Para o helicóptero- II

1234 Palavras
Barrett a ajudou a subir na máquina preta com o enorme emblema dourado nas portas. Ela deslizou para seu assento de sempre, colocou os fones de ouvido e se prendeu no cinto de segurança. Ele lançou um olhar na direção dela, deixando claro que entendia que esse voo seria turbulento – e não por causa do helicóptero. Nick estava em modo destruição e cabeças iriam rolar. Barrett deu a volta para ocupar seu assento habitual. Seus olhos voltaram para Nick, e ela franziu a testa, confusa. Em cinco anos, aquele homem raramente lhe dirigia um elogio. Mas, desde o começo da manhã, ele vinha reforçando a cada instante o quanto ela era valiosa, tanto como funcionária quanto como pessoa. Era estranho. Ela lançou um olhar discreto em sua direção, onde ele estava sentado agora, a voz soando em seu ouvido enquanto falava com Barrett, que assumira o assento de copiloto. Ele era um homem extremamente atraente. Mesmo com a barba cheia que começava a crescer no outono e ele sempre raspava na primavera – e apesar de ela nunca ter sido uma grande fã de pelos faciais –, ele ainda assim estava facilmente no top cinco dos homens mais bonitos que já conhecera. Com olhos grandes e azuis, covinhas duplas e lábios cheios, sendo o superior perfeitamente arqueado, ele era um homem sexy. Ele tinha um físico impecável, alto e esguio, e apesar das quantidades absurdas de doces que mantinha na boca o tempo todo, não havia um grama de gordura desnecessária em seu corpo – e ela tinha certeza disso. Já o vira sem camisa mais de uma vez, quando ele trocava de roupa entre reuniões da tarde e jantares noturnos. Também sabia que ele usava cuecas tipo briefs e não boxers, porque já encomendara sua marca favorita na Saks mais de uma vez. Sabia também o tamanho de suas calças e paletós. Ele não precisava de uma assistente pessoal, porque ela já acumulava esse papel, sendo a pobre alma forçada a lidar com suas tarefas particulares. Isso lhe dava uma visão muito íntima da vida dele. E, ainda assim, nunca o vira como nada além de seu chefe por um motivo simples: ele era um completo babaca. Todos os dias, nos últimos cinco anos trabalhando como assistente dele, ela considerava pedir demissão e se trancar no próprio apartamento para lamber as feridas. Até hoje. Hoje foi a primeira vez que ele sequer parecia humano, quanto mais gentil. Ela ainda estava tentando processar a situação inesperada em que se encontrava. Quando ele voltou ao seu modo arrogante e dominador por causa do problema na fábrica em Syracuse, ela se perguntou se, por acaso, tinha atravessado alguma nuvem de maconha no caminho para o trabalho e estava apenas chapada, sonhando com tudo aquilo. Ainda assim, ele acabara de lhe fazer outro elogio, e ela estava mais confusa do que nunca. Depois da merda de sexta-feira à noite com Arlo e Hazel, ele parecia dividido entre ser um ser humano decente e agir como o babaca habitual que sempre foi. A voz dele soou em seus fones de ouvido. "Grier, quando chegarmos à fábrica, quero que você se instale na sala de reuniões. Tenho a confirmação da investigação do Barrett de que foi sabotagem no equipamento de embalagem, ligada a um cara que foi demitido na semana passada por justa causa. Eu já sei como ele conseguiu entrar no prédio de novo, mas quero entender como diabos esses idiotas não perceberam ou por que acharam que não precisavam reportar isso. Eu não pago um GM seis dígitos para deixar esse tipo de merda passar." "Por que ele foi demitido? O seu sabotador?" "Pegaram ele dormindo debaixo de um equipamento em três ocasiões diferentes. Ele trabalhava no turno da noite. Recebeu uma advertência verbal, depois uma por escrito e foi demitido na terceira infração. Isso aconteceu ao longo de seis meses. A gerência o demitiu, e ele mereceu. Não tenho problema com a decisão deles. É por isso que a fábrica tem seu próprio departamento de RH." "Como ele conseguiu entrar no prédio?" "Ele é irmão do supervisor de turno. Roubou o crachá do irmão, entrou, enfiou algumas chaves inglesas na máquina. A p***a da fábrica inteira poderia ter explodido. Vamos processá-lo porque temos ele gravado nas câmeras de segurança em três pontos diferentes. Ele evitou a maioria das câmeras, mas não sabia que fizemos um upgrade no sistema no mês passado. Não foi anunciado para a fábrica inteira, e só algumas pessoas sabiam disso." "Você vai demitir o irmão dele?" "Depende de como essa reunião vai acontecer. Ele foi contratado depois do sabotador e, por meio de trabalho árduo e dedicação, subiu rapidamente de cargo por mérito. Isso me diz que os irmãos são completamente diferentes. É possível que o sabotador esteja puto porque o irmão ainda trabalha para nós. O que eu quero de você nessa reunião é que observe. Seremos seis contra três," ele acenou para Barrett. "Você fica de olho no GM e no gerente da fábrica. Eu vou observar o supervisor da fábrica e o supervisor da linha. Barrett vai ficar de olho no supervisor de turno e no representante do RH. Um deles está mentindo descaradamente. Eles sabem de algo, mas não estão abrindo a boca. Enquanto estivermos com a equipe de gerenciamento, a polícia local vai prender o nosso sabotador, como você o chamou, e levá-lo para a delegacia. Alguém se machucou hoje por causa da merda que ele fez, e eu quero que tentem adicionar tentativa de homicídio à lista de crimes corporativos." "Quer que eu grave toda a reunião e deixe isso visível ou esconda o que estou fazendo?" "Grave e deixe visível. Vamos fazer esses desgraçados suarem. Se acharem que estou suspeitando de todos, um deles vai acabar se entregando." "Dez dias antes do Natal. O que esse cara esperava ganhar? Por que agora?" "Como eu disse, ele foi demitido na semana passada. Trinta e dois anos, não um adolescente que não sabia o que estava fazendo. Uma das chaves inglesas que ele jogou na máquina voou para fora e atingiu um funcionário na cabeça." Ela já sabia disso. Tinha lido o relatório. "Ele precisou levar quatorze pontos e está com uma concussão. Vamos fazer um acordo extrajudicial, mas eu quero que esse cara seja responsabilizado. Se ele não puder pagar os custos que estamos cobrindo para o funcionário, ele vai para a cadeia por tentativa de homicídio culposo. Nem por um segundo eu acredito que ele não sabia que alguém poderia se machucar com as ações dele. Tenho um funcionário na UTI. Eu quero a cabeça desse desgraçado em uma estaca." Ela ficou em silêncio, olhando para as cidades que passavam abaixo deles. "O que você está pensando, Grier?" "Estou pensando que estou contando os minutos para as minhas férias na pequena Coldreach, porque essa merda é um saco." O silêncio dele a fez se perguntar se ele estava irritado ou puto com o comentário, mas, a essa altura, ela não se importava mais. Os últimos três dias tinham sido mais do que ela queria lidar. Olhando para o relógio, ela programou um cronômetro para fazer a contagem regressiva até o horário do seu voo para casa. Tudo o que queria agora era fugir da cidade grande e estar na cozinha da mãe, tomando chocolate quente e esquecendo dessa bagunça de crimes e caos.
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