clara olhou as folhas.
Meu corpo sente falta disso. Parece que estou lembrando como era antes de tudo.
Paulo a observou enquanto ela tocava o tronco de uma árvore.
O Sul sempre será território. Mesmo que tenha sido levada antes de se tornar adulta.
Clara mordeu o lábio.
Então parte de mim sempre pertenceu a este lugar.
Uma parte importante, respondeu ele. Seus pais eram alfas respeitados. Você cresceu ouvindo a floresta. Mesmo sem lembrar, seu corpo se lembra.
Ela fechou os olhos e sentiu uma onda de energia percorrer o peito. A loba rugiu dentro dela, dessa vez de maneira calorosa, como se estivesse respondendo ao chão sob seus pés.
Isso… isso é meu lar.
Paulo assentiu.
Sempre foi.
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Quando voltaram para a sede da matilha, já era tarde e Clara estava exausta, mas também renovada. Sentia-se diferente, mais firme, menos frágil. Era como se estivesse recolhendo pedaços de si mesma pelo caminho.
Assim que entraram no salão principal, Isa apareceu correndo do nada.
Clara. Você voltou a treinar.
Clara sorria sem esforço pela primeira vez em muito tempo.
Sua energia é contagiante.
Isa segurou as mãos dela com carinho.
Fiquei com medo que você nunca mais acordasse. Mas você está aqui. E eu sabia que ia ficar bem. Eu senti.
Clara abraçou a garota, e algo dentro dela se conectou instintivamente. Isa era uma luz, uma pequena chama que iluminava o mundo ao redor.
Obrigada por se preocupar comigo.
Paulo observava a cena, e por um segundo Clara sentiu que havia algo muito profundo nos olhos dele. Algo que ele tentava esconder.
Quando Isa saiu correndo para anunciar ao resto da casa que Clara estava treinando novamente, Paulo se aproximou.
Ela gosta muito de você.
Clara tocou o próprio peito.
Eu sinto isso também. Como se ela fosse… família.
Paulo hesitou apenas um instante.
Talvez seja mais do que você imagina.
Clara franziu o cenho.
O que você quer dizer.
Ele respirou fundo, como alguém que decide não esconder mais um segredo.
Seus pais eram aliados diretos dos meus. Você cresceu aqui, Clara. Na verdade, você e Isa passavam dias juntas antes do incêndio. Você era quase irmã dela.
Clara levou a mão à boca, surpresa.
Eu… eu não lembrava disso.
Eu sei, respondeu ele, com a voz baixa. Mas agora que está voltando, tudo começa a fazer sentido.
Ela sentiu lágrimas quentes arderem nos olhos.
Eu perdi tanto. Tanto tempo…
Paulo se aproximou mais.
Mas você está recuperando agora. E não está fazendo isso sozinha.
Clara respirou fundo, olhando para ele.
Obrigada, Paulo. Por tudo.
Ele segurou o rosto dela por um instante, apenas o suficiente para aquecer a pele dela.
Não precisa agradecer.
Clara sentiu a loba vibrar de novo, dessa vez de um jeito que a deixou sem ar. Era como se algo estivesse se alinhando dentro dela, como se uma peça esquecida tivesse acabado de encontrar seu lugar.
Mas antes que pudesse compreender aquele impulso, um dos guerreiros entrou correndo no salão, ofegante, com o rosto tenso.
Alfa Paulo… há movimento suspeito na fronteira leste. Rastros recentes. Velocidade alta. Cheiro forte de agressor.
O coração de Clara disparou.
Paulo ergueu o queixo, a postura mudando num instante.
Quem.
O guerreiro engoliu seco.
Kauã.
Clara sentiu o chão tremer sob seus pés, mas não era medo. Era raiva, pura e pulsante. Sua loba rugiu dentro dela, tão forte que ela precisou apoiar a mão no peito.
Paulo virou-se para ela, resoluto.
Ele não vai tocar em você. Não outra vez.
Clara respirou fundo, sentindo a força crescer no corpo, como se a loba estivesse se preparando, afiando as presas, despertando.
Eu não vou fugir dessa vez.
Paulo a encarou, e nos olhos dele havia algo que misturava orgulho, preocupação e algo mais profundo, mais íntimo.
Então vamos enfrentá-lo juntos.
E pela primeira vez desde que tudo começou, Clara acreditou nisso.
Acreditou que poderia lutar.
Acreditou que poderia vencer.
E, acima de tudo, acreditou que não estava mais sozinha.