CAPÍTULO 2: ARREPENDIDO

1173 Palavras
CAIO MONTENEGRO Eu deveria estar em um jantar de negócios ou revisando as contas da holding, mas ao invés disso eu estava na cozinha tentando explicar para a cozinheira a nova dieta da Isabella. Minha cabeça estava a mil desde o encontro com aquela mulher no estacionamento do hospital hoje. O relatório que pedi a Gudan estava na mesa do meu escritório, tudo sobre a garota histérica e linda de mais cedo. — Senhor Montenegro, precisa de ajuda com mais alguma coisa? — Não Rita – respondi cansado, abrindo o envelope com expectativa cega. Helena Duarte Novais, 22 anos, enfermeira no hospital são Caetano. Mãe: Daiana Novais Duarte (Falecida após câncer de colo de útero) Pai: Victor Gomes Duarte, viciado em jogos ( preso por porte de armas de fogo. Recorrendo em liberdade, no momento) Irmão: Nicolas Duarte Novais, começando a carreira de jogador de futebol na Espanha. Irmã: Lívia Duarte Novais, morrendo em uma cama de um hospital depois de ser agredida pelo ex namorado. A senhorita Duarte acumula dívidas incontáveis e recentemente, adquiriu uma nova por minha causa. – murmurei esfregando as têmporas. Eu não devia pensar demais nisso, aquela vaga era pra Isabella, nos últimos meses ela tem estado muito fraca e qualquer coisa a desestabiliza. eu precisava cuidar dela, como prometido. Aquela mulher era só mais um problema, como todos os outros problemas insignificantes que tropeçaram no bem estar de Isabella e não se levantam mais. Mas o jeito que ela me olhou... ninguém me olhava com aquela coragem suicida há muito tempo, ela tinha desdém na voz, raiva nos olhos, e não tinha papa na língua. Não era pelo desafio dela, ela por algo nela, os olhos talvez, ou o sorriso ou o quadril fino, eu não sei. —Merda– praguejei enquanto saia do quarto, ajustando a camisa, pensando em como aquela garota pobretona teve a coragem de me enfrentar, mesmo se corroendo de dividas e problemas. Entrei no carro procurando no GPS o endereço daquela mulher histérica. — Essa garota tinha que morar no fim do mundo? – perguntei desinteressado enquanto subia as escadas estreitas do prédio do subúrbio, que estava quase caindo aos pedaços enquanto o som dos meus sapatos italianos ecoavam como uma contagem regressiva no chão que eu não sabia se estava sujo ou se era só velho . Quando parei diante da porta do 402, pude ouvir o som de teclas sendo batidas com força lá dentro. Bati três vezes. Quando a porta se abriu, o cheiro de álcool misturado com Quinoa me atingiu. Ela não estava com a armadura que usou no hospital. Dessa vez o cabelo dela estava preso em um coque desfeito, o rosto estava vermelho e os olhos... eles estavam brilhando por causa da bebida, mas ainda eram afiados, eu não quis reparar naquele baby doll amarelo, marcando as curvas dela, mas era impossível não apreciar. — Você? — Ela soluçou levemente, segurando o batente da porta como se fosse uma arma. — Veio ver se eu tenho o aluguel para você e o seu guarda “rebocarem?”– ela falou devagar gesticulando aspas no ar. —Senhorita Duarte, boa noite – respondi frio dando um passo para dentro, obrigando-a a recuar. O apartamento era minúsculo, mas organizado de uma forma maníaca. Na mesa, um notebook antigo e dezenas de folhas de papel com cálculos feitos à mão deixavam claro o motivo da histeria dela. — Vim devolver o seu carro — eu disse, minha voz soando profunda naquele pequeno espaço. Estendi a mão com as chaves do carro e o comprovante de liberação do pátio. — E pedir desculpas pelo transtorno. Ela olhou para as chaves e depois para mim, sem estender a mão. Em vez disso, ela deu uma risada amarga e voltou para a mesa, pegando uma caneca. — Desculpas? Um homem como você não pede desculpas. Você veio ver o estrago, pra rir da minha cara, você veio se sentir superior vendo onde a “gentinha” mora. O quê? O seu guarda não quis fazer hora extra e resolver o seu “probleminha” ? Eu caminhei até a mesa, ignorando o insulto. — você vive de sarcasmo? — Eu responderia, mas não te conheço e até agora, você é um riquinho folgado e intruso, que mandou rebocar meu carro – ela respondeu sentando cançadamente. Meus olhos caíram sobre a planilha. Ela estava tentando encontrar uma forma de pagar cinco mil reais com um saldo de quatrocentos e oitenta . — Você é ríspida para alguém que está a um passo do despejo, Helena. – respondi avaliando a garrafa que ela estava bebendo. — Como você sabe o meu nome? — Ela se levantou rápido, a bebida fazendo-a cambalear. Eu a segurei pelo braço antes que ela caísse, sentindo a pele dela queimar sob meus dedos como um lava. Eu deveria soltá-la, mas meus dedos se fecharam com mais força, eu queria segurá-la por mais tempo. — Eu sei tudo sobre você — sussurrei, aproximando meu rosto do dela. — Sei sobre a Lívia. Sei sobre a dívida do hospital. Sei do seu irmão e sei que seu pai é um viciado encostado. Ela tentou puxar o braço, enquanto seus olhos castanhos pegavam fogo. — Me solta! Invasão de propriedade é crime, e você não tem direito de falar da minha família – ela gritou esbaforida — Você não está em posição de expulsar ninguém, o apartamento está em leilão se eu piscar você vira sem teto— soltei o braço dela e tirei o cartão do meu assistente pessoal do bolso, colocando-o em cima dos cálculos de dívidas dela. — procure o Gudan, ele é meu assistente pessoal , ele vai te dar um emprego ... — deixa de ser intrometido, se veio aqui pra bancar o superman saiba que meu herói favorito é o Batman e nem na fortuna vocês se parecem. Vá pro inferno, você sua empresa, seus criados e lacaios e saia agora da minha casa ou eu vou gritar até a polícia chegar. Sorri de lado vendo ela agir feito um babuíno bêbado protegendo o território. — Tudo bem, pode ficar aí esperando um milagre resolver todos os seus problemas pra você, mas quando mudar de ideia, ligue para o Gudan e diga que eu lhe dei o cartão. Virei as costas, mas parei na porta. — E Helena? O documento que deixei para você retirar o carro amanhã é por minha conta. Considere isso um investimento na sua pontualidade. Saí sem olhar para trás, fingindo calma, mas meu sangue estava fervendo. Eu tinha dado a ela uma saída, mas ela era orgulhosa demais pra enxergar isso. Ela vai voltar, tenho certeza que amanhã ela vai ligar implorando por Gudan dar a ela um emprego, amanhã ela vai saber o meu nome é no que eu e o Batman somos iguais. Ajeitei o meu terno e saí do prédio sem pressa pra chegar ao carro, por que, até ali o perfume dela me alcançava, era irritantemente maravilhoso.
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