16 - Maldição

1259 Palavras
Lina abriu os olhos lentamente, sua visão embaçada tentando desvendar o lugar desconhecido. Uma dor latejante martelava em sua cabeça, e seu corpo parecia estranho, mais pesado do que o habitual. Não estava no mesmo lugar que caiu. Não. Aquele lugar era mais gelado e frio. "Onde eu estou?" O desconcerto em sua voz ecoou no ambiente silencioso, enquanto ela tentava se situar. Uma sensação de desconforto a envolvia, como se algo estivesse fora do lugar. O piscar gradual revelou um cenário sombrio ao seu redor. Eliza, com sua expressão imperturbável, fechou a porta do porta-malas do carro. A lembrança dos segundos que antecederam o impacto na cabeça de Lina invadiu sua mente, fazendo seu coração acelerar. "Olha só quem acordou. Lina!" A voz de Eliza era dura, carregada de uma frieza que enviou calafrios pela espinha de Lina. O ambiente ao redor começou a se materializar lentamente, revelando que ela estava fora no meio da floresta. As mãos de Lina buscaram instintivamente sua cabeça, sentindo a área dolorida onde fora atingida. "O que você fez comigo? Por que estou aqui?" questionou Lina, sua voz carregada de uma mistura de confusão e apreensão. Eliza, com um sorriso sádico, aproximou-se lentamente. Sua figura pairava sobre Lina como uma sombra ameaçadora. Lina ainda tentou se mexer, mas seus pés e mãos estavam presos. "Você realmente acha que pode sair sem enfrentar as consequências? Sem sofrer as devidas punições?" A ameaça nas palavras de Eliza fez Lina perceber a gravidade da situação. Ela tentou se levantar, mas seu corpo parecia pesado e desajeitado. Cada movimento era um esforço, e a dor em sua cabeça pulsava como um lembrete constante. " Por favor, não faça nada. Me solte." "Eu não vou permitir que você estrague tudo. Você não é nada, Lina. Apenas uma peça descartável como cada pessoa que serve nossa matilha." Lina, apesar da confusão e dor, fixou seu olhar desafiador em Eliza. Uma centelha de determinação surgiu em seus olhos, mesmo diante da incerteza que se desenrolava ao seu redor. "Você não vai conseguir me manter aqui para sempre! E quando eu sair, vou garantir que todos saibam o que você fez." A resposta ousada de Lina pareceu cutucar um nervo em Eliza. Seu sorriso desapareceu, substituído por uma expressão de raiva contida. "Você acha que tem alguma chance? Você não entende quem eu sou? Eu sou uma Colin." Lina, mesmo enfraquecida, manteve sua postura desafiadora. A escuridão da noite e o interior da floresta tornavam o ambiente ainda mais opressor, mas Lina recusava-se a ser completamente dominada pelo medo. " O que está fazendo? " Eliza retirou cuidadosamente a pequena adaga de sua bolsa, a mesma arma que já havia sido usada contra Mary. O brilho metálico refletiu a luz de maneira ameaçadora, enquanto ela contemplava a lâmina afiada com um olhar decidido. "Aquilo que devia ter feito antes." A intenção de Eliza era clara: ela faria com Lina o que fizera com Mary, visando manter seus segredos enterrados. O gesto poderia ser executado rapidamente, uma solução eficaz para silenciar uma testemunha incômoda. No entanto, havia um complicador crucial: Lina era uma escolhida da lua. Eliza sabia que o alfa, líder da alcateia, teria uma conexão especial com os escolhidos da lua. Matar Lina poderia provocar uma reação do alfa, um sinal inegável de que algo estava errado. Era uma aposta perigosa, uma linha tênue entre a preservação de seus segredos e a desencadeação de forças que ela não poderia controlar. "Por que está fazendo isso?" "Você vai ser castigada pela sua insolência. Vou mostrar para você onde é seu lugar." A escolha de Eliza de envolver Lina nos mistérios que cercavam a licantropia não era casual. Lina era mais do que uma simples empregada; ela representava uma peça importante no quebra-cabeça da família Colin. A conexão dela com o alfa era um fator que Eliza não poderia ignorar também. "Não faça nada comigo, por favor." Implorou a jovem, no chão, tentando se mexer ou se livrar da mulher. A magia que Eliza buscava estava relacionada a segredos antigos e perigosos, uma força que ela estava disposta a desencadear para atingir seus objetivos. O livro antigo e a magia pesada, ocultos sob o véu do segredo da licantropia, tornavam-se peças cruciais nesse jogo arriscado. "Ninguém mais vai senti-la. Você vai poder ser livre como queria." "Não. Pare!" Gritou, com esperança de alguém ouvir. Lina, mesmo deitada e vulnerável, mantinha uma presença imponente. Ela não era apenas uma testemunha; era uma chave para algo mais profundo e misterioso. Eliza sabia que a decisão de eliminar Lina envolvia riscos significativos, e o dilema entre a autopreservação e a exposição de segredos ocultos era palpável. "Cale sua maldita boca, sua bastarda!" Eliza se aproximou, sem esperar, ela cruzou a lâmina sobre o rosto bonito de Lina. O corte foi grande e fez a jovem gritar em plenos pulmão. "O que está fazendo?!" As lágrimas saíram devagar. Com uma dose de dor pelo corte. Eliza cortou a própria mão e com uma única gota de sangue, ela deixou deslizar pelo rosto da jovem. Enquanto Eliza segurava a adaga, a lua brilhava no céu noturno, lançando sua luz sobre a cena. Era como se a própria lua estivesse observando, ciente da intrincada teia de destinos entrelaçados. "Na luz da lua, na sombra da noite. Homem, torna-te lobo, ligado pelas estrelas. Guardião da carne, pele de lobo. Dentro da b***a, visão interior." "Ahhh, pare!" Cada osso do corpo dela começou a se contorcer, uma sensação torturante como se estivessem sendo quebrados. A maldição começava sua metamorfose implacável. "Pelas noites silenciosas, pelos sons da floresta. Corpo humano, transforma-se em sua outra forma. Sob a pele, alma capturada, Não pode ser liberta até que a estrela se eleve." A voz de Eliza ecoou como um cântico sinistro, e Lina, enquanto sentia a dor insuportável da transformação, lutava para compreender a intensidade do feitiço que a aprisionava. O controle escapava de suas mãos, e ela se viu mergulhada no caos da metamorfose. Ela pediu em silêncio pra alguém chegar e ajudá-la. Mas estava sozinha. Imaginou até Wolfgang tirando ela dali e acabando com o sofrimento. Mas imaginou também não vê-lo nunca mais. Imaginou Mary, mas ela também não iria aparecer. Estava sozinha com uma pessoa desequilibrada. "Eu não consigo controlar!" A exclamação de Lina reverberou, um grito de impotência, enquanto Eliza ria sadicamente. Os ossos de Lina estalavam, e seus dentes se transformavam em presas afiadas. A criatura emergente não era o lobo familiar que ela carregava consigo, mas sim uma b***a comum, selvagem e perigosa. "Nas florestas lupinas, nas sombras do abismo. Espírito humano, inseparável do lobo. Atado pelo vínculo, pela lei e pelo arcano. Homem no lobo, eternamente oculto." Ao término do feitiço, Lina estava irreversivelmente transformada. Um lobo n***o ocupava o lugar antes ocupado por Lina, seu corpo agora desacordado sob o domínio da magia da noite. Lina, no entanto, não se misturara aos lobos da matilha. Era uma fera comum, vulnerável e problemática. Um lobo destinado a atrair a ira da matilha, uma ameaça que, eventualmente, seria eliminada. O lobo no chão tentou uivar, mas as pálpebras estavam fechadas. Lina estava aprisionada dentro daquele corpo animal. Embora pudesse sentir e pensar, a falta de controle a mergulhava em um abismo de prisão. Era uma existência limitada, uma condenação à obscuridade, onde as fronteiras entre loba e humana se desvaneciam em um labirinto de escuridão. "Acho melhor se levantar, correr e se esconder. Vão caçar você. Está presa até o último dia da sua vida, Lina."
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