Capítulo 2
~ Meu Pai Lembra ~
EU FINALMENTE FINALIZEI o capítulo que minha mãe havia interrompido. Mas só depois de toda a gritaria do grandão --meu pai. Chamo ele assim a alguns meses, pois o homem tem 1,95 de altura--, avisando que foi promovido. Jantamos e eles foram dar um passeio, para comemorar.
Enquanto eles estiveram fora, senti novamente aquela dor h******l, interna. E, por pouco, não deixei o livro de lado. Finalizei triunfantemente o capítulo, tendo em vista a minha dificuldade.
Tentei dormir, mas não consegui. Realmente era uma tarefa difícil. Então, fiquei ali, naquela cama, deitada, com os pensamentos deixando minha cabeça à mil.
*
Meus pais chegaram e surpreenderam-se ao verem que eu não estava na sala assistindo TV, o que eu faria em um dia normal, se estivesse bem.
Após ler à noite, eu sempre fazia isso. Mas desta vez, não.
Como eu tinha deixado a porta do meu quarto aberta, meu pai ficou encostado na entrada dela, achando que eu não o estava vendo-- é uma pena ele não lembrar que existe visão periférica.
--Eu estou te vendo, grandão -- eu disse a ele, mantendo o foco da minha visão no teto, como já estava antes de ele chegar.
Ele ficou mais alguns poucos segundos ali, em pé, sem me responder. Depois, foi até mim e perguntou:
--Você aprontou algo para estar aqui a essa hora?
--Não sou criança faz tempo, grandão. Só estou cansada -- respondi.
E realmente eu estava cansada, mas não era fisicamente.
Eu estava cansada de não estar bem e ter de ser forte o tempo todo; estava cansada de sentir dores internas horríveis, como lâminas afiadas em meu interior. Como se milhares delas --as lâminas-- estivessem percorrendo sobre meu eu interno, fazendo um grande estrago.
Só que eu não podia dizer isso ao meu pai. Na verdade, a ninguém.
Então, para disfarçar, fiquei ali, admirando a face dele. Aquele rosto de quem se preocupa, mas não quer jamais
preocupar o outro, sabe?
Fiquei por alguns minutos olhando o rosto que carrega consigo olhos castanhos, lábios grandes, sobrancelhas grossas e cabelos ondulados castanhos.
Ele deu um sorrisinho e me perguntou:
--Por que me olha tanto?
Então, respondi:
--Estou lembrando de nossas brincadeiras loucas, quando eu era criança. Lembra?
--Mas é claro!-- respondeu ele -- E quando brincamos de três por um? Houve trapaça, porque...
E ficamos ali por alguns minutos, lembrando de coisas passadas, sorrisos antigos, tempo que não volta mais...
Depois de algum tempo e, sem perceber, peguei no sono.