Ao entrar no escritório, ela percebeu que estava incomumente silencioso e franziu a testa ao ver a porta fechada da sala do chefe. Ele devia ter agendado uma reunião cedo, e se já estava lá dentro com a porta fechada, provavelmente não era algo relacionado ao trabalho. Normalmente, a porta ficava aberta e ele rosnava para que ela se apressasse e entrasse logo para começarem o dia.
Ela caminhou até sua mesa, jogou a bolsa na gaveta de baixo e ligou o computador. Jogando o casaco no cabide atrás da mesa, ela desfez o nó do cachecol e também o pendurou. Mas ao segurar o tecido por um instante, lembrou-se de que Hazel havia lhe dado aquele cachecol de presente de Natal alguns anos atrás. Respirou fundo e soltou o ar devagar.
"Você está bem?"
A pergunta repentina quase a fez saltar da pele, e ela soltou um grito antes de se virar. "Que diabos? Você me assustou! De onde você veio?" Ela olhou para trás de Nick e viu que a porta do escritório dele ainda estava fechada.
"Eu me atrasei um pouco esta manhã. Minha irmã ligou para avisar que está grávida de novo e meus pais insistiram em uma chamada em grupo. Eles estão algumas horas à frente no fuso horário, mas, na empolgação, esqueceram completamente disso."
"Você tem irmãs e pais?" A pergunta escapou antes que ela pudesse impedir.
"Duas irmãs mais novas, dois cunhados, uma sobrinha, um sobrinho e agora mais um bebê a caminho."
"Como eu não sabia disso depois de trabalhar tanto tempo para você?"
"A Santos é um negócio familiar, Grier. Você sabe que foi criada pela minha família. Estamos no mercado há mais de cem anos. Quando meus pais se aposentaram e voltaram para," ele fez uma pausa, "nossa cidade natal na Europa, minhas irmãs foram com eles. Eu cuido de tudo daqui, mas eles continuam ocupados por lá."
"Huh."
"Voltando à minha pergunta, você está bem? Você parecia triste por um momento."
"Oh. Só percebi quando estava pendurando," ela balançou a ponta do cachecol. "A Hazel me deu isso há alguns anos."
Ele apoiou o quadril na beirada da mesa. "Você vai sentir falta da amizade dela."
"Estou com tanta raiva dela. Normalmente, eu não sou uma pessoa raivosa. A vida é muito curta para isso, mas tudo o que eu quero agora é gritar e berrar com ela. Quero me vingar. Quero puni-la por ter sido tão cruel." Ela bateu o pé no chão. "Ela me encurralou lá embaixo quando eu estava chegando. Disse que tudo o que queria era fingir ser eu por um tempo e viver como eu vivo." Ela soltou uma risada amarga. "Que monte de besteira, hein?"
"Eu não sei." Nick deu de ombros. "Eu consigo entender de onde ela vem. Quer dizer, não a parte de t*****r com seu namorado na sua cama, mas a parte de querer ser você. Isso eu entendo."
"Você entende?"
"Sim. Olhe para você. Você está sempre impecável. É mais forte do que a maioria. Trabalha pra caramba e a confiança que você exala no que faz e na maneira como se movimenta deixa claro para todos que você não deve ser subestimada. Você é muito mais bonita do que ela, o que me deixa chocado por Arlo, seja lá qual for o sobrenome dele, ter sequer considerado enfiar o p*u nela quando já tinha você. Você é tudo o que aspirantes como ela sonham em ser. Ela tem inveja de você, da sua beleza e do seu sucesso, e por isso tenta roubar isso de você, pouco a pouco."
Ela tentou manter a boca fechada enquanto o chefe, que certa vez gritou com ela por respingá-lo com seu guarda-chuva molhado quando ele passou bem na sua frente enquanto ela o sacudia, agora a enchia de elogios. Ela olhou ao redor e depois para a câmera no canto da sala.
"Obrigada?" Será que estava sendo enganada?
"Agora, você mencionou que ela te encurralou lá embaixo. O que ela fez?"
"Ela queria conversar. Eu recusei, e quando percebeu que não estava mais convidada para passar o feriado comigo, teve um colapso e se jogou no chão. Ou…" Ela fez uma pausa. "Talvez tenha sido porque eu contei para ela o novo apelido que minha irmã deu para ela."
"O novo apelido da sua irmã?"
"Antes de você entrar no meu apartamento, eu ouvi ela dizendo para Arlo, hum…" Ela engoliu seco, sentindo as bochechas esquentarem. "Basicamente, para ele encher ela de, hum…" Ela não conseguiu dizer em voz alta na frente dele.
"Eu entendi."
"Bem, Twila criou um novo nome para ela, e eu compartilhei com ela. Hazel ficou devastada ao saber que minha família sabe o que ela fez."
"Ela mereceu."
"Ela pareceu achar que eu não deveria ter contado, porque minha família sempre a recebeu de braços abertos."
"Então ela não deveria ter traído a pessoa que a apresentou a eles," Nick disse com um dar de ombros. "As pessoas têm um lado bom e um lado r**m. Todos temos a capacidade de ser um ou outro. Ela escolheu ser r**m, e agora está pagando o preço. Azar o dela, mas precisa assumir a responsabilidade." Ele fez uma pausa, curioso. "Qual é o apelido que sua irmã deu para ela?"
"Balde de porra." Ela sussurrou, mordendo o lábio inferior.
Um longo silêncio se instalou entre eles enquanto a palavra suja pairava no ar.
Pela primeira vez desde que ela começou a trabalhar para ele, Nick Santos sorriu. Um sorriso largo e brilhante, exibindo os dentes, com duas covinhas enormes nas bochechas que transformaram completamente suas feições. Nem mesmo a barba de inverno, que ele sempre começava a cultivar em outubro, conseguiu escondê-las.
"Eu tive uma ideia horrível." Ele estava radiante enquanto pegava a mão dela e começava a puxá-la de volta para o saguão.
"Onde estamos indo?"
"Para Pesquisa e Desenvolvimento."
Grier tropeçava atrás do chefe, que nos últimos cinco anos nunca havia demonstrado nada nem remotamente parecido com um sorriso e agora estava radiante. "O que está acontecendo?"
"Meus pais me ligaram esse fim de semana. Na verdade, ligaram umas dez vezes. Eu consigo ignorar as ligações do meu pai, mas nunca as da minha mãe, porque além de ser a verdadeira rainha da nossa família, ela é mestre na manipulação emocional. Eles estavam me lembrando de todas as pegadinhas e merdas que eu fazia quando era criança. Eu dava um certo trabalho."
Ela inclinou a cabeça para trás, surpresa, enquanto as portas do elevador se fechavam, muito consciente de que ele ainda não tinha soltado sua mão. "Okay?" Ela arrastou a palavra.
"Um ano, no Natal, que aliás não é meu feriado favorito porque é sempre um inferno de correria e meus pais basicamente esqueciam que a gente existia," ele continuou falando como se fosse uma conversa normal entre eles, "eu fiz bengalas doces que tinham gosto de vômito e coloquei no estoque de todo mundo. Todo mundo."
"Você fazia bengalas doces quando era criança?"
"Querida, eu já puxava taffy quando m*l sabia segurar as coisas." Ele a arrastou pelo corredor assim que as portas do elevador se abriram e a puxou para dentro do laboratório de pesquisa. O espaço estava vazio, já que a maioria dos funcionários só chegava às oito e ainda não eram nem sete. "Meu pai mencionou aquela vez que um dos nossos concorrentes fez aqueles doces nojentos de lixo e disse que nem aquilo chegava perto dos meus pirulitos de vômito."
Ele pegou um jaleco, vestiu e jogou outro para ela.
"O que estamos fazendo?"
"Fazendo balde de p***a. Em vez de carvão este ano, a senhorita calças de traição Hazel vai ganhar baldes de porra."