Lina caminhou até a porta do seu pequeno quarto, os tênis em mãos. Observou-os por um momento, como se buscassem fornecer alguma resposta para as inquietações que ecoavam em sua mente. Uma semana havia se passado desde aquela noite tumultuada, desde a estranha experiência que a deixara perturbada, sentindo-se como se Wolfgang, de alguma forma, ainda estivesse lá, dentro dela. Era assustador como aquelas memórias persistentes continuavam a assombrá-la.
A jovem respirou fundo, sentindo a tristeza tomar conta por não saber como lidar com tudo o que acontecera. O contato perdido, as sensações inexplicáveis... tudo isso estava deixando uma marca indelével em sua vida.
Parecia que a nova conexão com o animal interior dela palpitava. Mostrava sinal que estava mais presente.
Ela queria a próxima lua cheia. Queria poder ser livre de novo.
"Vai correr?", perguntou a tia, preocupada.
Lina suspirou.
"Preciso me desligar. Talvez gastar um pouco dessa energia toda", respondeu, tentando afastar os pensamentos invasivos que a atormentavam sobre um único homem.
"Poderia descansar, seu dia na casa dos Colin foi terrível", sugeriu Mary, tentando oferecer alguma alternativa.
"Mas não o suficiente pra acabar com a minha energia", Lina retrucou, determinada a encontrar uma maneira de se libertar da angústia que a consumia.
"Você é jovem. Isso é quase impossível", ela argumentou, tentando transmitir otimismo.
"Gosto de pensar o contrário, tia", respondeu Lina, enquanto calçava os tênis, pronta para enfrentar a corrida que se aproximava.
"Não está apenas não querendo pensar naquilo que houve na montanha?", a tia perguntou, com um olhar de preocupação nos olhos.
Lina hesitou por um momento. Era difícil admitir, mesmo para si mesma, a perturbação que a experiência na montanha havia causado. No entanto, ela sabia que precisava lidar com aquilo de alguma forma.
"É mais do que isso, tia. É como se algo tivesse mudado dentro de mim naquela noite. Não sei como explicar."
Com o coração apertado, ela abriu a porta e saiu para a rua. Começou a correr, deixando para trás o peso das emoções confusas que a assolavam.
Mary, recostada de frente para a mesa vazia, soltou um suspiro profundo. Anos a fio trabalhando como empregada para famílias proeminentes dentro da matilha haviam moldado sua trajetória. Agora, ficara sozinha e se pegou refletindo sobre seu propósito, especialmente em relação a Lina, a jovem sob sua proteção.
Desejava ardentemente poder oferecer algo significativo para a vida da garota. Contudo, a escassez de recursos e a realidade de serem duas mulheres solitárias limitavam suas opções. Lina crescia, ganhando habilidades para lidar com suas emoções e responsabilidades, mas Mary se inquietava com a negação que a garota demonstrava em relação aos eventos passados.
A possibilidade de Lina ser uma escolhida para um alfa cruzou a mente de Mary. Seria essa a oportunidade que ela precisava? Uma chance de reencontrar alguém que claramente mexera com a jovem: Wolfgang.
Wolfgang era conhecido por sua fama dual, ora perverso e passivo, ora autoritário e sociável. Ele carregava o encargo de guiar a matilha, uma missão que ultrapassava o simples dever de manter o segredo do mundo sobrenatural. Era alguém que despertava pensamentos e reflexões.
A coincidência de Lina ter cruzado caminho com Wolfgang logo na primeira noite não escapava à percepção de Mary. No entanto, a jovem não demonstrara interesse em procurá-lo, talvez acreditando que não era seu papel.
Percebendo a autoimagem inferior que Lina mantinha, Mary ponderava sobre a difícil posição social que elas ocupavam na matilha. Considerou, por um instante, a ideia de abordar o alfa, mas questionou a própria capacidade de influenciar a situação. O que ela diria? Decidiu, então, conceder tempo para Lina e, se fosse o destino, a garota encontraria o alfa.
A crença no poder da lua, capaz de escolher independentemente de quem fosse a receptora da escolha, ecoava nos pensamentos de Mary. Era uma noção poderosa, que transcendia as limitações impostas pelas circunstâncias sociais e, possivelmente, conduziria Lina em direção a seu próprio destino.
"Que a mãe lua guie o caminho da minha menina."
Ela escutou batidas na porta e se mexeu, pensando que poderia ser Lina, mas foi surpreendida por uma figura feminina parada diante dela.
"Olá, Mary", saudou a visitante.
Surpresa, Mary recuou ligeiramente.
"Senhora Eliza, o que faz aqui?"
Era evidente para Mary que um carro escuro estava estacionado um pouco mais adiante na rua. A área residencial era composta por casas espaçadas, separadas por cercas, e a noite escura já havia se estabelecido. Passava das oito e a maioria das pessoas já deveria estar em casa descansando ou, possivelmente, ainda trabalhando.
Eliza, trajando um casaco que se misturava à escuridão da noite, projetava uma figura elegante e imponente. Era clara a importância do encontro, e Mary sabia que apenas Eliza poderia resolver o que quer que fosse.
"Precisava falar com você, Mary. Eu posso entrar?", inquiriu Eliza.
A hesitação pairava sobre Mary. Eliza pertencia a um círculo social que contrastava bastante com a vida modesta e simples de Mary e Lina. No entanto, ciente da importância do momento e da possibilidade de Eliza estar ali em nome de questões cruciais, Mary se recompôs e fez um gesto para que a visitante entrasse.
"Sim, claro. Por favor, entre."
Mary abriu a porta, permitindo que Eliza adentrasse a casa. A sala modesta, com poucos móveis e detalhes pessoais, contrastava com a elegância natural da recém-chegada. Eliza, com sua postura refinada, adentrou com confiança e se acomodou em uma das cadeiras disponíveis.
Mary fechou a porta e se aproximou, oferecendo a Eliza um assento.
"Posso lhe oferecer algo para beber?"
Eliza recusou com um sutil aceno de cabeça. "Obrigada, Mary, estou bem."
A atmosfera da sala parecia carregada de mistério e seriedade. Mary esperava ansiosamente para descobrir o propósito da inesperada visita de Eliza, ciente de que essa reunião poderia trazer mudanças significativas para suas vidas.
"O que traz a senhora aqui?"
Eliza respondeu com seriedade: "Eu acabei pensando muito no que me disse sobre Lina, sobre ela não ser sua filha."
Mary se aproximou do assento e se sentou, estudando atentamente o rosto da mulher.
"Sim."
"Fiquei intrigada", expressou Eliza, com curiosidade evidente em suas palavras.
"O que gostaria de saber?", indagou Mary, percebendo o rumo da conversa.
Eliza fitou Mary por um momento antes de começar.
"Como foi?"
A memória daquela noite parecia ganhar vida dentro de Mary.
"Encontrei ela na beira de uma estrada, estava enrolada em uma manta e dentro de uma caixa. Acho que deixaram ela à própria sorte."
"Como podem abandonar uma bebezinha?", murmurou Eliza, fingindo um tom de indignação que, para Mary, soou c***l e perverso. Mesmo sentindo a energia negativa, Mary optou por não comentar.
"Eu também não faço ideia, senhora, mas ela cresceu e se tornou essa pessoa incrível. Ela é uma garota de ouro", enfatizou Mary, com orgulho perceptível em suas palavras.
"É verdade que ela se transforma, não é?", continuou Eliza. "Isso é ótimo pra família de vocês. Ela pode conseguir um casamento incrível e digno."
"Sim, faz poucos dias que ela completou a idade e conseguiu. Sentiu-se incrível", respondeu Mary, recordando a recente celebração.
"Observei ela trabalhando. Devo admitir, ela é uma menina graciosa. Jovem e bonita. Deve ter algum pretendente, não é?", indagou Eliza, buscando mais detalhes sobre a vida pessoal de Lina. Algo que pudesse dizer se ela era mesmo a mulher que o alfa começava a procurar de forma insessante.
"Não, senhora. Ela sempre foi reservada. Agora que está lidando com as questões do coração", revelou Mary, transmitindo a recente jornada emocional da jovem.
A conversa entre Mary e Eliza revelava camadas de interesse e uma intriga palpável. Enquanto Mary partilhava a história de Lina, o olhar de Eliza parecia vasculhar por entre as entrelinhas em busca de mais informações. Aquela noite inesperada trouxe à tona a oportunidade de revelar segredos e conhecimentos que, até então, permaneciam ocultos, prontos para desvendar um futuro incerto para Lina.
No silêncio tenso que se estabelecera na sala, Eliza quebrou o peso do momento: "Não sabe quem são os pais dela, Mary?"
O tom da pergunta provocou um desconforto imediato em Mary. Aquela não era a Eliza autoritária e intimidadora, e isso a perturbou. Por que a mulher estava sendo tão cortês e tranquila naquele momento?
Determinada a esclarecer as dúvidas de Eliza, Mary se levantou. "Me deixe mostrar."
Caminhou até o quarto de Lina, voltando com uma caixa que guardava com zelo especial. Era a caixa que continha a manta na qual Lina fora encontrada, juntamente com uma pequena corrente de ouro puro, ornada por um broche de uma flor de Lis de cristal. Com cuidado, Mary depositou a caixa sobre o sofá e a abriu diante de Eliza.
Eliza se aproximou, reconhecendo a manta que estava cuidadosamente guardada dentro da caixa. No entanto, foi o colar que provocou uma reação imediata. Ao avistar a pequena corrente de ouro e o broche de cristal, Eliza teve uma revelação súbita e inegável: Lina era, de fato, filha de Elizabete, a matriarca da família Colin.
As peças do quebra-cabeça se encaixaram na mente de Eliza enquanto ela encarava o colar. A manta e o colar eram as provas tangíveis da identidade e da origem de Lina, revelando uma conexão indiscutível com a família Colin.
O impacto da descoberta ecoou na sala, tornando o ar pesado de significado. Mary e Eliza se entreolharam, cada uma processando a enormidade da revelação. O silêncio preenchia o espaço, carregado de uma mistura de emoções: surpresa, confirmação e um potencial redirecionamento de destinos.
Aquela revelação tinha o poder de mudar muitas coisas. O passado de Lina, até então um enigma, começava a ganhar contornos claros e redefiniria seu futuro de maneira inimaginável. A descoberta da verdadeira linhagem de Lina poderia alterar não apenas sua própria vida, mas também o equilíbrio e a dinâmica da família Colin.
Uma dinâmica que Eliza seria punida pela maldade que fez.
Ela não iria permitir.
"Alguém mais sabe dessas coisas e da história dela?"
"Não temos tempo de falar muito sobre onde saímos senhoras. Mas, né desculpa, por que parece tão interessada?"
Ela ficou de pé, naquele momento ela soube o que devia fazer e não pensou dia vezes em puxar a pequena adaga que usava dentro da bolsa e esconder na manga do casaco.
Ela pensou no que faria, mas ela sabia que teria que dar fim naquilo tudo.
Era questão de sobreviver.
"Eu só estava curiosa. Não é sempre que vemos uma história assim."
"Lina um dia vai atrás dos pais dela. Mas ela ainda não está pronta. Espero um dia que ela saiba quem são os pais de verdade dela."
Mary fechou a caixa e antes que pudesse fechá-la e levar de volta para o quarto, Eliza acertou ela com a lâmina. O corte embaixo do seio e a mão afundando a carne.
Mary abriu a boca e foi dando suspiros assustados e de dor que irradiava da pele.
"Eu gostaria de dizer que sinto muito. Mas eu preciso terminar o que eu comecei."
"Você... Você..."
Eliza tirou a lâmina e no impulso mais animal que havia dentro dela, da maldade e crueldade. Ela enfiou mais quatro vezes, uma pegou no pescoço da senhora de meia idade.
Mary lembrou do marido que já era falecido, mas lembrou da jovem Lina. Da felicidade que aquelas duas pessoas tiveram na vida dela.
Ela deu dois passos para trás antes de cair no sofá sentada, tentou cobrir o corte perto do pescoço. Ela se engasgou no próprio sangue, então suspirou profundamente e engoliu o sopro da vida.
Mary estava morta.
Eliza guardou a lâmina e pegou a caixa, apenas saiu dali, sem deixar nenhum vestígio.
Faltava achar apenas livrar-se de Lina.