Pré-visualização gratuita Capítulo 1
LAURA
Meus pés estavam doendo horrores quando comecei a subir a ladeira. Mais um dia daqueles, limpando escritório de gente rica que nem me olha na cara. O uniforme grudado no corpo, o cheiro de desinfetante ainda grudado na pele... Ai, que vida é essa?
Dezenove anos e já me sinto velha. Desde que papai sumiu no mundo, sobrou tudo pra mim. Mamãe faz o que pode, vendendo quentinha, mas as contas não se pagam sozinhas, né? Luz, água, gás... tudo sempre atrasado. E eu aqui, quebrando as costas pra ganhar um salário mínimo que m*l dá pro básico.
Às vezes fico pensando: cadê o papai agora? Sumiu que nem fumaça, deixou duas mulheres se virando sozinhas. Que tipo de homem era esse?
O Morro da Coroa tava igual sempre: barulho de moto, som alto, cheiro de comida, crianças correndo pra todo lado. Minha vida toda foi aqui, nessas ruas estreitas, nessas casas grudadas uma na outra. Não que eu tenha vergonha, porque aqui tem gente trabalhadora e honesta. Mas às vezes sonho em sair daqui, sabe? Ter uma casa com quintal, poder andar na rua sem medo de bala perdida...
Hoje tinha sido especialmente difícil no trabalho. O seu Alberto, o dono do escritório, me tratou que nem cachorro na frente dos clientes. "Laura, limpa aqui direito!" "Laura, você não sabe fazer nada?" Na frente de todo mundo, me humilhando. E eu ali, engolindo sapo, porque precisava do emprego.
Pelo menos a dona Margarida, a secretária, sempre foi gentil comigo. Às vezes até sobra um lanche que ela divide comigo. Mas o resto... nossa! Como tem gente sem educação nesse mundo!
Eu andava perdida em pensamentos, quando escutei uns gritos.
— Moleque desgraçado! Pensa que eu não vi?
Quando vi o João encostado na parede, com os olhos assustados, meu sangue ferveu. João tinha 14 anos, era meu vizinho e eu tinha visto aquele menino crescer. Ele vivia com os livros debaixo do braço.
— Solta ele! — gritei sem nem pensar.
O policial Mendes me olhou como se eu fosse lixo.
— Tá maluca, p***a? Sai de perto, v***a!
VADIA?!
— Ele não fez nada! — não recuei nem um centímetro. — Esse menino só estuda!
— Como é? Eu tenho todo o direito, sua p**a!
Pronto. Agora ele passou dos limites.
— O senhor não pode falar assim comigo! — gritei, o corpo tremendo de raiva. — Eu tenho um trabalho honesto, tenho dignidade!
A vizinhança toda se juntou. Alguns sussurrando, outros com cara de quem tava torcendo pra mim. O João puxou meu braço.
— Laura, para... Deixa quieto...
Mas eu não conseguia. Era por ele, por mim, por todos nós que moramos aqui e somos tratados que nem lixo.
— Esse menino é menor de idade, sabia? — continuei gritando. — O senhor não pode tratar ele como bandido. Nem ele, nem ninguém aqui!
Mendes rosnou e levou a mão na arma.
— Sua vagabunda atrevida!
Foi aí que senti.
Um olhar. Queimando minhas costas.
Me virei devagar e... meu Deus.
Thalles.
O dono do morro. O homem que todo mundo respeita e teme ao mesmo tempo.
Nunca tinha falado com ele, mas sempre que passava perto meu coração acelerava. Alto, moreno, tatuado... aqueles olhos escuros.
E agora ele tava me olhando.
Senti um calafrio subir pela espinha. Não era medo. Era... outra coisa. Algo que me deixou com as pernas bambas.
— Ei! — ele não gritou, mas todo mundo calou a boca na hora. — Qual é o problema?
A voz dele... grave, rouca. Fez um negócio estranho no meu peito.
Mendes ficou todo nervoso.
— Nada demais, Thalles. Só averiguando...
— É mesmo? — ele se aproximou, e eu senti o perfume masculino dele misturado com cheiro de cigarro. — Achou alguma coisa?
Os olhos dele passaram pelo Mendes e pararam em mim. Nossa, que olhar intenso! Senti meu rosto esquentar.
— Não achei nada ainda, mas...
— Então não tem problema nenhum. — cortou ele, seco. — Achei que tinha deixado claro que aqui você não incomoda ninguém. A grana não foi suficiente?
Grana? Quer dizer que esse porco recebe dinheiro pra fazer vista grossa?
— Preciso fazer meu trabalho...
— Teu trabalho aqui já acabou. — Thalles chegou mais perto do policial, e eu vi a cicatriz no queixo dele. Que homem perigoso... e atraente. — A não ser que queira conversar sobre a mesada que recebe.
O policial ficou vermelho de raiva, mas não teve coragem de responder.
— Tá bom, tá bom... Mas da próxima...
— Da próxima, pensa duas vezes antes de desrespeitar trabalhador no meu morro. — a voz dele ficou mais baixa, mais ameaçadora. — Aqui quem manda sou eu.
Ele saiu de r**o entre as pernas. Mas eu m*l notei, porque Thalles tinha virado pra mim.
— Tudo bem? — perguntou, e a voz ficou diferente. Mais... suave.
Nossa, que voz linda! Consegui só acenar com a cabeça. Minha voz tinha sumido completamente.
— Obrigada... você não precisava...
— Precisava sim. — ele deu um sorriso de lado que fez meu estômago dar uma volta completa. — Gostei de ver você defendendo o moleque.
Jesus! Esse sorriso devia ser crime! Senti minhas pernas ficarem gelatina.
— Qualquer pessoa faria isso — consegui sussurrar.
— Não. — os olhos dele brilharam de um jeito que me fez derreter toda. — Qualquer pessoa ficaria quieta. Você não ficou. Isso é... interessante.
A forma como ele disse "interessante"... meu Deus! Senti uma onda de calor subir pelo corpo todo. Meu coração tava batendo tão forte que tinha certeza que ele podia escutar.
Ele deu mais um passo pra perto, e o perfume masculino dele me deixou tonta.
— Como é seu nome? — perguntou, e a voz dele parecia veludo.
— L-Laura — gaguejei que nem uma boba.
— Laura — ele repetiu meu nome devagar, como se tivesse saboreando cada letra. — Nome bonito.
Meu rosto pegou fogo! Desde quando meu nome soava tão... sensual?
— Mora onde exatamente? — continuou, e agora tava tão perto que dava pra ver os detalhes dos olhos dele. Castanhos escuros, com uns pontinhos dourados que brilhavam na luz do fim de tarde.
— Ali... — apontei pra minha rua, a mão tremendo. — Na rua de cima.
— Sei. — ele sorriu de novo. — Trabalha onde?
Por que ele tava perguntando isso? E por que eu tava adorando ser interrogada por ele?
— Em um escritório de contabilidade... no centro.
— Que horas sai?
— Cinco horas.
— E sempre volta por aqui?
Assenti, hipnotizada pelos olhos dele. Era como se ele tivesse me enfeitiçado.
O João puxou meu braço, nervoso.
— Laura, vamo...
Mas Thalles olhou pro João com aquele jeito dele, e o menino soltou meu braço na hora.
— Pode ir, moleque. Ela fica mais um pouquinho.
O João me olhou preocupado, mas eu fiz sinal pra ele ir.
Quando ficamos sozinhos, Thalles chegou mais perto ainda.
— Quantos anos você tem, Laura?
— Dezenove.
— Dezenove... — murmurou, como se estivesse pensando em alguma coisa. — Novinha ainda.
O jeito que ele disse isso fez meu corpo inteiro formigar.
— Tem namorado?
A pergunta me pegou de surpresa.
— N-não.
Por que eu gaguejei de novo? E por que aquele sorriso dele ficou ainda mais intenso?
— Que bom — disse ele, baixinho.
QUE BOM?! O que isso significava?
— Por que... que bom? — perguntei, reunindo toda minha coragem.
Ele chegou tão perto que dava pra sentir o calor do corpo dele.
— Porque agora eu sei que você tá disponível.
DISPONÍVEL?! Meu coração quase parou!
— Eu... eu não entendi...
— Vai entender — sussurrou, e a voz dele tava tão rouca que me deu arrepios.
Ele levantou a mão e passou o dedo pela minha bochecha, bem devagar. Foi só um toque, mas senti como se tivesse levado um choque elétrico.
— Pele macia — murmurou, mais pra ele mesmo que pra mim.
Meu Deus! Não conseguia nem respirar direito!
— Eu...
— Shhh — ele colocou o dedo nos meus lábios, me fazendo calar. — Só quero que saiba uma coisa — continuou, tirando o dedo mas continuando pertinho. — Você me interessou. E quando alguma coisa me interessa, eu costumo conseguir.
— Oi?
— Vai pra casa agora — ordenou, mas o tom era suave. — Amanhã a gente se vê de novo.
— Como você sabe que...?
— Eu sei — cortou, com aquele sorriso perigoso. — Sei de muita coisa, Laura.
Peguei minha bolsa com as mãos tremendo. Quando me virei pra ir embora, escutei ele falando baixinho com o Bruno.
— Fica de olho nela — disse ele. — Quero saber tudo sobre a garota. Onde trabalha, que horas sai, que caminho faz... tudo.
— Tudo, chefe?
— Tudo. E Bruno... — a voz dele ficou mais séria. — Ninguém encosta nela. Ninguém olha torto, ninguém fala grosso. Ela tá sob minha proteção agora.
PROTEÇÃO?! Meu coração disparou!
— Entendido, chefe.
Eu tava andando, mas escutando tudo. Que tipo de "tudo" ele queria saber? E essa história de proteção... o que significava?
Quando cheguei em casa, mamãe perguntou por que eu tava tão vermelha.
— Não é nada, mãe. Só o calor.
Mas não era calor. Era o Thalles. Era aquele olhar intenso, aquela voz rouca, era ele.
Deitei na cama e fechei os olhos, mas só conseguia pensar nele. No dedo dele tocando meu rosto. Na forma como disse meu nome. No perfume masculino que ainda parecia estar grudado na minha pele.
"Você me interessou."