10 - Não pare.

1203 Palavras
Lina demorou três dias para ver sua maior amiga, mãe e companheira deixá-la. Os oficiais da cidade e alguns homens da matilha vasculharam a casa, o bairro e fizeram perguntas e mais perguntas. Não havia pista. Não havia rastros. Havia a suspeita de um carro preto na região, mas nada que levantava suspeita. Porém, Lina agora tentava se confirmar. Ela nunca pensou o quanto difícil seria voltar para casa sozinha ou seguir sozinha. Pela segunda vez na vida, ela não tinha ninguém. Nada. Mary havia ido embora. Era uma sensação avassaladora dentro do peito dela. Algo que beirava a agonia. Havia medo. Raiva. Incerteza. Mas, o principal, havia ela. Ela estava viva e precisava seguir a vida. Mesmo sem Mary. Assim que chegou ao trabalho, na mansão Colin, cada pessoa a recebeu bem, com um toque de carinho e solidariedade. Aos poucos, Lina começou a encontrar conforto entre os conhecidos e colegas de trabalho. Todos sabiam da situação, e o apoio deles era um bálsamo para sua alma ferida. Estava mais calada. Quieta. O senhor Colin fez questão de ir até a moça. "Lina." Ela se virou. O senhor Colin era o tipo de homem mais velho e elegante, cabelos grisalhos, rosto chamativo. Era um homem cuja idade foi favorecida. "Senhor Colin, precisa de algo?" Ele deu um passo para frente. Naquele momento, os olhares se cruzaram e o senhor Colin quase percebeu a dor dela de forma palpável. Aquilo o deixou estranhamente tocado. "Como se sente?" Lina limpou a mão no avental e suspirou fundo. Como ela se sentia? Era uma ótima pergunta. "Eu estou bem." O homem não acreditou. Pareceu ler o semblante. Parecia familiar, naquele momento, ver uma dor tão evidente. "Mary era uma mulher esforçada. Me lembro dela e da dedicação que sempre pregou enquanto viva e trabalhando aqui." "Eu sei, ela era incrível." "Se precisar de alguma coisa, não pense muito em me procurar. Sei que havia somente ela. A matilha está procurando saber quem fez isso e vamos achar o culpado." Ela se sentiu agradecida pela atenção. Até conseguiu dar um meio sorriso triste. "Eu agradeço muito." Apesar da resposta de Lina, o senhor Colin percebeu a dor profunda que ela tentava disfarçar. Era como se ele pudesse sentir o vazio que a partida de Mary deixara na vida da jovem. Ele se perguntou como seria a jornada de Lina sem sua amiga e apoio. Colin havia conhecido Mary e Lina por um longo tempo. Ele admirava a dedicação delas ao trabalho na mansão e a forma como se ajudavam mutuamente. A falta de Mary não era apenas um buraco na equipe; era um vácuo na vida de Lina. "Você só tinha ela, não é?" "Bem, ela era minha única família. Eu vou ficar bem." "Eu sinto muito." Lina acreditou nas palavras do homem. "Eu também." Enquanto se afastava, o senhor Colin se pegou pensando naquela interação. Ele não podia ignorar a necessidade de ajudar Lina a superar o luto e seguir adiante. O olhar dela expressava uma angústia silenciosa, uma dor que palavras não poderiam consolar por completo. Lina voltou ao seu trabalho, estava tentando se distrair com isso. Mas de noite, ao voltar pra casa, sentia falta dela. Era um luto forçado que ela estava passando. Por outro lado Eliza observava Lina atentamente, mantendo um olhar perspicaz sobre a jovem. Era uma sensação de volatilidade que a incomodava; uma presença que, de alguma forma, parecia requerer seu desaparecimento imediato. A patroa já havia recorrido a medidas semelhantes com Mary, mas Lina, ao contrário de Mary, possuía uma ligação mais intrínseca com a licantropia, algo mais profundo, mais presente. Isso tornava a situação mais complexa. Eliza sabia que agir da mesma forma com Lina seria mais arriscado, mais desafiador. “Olá, Lina.” A voz gélida de Eliza capturou a atenção da jovem. Seus olhos refletiam uma intensidade crescente, denotando a ameaça subjacente. Eliza via naquela garota o potencial para desestabilizar o ambiente, afetar a vida como ela a conhecia. Decidiu que faria de tudo para que Lina desaparecesse dos arredores, fora do alcance da matilha e do alfa. Era apenas uma questão de tempo. "Senhora Eliza, precisa de alguma coisa?" perguntou Lina, tentando manter a calma, mas percebendo o olhar frio e intenso da patroa. "Sim, eu gostaria que você arrume meu quarto", disse Eliza, sua voz soando mais autoritária do que o habitual. "Ele foi limpo, não senhora?" questionou Lina. "Foi, ontem. Mas eu quero que faça tudo de novo. Quero que lave o banheiro e o quarto todo. Eu sinto que não terei uma empregada tão incrível como Mary. Acha que pode fazer isso?" O pedido de Eliza pegou Lina de surpresa. Havia algo de mais arrogante na maneira como a patroa falava. Ela concordou, ainda tentando compreender as entrelinhas daquela atitude. Eliza continuou, apontando para a mudança de circunstâncias. "Sabe que agora, com a partida de Mary, eu posso escolher não mantê-la aqui, não é? Eu gostava muito dela, mas agora as coisas mudaram. Acho que já tive alguns incidentes com você, espero não ter nenhum problema com você. Tem uma razão de eu gostar de pessoas mais velhas e não garotinhas." O sorriso que se abriu no rosto de Eliza transmitia mais ameaça do que simpatia, deixando Lina nervosa. "Farei tudo certo", foi a resposta cautelosa de Lina, que tentava controlar as emoções tumultuadas que aquelas palavras da patroa causavam. A pressão e a ansiedade crescentes deixaram Lina inquieta, agora mais consciente do risco iminente que pairava sobre sua permanência naquela casa. " Seria uma pena você ficar sem trabalho agora, não é? O inverno é daqui algum tempo. Sabe como é difícil arrumar trabalho, não é? " Lina abaixou o olhar, intimidada e fora de paciência pra lidar com arrogância e malícia de uma mulher fria. " Farei tudo certo. " Repetiu as mesmas palavras, disposta a não rebater e segurar as pontas. Agora era só ela, mesmo não tendo uma vida luxuosa. Precisava de dinheiro pra viver. "Ótimo, não esqueça de limpar as janelas do quarto, fui clara?" "Sim, senhora." Enquanto Eliza se afastava, Lina sentiu um aperto no peito. A atitude e as palavras de sua patroa haviam deixado um gosto amargo em sua boca. Ela se perguntou se teria agido de forma inadequada, mas não conseguiu encontrar um motivo para tal tratamento. A ideia de perder o emprego, agora que Mary não estava mais lá para interceder por ela, tornava tudo ainda mais difícil. Antes de começar o resto do seu dia, ela olhou para janela. Viu Stella no jardim, tomando sol. Parecia protegida do mundo lá fora, vivendo a vida e podendo escolher o que fazer dela. Ela quis não estar fazendo nada daquilo, preferia tomar aquele sol e pensar em tudo que havia passado não últimos dias. Mas não podia. Uma lágrima até caiu do rosto dela. Solitária e cheia de coisas que ela não podia falar pra ninguém. Ela não teve muita oportunidade na vida e talvez precisava encontrar seu caminho de novo. Não fez sentindo estar naquela casa sem Mary, mas, embora ela tenha esse sentimento. Ela não podia parar. Ela era uma sobrevivente. "Você vai ficar bem, Lina." Sussurrou pra ela mesma.
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