15 - "Você não merece nada"

1665 Palavras
Lina, meticulosamente, organizou suas pertences na bolsa, um gesto que se tornara rotina nos últimos dias. Seus olhos, por um breve segundo, desviaram-se para o armário antigo que pertencera a Mary. Já fazia semanas desde que o esvaziara, um ato que parecia ter ocorrido em um passado remoto, logo após a partida de Mary deste mundo. Entretanto, naquele momento, Lina sentia que era a última vez que se afastaria daquelas paredes e que nunca mais vislumbraria o conteúdo do antigo armário. A residência dos Colin, onde trabalhara incansavelmente ao lado de Mary por anos, estava prestes a se tornar um capítulo encerrado em sua vida. Mary, a predecessora, já teria motivo para sorrir onde quer que estivesse, considerando a escolha que Lina estava prestes a fazer. Para muitos, era uma loucura abandonar a segurança de uma vida conhecida para se aventurar em terras desconhecidas. No entanto, Lina sentia que era hora de deixar as coisas de lado por um momento e experimentar algo novo. Os olhares e palavras de despedida já haviam sido trocados com todos na casa, e agora restava apenas dar o passo final em direção à porta. O sol começava a se pôr, pintando o céu com tons quentes de laranja e rosa, refletindo a transição de um dia para o próximo capítulo da vida de Lina. "Isso tudo acabou, Lina." Falou para ela mesma, se lembrando da noite passada e tomando aquilo como coragem. Era uma sensação única descobrir que, de alguma forma, fazia parte de algo maior. Mary, em sua sabedoria, havia percebido algo especial em Lina, algo que ia além do comum. Aquela ligação com Dominik Wolfgang não era uma coincidência; era o resultado de uma escolha celestial. Lina descobriu que ela era uma escolhida da lua, uma designação que ressoava profundamente em sua alma. Ela também estava disposta a dar sua energia pra descobrir quem havia feito aquilo com Mary. Era como se as peças do quebra-cabeça de sua vida estivessem finalmente se encaixando, revelando um propósito maior. A lua, com sua luminosidade misteriosa, parecia agora um guia em seu caminho, iluminando o futuro que se desenrolava diante dela. Suspirando profundamente, Lina começou a percorrer o caminho em direção à saída. No entanto, seus passos foram abruptamente interrompidos quando uma voz suave ecoou, chamando-a pelo nome. "Lina." Por um instante, ela congelou em seus passos e direcionou seu olhar para Stella, a filha dos Colin. A jovem exuberante aproximou-se dela com uma calma aparente. Uma enxurrada de pensamentos invadiu a mente de Lina. O que Stella queria? "Olá, senhorita." Stella falou, rompendo o breve silêncio que se estabelecera entre elas. "Eu soube que está indo embora. Eu nunca disse nada, mas eu sinto muito pela sua tia. Sei que eram muito próximas." A expressão de Lina suavizou-se diante das palavras sinceras de Stella. Ela não esperava esse gesto de compaixão. "Eu... Não esperava." Stella continuou, reconhecendo as ações de sua própria mãe. "Sei que minha mãe agiu de forma r**m com você ontem. Eu sei que ela não trata bem os funcionários. Também sei que você está passando por mudanças assim como eu." As palavras de Stella eram surpreendentemente maduras e carregadas de empatia. Lina sentiu uma conexão instantânea, como se ambas estivessem navegando em águas desconhecidas. "Minha vida parece ter ficado de cabeça para baixo." "Parece que tudo não faz mais tanto sentido, não é?" Stella observou com compreensão. "Quero achar meu lugar no mundo." "Bem, eu espero que você consiga. Por você e pela nossa matilha. Como Wolfgang fala, todos somos importantes." Nesse momento, um sorriso iluminou o rosto de Lina. Era a primeira vez que via Stella sendo tão genuinamente gentil. Percebeu que não era a única a buscar respostas sobre quem era e de onde vinha. Ela não fazia ideia de quem esteve com Lina na noite passada. Mas já não importava. O destino das duas, de alguma forma, parecia mais entrelaçado do que nunca. Era da mesma idade e talvez tinha mais que apenas uma troca em comum. Ambas estavam em busca de seu próprio caminho, tentando compreender o que significava pertencer a um lugar e a uma comunidade. Uma compreensão silenciosa passou entre elas, uma conexão que transcendia as palavras ditas naquele momento. "Espero o mesmo pra você." Ao retomar sua caminhada em direção à saída, Lina sentiu uma nova determinação, mas mais uma vez, alguém fez ela parar antes de chegar a saída. Eliza observou Lina com um olhar perscrutador, percorrendo-a dos pés à cabeça, enquanto um sorriso de desdém se formava em seus lábios. "Olha quem temos aqui, se não é a empregada mau agradecida de ontem. Pensei que não iria mais cruzar o meu caminho." Lina permaneceu calma diante das palavras carregadas de hostilidade. "Só estou aqui pra esvaziar meu armário." "Espero que seja somente isso." O sorriso de Lina agora denotava confiança. Ela não temia mais Eliza, pois não devia nada a ela. "Quer olhar? Agora tenho todo tempo do mundo, senhora." "Está sendo insolente. Mary iria odiar vê-la falando assim com um dos patrões." A referência a Mary bagunçou os pensamentos de Lina. A lua continuava a brilhar no céu, mas o instinto de lobo dentro dela era como um pavio curto, pronto para ser aceso. "Você não é minha patroa mais. Acabou." As palavras de Lina foram pronunciadas com firmeza, e por um momento, o ar pareceu eletricamente carregado. O olhar desafiador de Eliza encontrou o de Lina, criando uma tensão palpável entre as duas mulheres. A lua, testemunha silenciosa desse embate, lançava sua luz sobre a cena. Eliza, surpreendida pela ousadia de Lina, recuou um passo, avaliando a transformação na postura daquela que antes servira obedientemente. Lina, por sua vez, sentia a pulsação de sua natureza lupina, a força ancestral que a ligava à lua e à liberdade. "Você pensa que pode simplesmente sair daqui como se nada tivesse acontecido?" provocou Eliza. "Exatamente. Eu não devo mais nada a você. Nem a esta casa." O desafio nos olhos de Lina ecoava uma nova determinação. A atmosfera estava carregada de mudança, como se o destino estivesse sendo reescrito naquele momento. "Você é apenas uma garota insolente que não sabe o seu lugar." "Meu lugar é onde eu escolher. E eu escolho sair." Eliza, acostumada a exercer poder sobre os outros, estava diante de alguém que havia encontrado sua voz e sua independência. A empregada mau agradecida do passado não existia mais. No lugar dela, emergia uma mulher forte, disposta a enfrentar os desafios que o mundo tinha a oferecer. Isso incluía o passado. Um que Eliza modificou e guardava o seu maior segredo. Aquilo causou medo. Já havia visto o mesmo olhar, dezoito anos atrás, dando a luz aquela mesma garota. Céus, aquele era o sinal que era mesmo filha de Elizabete. O passado bateu na porta dela e ela não gostou. "Você é um erro, sabia?" Eliza deu um passo na direção de Lina, com uma delicadeza sutil e ágil. "Eu acho melhor ir embora." Eliza percorreu os dedos pelo móvel com uma expressão pensativa, suspirando fundo antes de direcionar seu olhar para Lina. A tensão pairava no ar como uma cortina palpável. "O que acha que vai fazer indo embora daqui? Acha que não vou ligar para todos e dizer que você não é qualificada nem para limpar um copo sujo?" As palavras de Eliza eram impiedosas, carregadas de uma ameaça velada. Lina, por sua vez, encarava-a com firmeza, percebendo que ali se desenrolava mais do que um tratamento injusto. Havia uma hostilidade profunda, uma animosidade que ia além de uma simples diferença de status. "Por que a senhora tem essa raiva de mim? O que foi que eu fiz?" Lina questionou, sua voz carregada de perplexidade e uma pitada de dor. O olhar de Eliza permaneceu frio, revelando pouco sobre as razões por trás de sua hostilidade. Era como se a raiva guardasse segredos que ela não estava disposta a compartilhar. "Você acha que tem o direito de questionar as minhas decisões? Você é apenas uma empregada, Lina. Uma empregada ingrata." As palavras de Eliza eram cortantes, mas Lina se recusava a ser intimidada. "Eu nunca quis desrespeitar a senhora. Só queria entender. Eu trabalhei duro aqui." "Você é uma intrusa. Invadiu a minha casa, aproveitou-se da minha generosidade, e agora acha que pode sair impune?" A acusação de Eliza atingiu Lina como um golpe, mas ela se recusou a se curvar sob o peso das palavras acusatórias. "Eu não vim aqui para aproveitar nada. Eu só queria um trabalho, uma oportunidade. Não entendo por que a senhora guarda tanto rancor." Eliza soltou um riso cínico, como se a explicação de Lina fosse irrelevante diante de suas próprias convicções. "Você não é nada. Apenas mais uma criatura insignificante que passou por esta casa." A resposta de Eliza foi c***l, cortante, como se quisesse diminuir a essência de Lina. No entanto, algo na determinação de Lina começou a mudar. Ela percebeu que não era mais aquela empregada indefesa. Havia força em sua voz, uma vontade de confrontar as injustiças que enfrentara. "Eu mereço respeito. Todos merecem. Não vou permitir que a senhora me trate assim." Eliza encarou Lina com surpresa, talvez não esperando tamanha resistência. O confronto entre as duas mulheres continuava, uma batalha de dignidade e autoafirmação. Eliza riu, fria e distante. Como uma mulher Eliza riu, sua risada ecoando fria e distante, como a de uma mulher malvada pronta para atacar. O ambiente tornou-se carregado com a tensão de um confronto iminente. Lina, por sua vez, sentiu um odor forte invadir suas narinas, uma percepção aguçada do animal dentro dela, alertando-a para o perigo iminente. Seus sentidos se aguçaram, mas antes que pudesse compreender completamente, algo atingiu seu rosto com força avassaladora. O impacto foi tão súbito e potente que Lina apenas teve tempo de cambalear antes de cair. A escuridão a envolveu rapidamente, como se tivesse sido arrastada para um abismo insondável. Lina estava no escuro. "Você não merece nada, Lina!"
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