9 - Grande perda

1047 Palavras
Lina, recém-chegada em casa após sua corrida noturna, retirou o capuz do moletom e sentiu o calor pulsante em seu corpo. A pele coberta por uma fina camada de suor atestava o esforço feito durante o exercício. A atividade física havia a deixado mais que satisfeita. Seu coração, ainda palpitante, batia em ritmo tranquilo, imerso em tons distintos dos turbilhões de pensamentos que normalmente a atormentavam. Por um instante, ela esqueceu de quem tentava evitar pensar. Wolfgang, o alfa da matilha, não ocupava um lugar tão significativo em sua vida. Ele era uma figura de autoridade na comunidade, alguém a quem ela devia respeito, e isso bastava. Ao empurrar a porta de entrada, notou que estava entreaberta. Um vislumbre de preocupação atravessou seu semblante enquanto adentrava, percebendo o silêncio absoluto que pairava no ambiente. A ausência do som da televisão ou do rádio, tão comuns em sua casa, era desconcertante. "Tia? A porta está aberta", chamou, mas nenhuma resposta ecoou pelos cômodos vazios. O silêncio pesado e a ausência da tia, geralmente presente em seus afazeres domésticos, alimentaram um leve desconforto em Lina. Ela caminhou pela casa, mas só foi quando cruzou o sofá da sala, que viu o sangue no chão e foi acompanhando o rastro vermelho. O cheiro de ferro presente e então, o corpo pálido no sofá. O grito saiu alto da boca dela. Ela apenas se aproximou, segurou o rosto de Mary entre suas mãos e então chamou. Lina nem percebeu a gravidade da cena. Algo no inconsciente dela pareceu mexer, não deixou tão r**m como estava. A cena era como um daqueles filmes de terror mercenário. Havia sangue, morte e vítima inocente. Alguém que não merecia morrer e alguém que não merecia perder. "Tia, fala comigo, por favor," Ela puxou o telefone de lado, de pé ela xingou alguma coisa e discou a emergência. O número pareceu distante demais pra ajudá-la. Lina deixou o olhar cair pelo corpo, viu a mão dela sobre o pescoço e os olhos abertos. Parecia assustada e aterrorizada. Não tinha vida. Nada. Parecia vazio. O coração de Lina se partiu ali, quando percebeu que ela não tinha mais movimentos de respiração. A boca dela estava pálida e havia muito sangue. O telefone caiu da mão dela, ela paralisou. O silêncio quase ensurdecedor. "Acorda. Por favor, faz alguma coisa, tia Mary!" Ela se aproximou, segurou o rosto dela novamente e sentiu as lágrimas descendo. Ela até afastou a mexa do cabelo escuro do rosto gelado. A sensação acompanhou Lina, era a pior sensação da vida dela. "Não me deixe aqui, por favor. O que fizeram com você?" Lina viu os furos sobre a pele. Alguém havia machucado Mary, alguém havia machucado profundamente. "Quem fez isso, Mary?!" Lina gritou, quase como se obrigasse alguém a falar. Dar alguma explicação do que ela estava presenciando. Mas ninguém falou nada, ela se jogou para trás, foi se arrastando com a cena diante os seus olhos. Suas pernas quase não paravam em pé. Nem mesmo o ar parecia fácil de respirar. Passou um filme na cabeça dela. Chorando, ela se lembrou de Mary colocando ela na cama, levando pra escola e dando a primeira boneca pra ela. Se lembrou de quando as duas tomaram banho no lago ou quando chovia e ela podia dormir com Mary. "Isso não está acontecendo!" Mary era a figura materna. Era o exemplo de pureza e bondade. Mary resgatou o bebê no meio da noite. Adotou e deu todo seu amor para a garota que chorava pela morte dela. Lina completou um espaço único na vida da menina para ir embora daquela forma. Precoce e violenta. Lina conseguiu ficar de pé, seu rosto vermelho e seus olhos escuros de dor. Ela correu pra fora de casa. Ela gritava, sua voz saia abafada. "Alguém me ajuda!" Foi no gramado que ela caiu de joelhos, seu coração se despedaçou no jardim que as duas cuidavam. Até ali ela sentiu que já boa haveria mais Mary. O barulho do choro dela saiu por todos os lados, alto e forte. Como de uma criança desesperada que perdeu sua mãe ou a sua única família. Lina afundou o rosto entre as mãos. Ficou sem saída. Se perdeu. Suas unhas se afundaram na grama. As pontas dos dedos chegaram a doer. Houve uma raiva que ela nem percebeu sentir. Algo novo é animalesco. "Lina?" Ela ergueu o olhar. O rosto família apareceu e ela não conseguiu falar, apenas chorar. A mulher se aproximou em consolo e ficou na altura dela. "Ela está lá dentro. Mary está lá dentro." Falou baixo, tão baixo que quase não se escutou. A mulher precisou olhar para o rosto dela, tentar ler os lábios dela pra entender. O choro não ajudava. A expressão no rosto de Lina era assustadora. "Vai ficar tudo bem querida. Onde está Mary?" O marido dessa mesma vizinha entrou na casa. A cena que ele encontrou lá dentro fez ele sai segundos depois, horrorizado com o que viu e soube. A esposa dele ergueu o olhar, olhando pra ele e esperando que ele pudesse falar. "Mary, ela está..." O homem não conseguiu dizer. Era acostumado com a mulher de meia idade sempre acolhedora, boa e honesta. Alguém que na matilha merecia mais que morrer daquela forma. "Vamos Stuart, o que houve?" "Ela está no sofá." o homem só precisou balançar a cabeça pra esposa dele entender. O horror tomou conta da cena. Ele nem ousou a falar como viu a mulher, o sangue. Nada. Ele apenas confirmou que algo r**m aconteceu com a mulher, que isso era o motivo do choro. Era um choro de dor. "Eu sinto muito, Lina." "Machucaram ela, alguém machucou ela. Eu não pude fazer nada. Eu cheguei e estava assim. Alguém me tirou ela, alguém machucou ela... Eu... Eu.... Ela era minha família." A mulher puxou a jovem para os braços. Lina precisava muito do carinho e apoio. Aos poucos, mais pessoas chegaram e ninguém entendeu nada. Viram Lina aos prantos e apenas quando entravam na casa, souberam o motivo. Alguém conseguiu avisar quem era necessário. Quando Lina percebeu, havia alguns oficiais e até alguns membros da matilha. Se encolheu, ficou quieta até que um deles se aproximou. "Meu nome é Jason, estamos aqui pra saber o que aconteceu."
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR