O renascimento

1018 Palavras
Eu sempre acreditei que as coisas aconteciam por algum motivo pré-determinado em nosso nascimento, mas me recusava acreditar que o meu karma era tão negativo. Eu cheguei em casa e Danilo ainda estava desmaiado na cama, eu engoli um pouco de água com alguns analgésicos para que a dor se dissipasse aos poucos. O que eu faria á partir dali? Eu deveria ir embora na madrugada? Deveria esperar o outro dia? A verdade é que o meu coração estava pulando dentro do peito. A voz do estranho estava ecoando em meus ouvidos: SAIA DESSA SITUAÇÃO. Mas toda a coragem foi saindo de dentro de mim, como se processe fugir do meu corpo frágil. Eu parei na frente do quarto e fiquei observando aquele porco dormir por alguns minutos, eu temia que ele acordasse no momento da minha fuga. Me olhei por um tempo no espelho, os ferimentos que nunca saravam por completo porque sempre era substituídos por novos. A minha figura no reflexo me deixou nervosa, um tipo de nervosismo diferente, era quase uma inquietação. Eu não podia continuar naquele lugar, eu não pertencia àquele apartamento, eu não pertencia ao Danilo. Eu peguei algumas mudas de roupa e enfiei em uma mochila velha, engoli um pouco de café frio, peguei a sacola de remédios que mais me serviram para um lembrete do estranho e gentil homem que me ajudou. Eu dei uma olhada naquele maldito apartamento antes de sair, as luzes apagadas o deixavam ainda mais assustador, era como se aquele lugar fosse feito de caos. Assim que eu fechei a porta atrás de mim eu senti um vento, eu não sei de onde ele veio, mas ele bateu no meu rosto de uma vez, era como um aviso. Eu senti o meu corpo todo ficando gelado, mas eu não ia retornar, se ele acordasse e me visse com uma mochila o meu destino seria ainda pior do que a morte. Eu desci as escadas com medo de ser pega no elevador, eu corri o máximo que consegui pela rua lateral, eu não sabia para onde eu ia, eu só sabia que com o dinheiro que eu tinha na conta eu conseguiria uma hospedaria fora daquela cidade, fora do alcance de Danilo, fora da vista de todos que me conheciam e fingiam não ver as marcas que Danilo deixava no meu corpo e no e na minha alma. Mas eu imaginava que era mais como um estigma, como diria a minha escritora favorita: Todos os que podiam ver fugiriam com horror. Eu finalmente cheguei a rodoviária, escolhi qualquer destino, eu não me importei muito com o que seria, eu só precisava respirar um ar diferente daquele. Me sentei no ônibus e ao meu lado sentou uma mulher alta, morena com a postura de uma mulher que eu gostaria de ser, ela me olhou e ofereceu um sorriso afetuoso. Eu sorri de volta, mas logo me virei para a janela. O meu celular começou a dar sinais de Danilo, não parava de tocar e eu sabiamente ignorei as chamadas. - O que houve? Um ex alucinado em você? – Disse a mulher com uma voz firme. - Mais ou menos isso.... – Eu disse sem fixar muito o olhar nela. - Bom, ele tem razão... Você é linda. Mas deve ser um cuzão, você faz bem de não atender, foi ele que fez isso com você? – Ela disse sem rodeios. Eu que estava cansada o suficiente de me esconder, olhei nos olhos dela com uma coragem que eu não havia encontrado nos últimos anos e sem nem conhecer aquela mulher estranha eu me abri para ela. - Ele fez isso sim, por isso agora estou em um ônibus para um lugar que eu nunca fui, sem saber onde vou morar ou o que vou comer... Eu só senti que se eu ficasse não ia ter chance de permanecer viva – As malditas lágrimas surgiram novamente, elas eram inevitáveis. - Você está indo para São Paulo sem conhecer ninguém? Não tem nenhuma família conhecida? – Ela disse me medindo com os olhos. - Sim, eu preciso ir para o mais longe que eu conseguir. E me disseram que é fácil conseguir um emprego por lá. - Você ia me chamar de maluca se eu oferecesse a você um lugar para ficar? Eu sei lá, estou vendo você machucada desse jeito, eu não posso deixar você desamparada. - Eu não sei... Não quero dar trabalho – Eu já tinha conseguido muita caridade para uma noite só, mas a ideia de estar sozinha me assustava mais que o orgulho. - Não é trabalho, tem algo me dizendo que eu devo fazer isso... Você pode ficar só por um tempo, até se arranjar, o que você acha? - Eu não tenho muitas opções... Olha... muito obrigada... qual é o seu nome? - Como é o seu nome? – ela devolveu a pergunta sem responder. - Eu me chamo Pandora – falei sem pensar. - Pandora, que nome enigmático... O meu nome é Viviane Pandora, eu tenho a impressão de que seremos boas amigas. Viviane me ofereceu a mão para eu apertar, colocou os fones de ouvido como se não tivesse acabado de convidar uma estranha para o seu próprio lar, ela me ofereceu um sorriso e logo depois um sanduíche, que eu aceitei no mesmo momento. Viviane parou por alguns segundos e disse: - Desliga a localização do seu celular, evita que esse louco te ache! Eu era tão vítima da situação que eu nem cheguei a pensar nisso, era como se qualquer instinto de proteção tivesse sido arrancado do meu corpo a força. Eu desliguei a localização do celular e finalmente olhei pela janela novamente, eu estava com medo, mas eu fui com medo mesmo. Eu não sabia o motivo naquele momento, mas conhecer Viviane mudaria o rumo da minha vida para sempre. Mas naquele momento eu me apeguei a minha inocência que eu mantive apesar de toda a minha história, ao menos, ao chegar em São Paulo eu ia ter um lugar para dormir onde ninguém me acordaria aos berros.
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