Eu finalmente cheguei a um pequeno apartamento, Viviane disse que ficava bem no centro e que eu deveria ter cuidado para entrar e sair. Ela sorria o tempo todo, era uma daquelas pessoas que quando conhecemos não conseguimos largar mais. Em volta dela só existia alegria e gentileza, falava sem parar sobre sua vida e sobre como tudo era difícil.
- Mi casa, su casa Pandora… seja bem-vinda ao seu lar! – Disse ela abrindo finalmente a porta.
- Obrigada mesmo Viviane, eu não sei como posso te agradecer.
- Não volta para o i****a que fez isso com seu rosto que já está de bom tamanho para mim! Pode ir se instalando, eu vou tomar um banho e logo depois eu venho falar com você.
Eu me sentei no sofá, comecei a remexer a minha pequena mochila. Eu estava exausta, mas me levantei para olhar em volta, olhei pela janela e a cidade que nunca dormia estava urgindo a minha volta o tempo todo. Entre buzinas, luzes e garotas na calçada de casa.
Viviane apareceu na minha frente nua como veio ao mundo, eu me virei constrangida e logo ela lançou a maior gargalhada do mundo.
- Amiga, não precisa virar só porque viu uma b****a e dois pares de p****s, você tem o mesmo que eu! – Ela riu
- Acabamos de nos conhecer, não queria ser... indelicada.
- Eu preciso abrir o jogo com você ok? Eu sou garota de programa... Então, eu ganho minha grana para manter tudo isso balançando bastante esses s***s e essa bunda... – Ela tinha o talento de dizer os maiores absurdos do mundo de um jeito tão cômico que além de me fazer corar me fez rir – Algum problema com isso colega?
- Eu não tenho nenhum problema com nada, era obrigada a t*****r de graça com um i****a! – Eu disse com um sorriso amargo.
- Amiga, eu realmente sinto muito... Vamos ter tempo o suficiente de conversar sobre isso. Eu preciso dormir um pouco, vou trabalhar mais tarde, você se importa em só se virar? Tem comida na geladeira, umas cervejas, tem comida nos armários também, enfim sinta-se em casa.
Ela logo sumiu no corredor, assim que eu ouvi a porta bater eu respirei fundo, eu estava em um mundo totalmente novo e ele era assustador.
O meu celular explodiu de mensagens das mais diversas, os xingamentos estavam em alta, humilhação e todo o tipo de gritos através de áudios. Eu ignorei, onde eu estava ele não podia me tocar. Ele não podia me alcançar de jeito nenhum, então tudo o que fiz foi me deitar no sofá, elétrica ainda com todos os acontecimentos, fiquei olhando para o teto sem conseguir pregar o olho nem por um segundo.
A imagem do tal Alex invadia a minha mente, de novo e de novo sem que eu conseguisse fazer sumir da minha mente, mesmo que por alguns segundos.
Eu quase conseguia ouvir a voz dele nos meus ouvidos.
Horas depois o apartamento estava mais agitado, Viviane estava se arrumando, ouvindo músicas e tomando um vinho. Eu até aceitei, na situação atual, aquilo não faria m*l.
Logo ela saiu para trabalhar, me deixando sozinha com os meus pensamentos, que eram perigosos.
Eu olhei para o celular novamente. Mais mensagens. Mais ameaçadas.
Desliguei a tela e respirei fundo por um segundo.
Um pensamento me atingiu como um raio:
Existia um lugar onde ele não pudesse me alcançar?
Eu me levantei, fui até a janela. Lá embaixo a cidade pulsava, carros, luzes, gente indo e vindo como se nada no mundo fosse capaz de parar aquela dança.
Eu me senti pequena. Invisível.
E então, uma ideia surgiu.
Viviane tinha me deixado o endereço da tal boate, pensei em me arrumar e aparecer lá. Ficar sozinha era pior do que qualquer coisa no mundo, com nada além dos meus pensamentos os fantasmas de Alex me assombrando e o olhar constante de Alex que parecia me perseguir em todos os cômodos.
Eu abri o armário de Viviane, eu esperava que ela me perdoasse pela invasão – Os vestidos eram justos, cheios de brilhos e cores vibrantes. Não tinha nada a ver com o meu estilo.
Eu peguei um vestido preto curto, meias-calças que achei no fundo da gaveta, um par de botas de salto que mais pareciam armas.
No banheiro, me olhei no espelho. O rosto ainda estava marcado.
- Quem é você agora, Nicole? -
Eu pintei os lábios de vermelho, passei sombra escura. Quando terminei, quase não me reconheci.
Eu saí do apartamento com o coração acelerado. A noite estava quente, o ar carregado de energia. Eu segui as direções que Viviane tinha mencionado antes, até chegar em frente a um prédio iluminado por neon rosa.
A fila era longa, mulheres e homens bem-vestidos aguardando para entrar. Não me parecia inteligente usar o dinheiro que ganhei para entrar em uma boate, mas foi o que eu fiz.
- Oi, eu sou amiga da Viviane... eu vim aqui para vê-la – Falei tentando soar confiante.
Ele me avaliou de cima a baixo, os olhos parando nos meus ferimentos por um segundo.
- E você é? – Disse ele.
- Eu sou Pandora, uma amiga... Ela está me esperando.
Ele hesitou um pouco, mas então acenou com a cabeça.
- Entra, ela está no segundo corredor a direita...
O som me atingiu como um soco – Batidas, vozes, risadas, luzes piscantes cortavam a escuridão, revelando corpos se movendo, se tocando se perdendo.
Eu me senti um pouco deslocada, mas também... Viva.
E então a vi, não dei tempo de chegar no corredor indicado.
Viviane estava no palco, dançando em volta de um poste, seus cabelos balançavam como um véu de seda. Ela sorria, mas não era o mesmo sorriso leve de antes – era tudo calculado, performático.
Quando seus olhos pousaram em mim, a expressão dela mudou.
Me ofereceu um sorriso, terminou sua performance e desceu do palco rapidamente se aproximando de mim.
- Eu não te convidei porque achei que você não vinha... – Disse sorrindo, esfuziante e brilhando.
- Eu não aguentei ficar sozinha – Eu respondi.
Ela olhou ao redor, como se procurasse por perigos escondidos na multidão.
- Eu roubei umas roupas do seu armário, me perdoa!
- Ficou lindo em você, mas eu estou um pouco preocupada, esse não parece ser o lugar para uma menina inocente como você Pandora.
- Ei, eu não vou fazer programa, eu só vim me divertir um pouco. Eu juro...
Viviane suspirou, mas então o seu olhar suavizou um pouco.
- Só fica perto de mim ok?
Eu acenei com a cabeça.
E então em meio aquele turbilhão de coisas acontecendo, eu senti... alguém estava me observando.
Seria Danilo? O meu coração estava pulando do peito. Talvez uma mania horrível de perseguição, talvez não, eu só sabia que eu não ia voltar para aquela prisão.