Kiara narrando
Acordo mais um dia pra minha vidinha mais ou menos. Reclamo um pouco e tento me policiar quanto a isso, quero ser mais grata e reclamar mesmo, pois sou grata a Deus mesmo com todas as dificuldades.
A minha mãe foi embora quando eu era muito nova, uma bebezinha, eu nem mesmo me lembro dela. A vida no morro não era para ela, então ela sumiu no mundo sem olhar para trás, mas fui criada com muito amor pelo meu pai.
Muitos anos depois ele conheceu a Cida e se casaram. Ela não nunca foi muito carinhosa e nem nada, convivemos cada uma na sua, embora na frente do meu pai ela se esforçava um pouco.
Infelizmente há dois anos e meio, bem nas vésperas do meu aniversário de 15 anos o meu pai faleceu. Parece que ele já estava doente há algum tempo mas preferiu não dizer nada.
E assim ficamos Cida e eu na minha casa. Gostaria de dizer que na mesma convivência pacífica, mas infelizmente não tenho como. A cada dia que passa fica pior. Ela ficou amarga com a morte do meu pai, além de grossa e ignorante.
Sempre jogando na minha cara ‘ter que terminar de me criar’. Mas ela não faz um nada pra mim e eu nem quero. Eu cuido da minha comida, da minha roupa. Eu trabalho desde então na loja do pai da Mel, que é uma amiga minha um pouquinho mais velha que eu. Ela já terminou o ensino médio e eu termino o meu no fim desse ano e em seguida já completo a maior idade, ufa.
Acho que esse vai ser o primeiro aniversário que eu vou comemorar, os últimos três sempre foram tristes. Mas esse eu vou ficar feliz, pois a guarda dela sobre mim termina e aí eu posso sumir no mundo também.
Mas não é nem tanto o jeito e a ignorância da Cida que me preocupa e sim o fato dela claramente estar usando alguma d r o g a. E não é maconha nem nada assim não, se fosse era o de menos. Essa mulher está no pó ou na pedra, com certeza, e eu morro de medo dela ter um surto comigo em casa.
Graças a Deus eu chego em casa depois de mais um dia de trabalho na loja, que hoje foi tranquilo, o bicho pega mais perto do fim de semana que o movimento fica legal mesmo. Eu sigo direto pra tomar banho para ir para escola, deixo até pra comer na escola mesmo, ou se der tempo passar na padaria que a Ju agora está trabalhando. E como trabalho de dia, estudo à noite.
Eu não vejo a hora de acabar esse último ano da escola. E não porque eu não goste de estudar não, eu gosto, quero até fazer um técnico ou quem sabe uma faculdade depois, mas sim porque assim vou estar mais perto da minha liberdade.
Eu sempre fui vaidosa, mas com a morte do meu pai, por muito tempo eu me descuidei. Mas depois que consegui o meu trabalho eu voltei a cuidar de mim. No momento tô sem tempo pra treinar, mas os bons genes me ajudam, além da corridinha matinal que eu faço de manhã cedinho.
Sou magrinha, cintura fina, quadril mais largo com a b u n d a não tão grande, mas redondinha, s e i o s pequenos. Cabelo até o meio das costas liso e loiro, que eu p i n t o porque o meu cabelo é até claro, mas não tanto. Olhos verdes, nariz fino, a sobrancelha arqueada e bem feita, a boca naturalmente rosada, unhas grandes naturais. Não sou muito alta, 1 metro e 65 centímetros, mas para mim está ótimo.
Toda essa aparência rende muito assovios e elogios pelo morro, alguns até bem descabidos, mas eu ignoro, principalmente de vapor, tô fugindo de ter o meu nome na boca do povo.
Já dei uns beijinhos nuns gatinhos na escola e tá bom demais, não tô querendo relacionamento, não quero me apegar. E também não quero apressar nenhuma vivência. Tô tranquila assim me conhecendo aos poucos.
Coloco um cropped faixa branco e uma calça jeans clara bem justa e um tênis all star preto e logo tô na escola. Tenho duas provas, geografia e matemática que eu me viro, mas não sou tão boa. O tempo de aula hoje passou rápido e o sinal da saída já está tocando.
Kiara: - Vamos amiga. Quer comer um lanche? – chamo a Ju enquanto juntamos o nosso material
Julia: - Hum, pode ser. Tô cansada da padaria, mas tô com fome.
A gente sai da escola e seguimos para uma lanchonete que fica no meio do caminho entre a escola e as nossas casas, amo um x salada.
Kiara: - Agora eles passam direto por aqui, já reparou? – digo vendo o dono do morro e o sub dele passando de moto pela lanchonete e estavam perto da escola quando saímos também.
Julia: - E dá pra não reparar amiga? – ela diz se abanando.
Kiara: - Deixa de ser s a f a d a, Ju. Tu não tem medo?
Julia: - Tenho ué. Mas tô quietinha na minha só admirando, porque não dá pra negar né, os dois são muito bonitos. - a gente conversa enquanto come
Kiara: - É. Até que são. – digo simples, mas pensando que são mesmo, o dono é praticamente um deus grego, mas o seu jeito me dá medo e me arrepia até o último fio de cabelo. O sub até parece mais de boa, mas tá sempre de cara fechada. O gerente eu conheço um pouco e até sou simpática com ele que vai sempre na loja, ele parece muito legal, mas se tratando do movimento eu não sei. – Vamos embora vai. – Ela concorda e a gente paga os lanches e vamos para casa.
A casa da Ju chega primeiro e eu termino o meu percurso sozinha, são poucas ruas de distância e de um tempo pra cá eu me sinto sendo vigiada. O engraçado é que eu sinto isso de forma protetora, será que é meu pai? Antes eu praticamente corria as ruas até em casa, mesmo o Urso tendo regras rígidas e que ele cobra, dos moradores e frequentadores do morro, com afinco, eu não confio. Mas hoje eu consigo andar mais tranquila.
Acordo pra mais um dia da minha rotina, mas hoje é sábado e tem baile, a loja lota, inclusive o dono, o sub e o gerente que tá doidinho na Mel, passam na loja. Urso com aquela arrogância dele de sempre.
Tô exausta quando a Mel chega pra gente fechar e loja.
Melissa: - Desculpa a demora bebê, me empolguei no salão.
Kiara: - Mulher, tu cortou o cabelo! – me admiro
Melissa: - Ficou massa né. – ela sorri se olhando no espelho
Kiara: - Queria essa coragem.
Melissa: - Ahhh não, Kiara! Você combina muito com esse cabelão. – ela n e g a com a cabeça – Pariu baile hoje?
Kiara: - Tá doida é?
Melissa: - Ah para Kiara. Tá na hora, já já cê faz 18, tá tudo certo. A tua madrasta chapada nem vai reparar pra poder embaçar na tua. – ela diz como se isso fosse bom - Chama a Júlia e vamos as três juntinhas rebolar muito.
Eu fico pensativa. O pessoal da escola sempre vai e eu nunca vou. Até a Ju já foi algumas vezes. Ando muito querendo ir conhecer, querendo viver mais a minha vida e não só trabalhar e estudar.
Kiara: - Tá bom. Eu vou. Vou ligar pra Ju. - digo depois de pensar um pouco
Ligo pra Júlia que grita feliz na ligação que eu até afasto o celular da minha orelha pra não ficar surda e a Mel dá risada.
Melissa: - Isso aí. Eu passo na sua casa com o carro do meu pai. Mas não vou buzinar, vou te mandar uma mensagem. Agora bora que já estamos atrasadas.
A gente termina de fechar e vamos embora. Dia de baile a loja fecha praticamente 22h, então não podemos demorar se não chegamos muito tarde lá.
Já em casa, no meu quarto de banho tomado faço uma make rápida, deixando os olhos marcados e na boca só um brilho labial realçando a cor natural da minha boca. Faço algumas ondas no meu cabelo e pra vestir escolho um body de alça fina, em renda rosa bebê, decote profundo, costas n u a s, e um short branco de alfaiataria com detalhes de babados no contorno do bolso e na barra. Apesar do decote e do tamanho do shorts, não tá nada indecente, está tudo nos tamanhos ideais.
Nós pés opto por uma sandália de tiras simples branca de salto quadrado, não muito alta. Meu celular toca e vejo a mensagem da Mel, pego a minha bolsinha com o essencial e saio de casa sem fazer barulho. Entro no carro e passamos pra pegar a Ju.
Julia: - Partiu baile. Vamos arrasar. – diz animada entrando no carro e eu tô é com o coração acelerado. A Mel também sorri anima e eu também me animo.
Logo que a gente entra no baile pegamos uma caipirinha no bar e eu peço a minha o mais fraca possível. A gente segue bem pro meio da pista que está bem cheia e começando a dançar, rindo e bebendo.
O DJ toca só as melhores do funk e assim a gente rebola muito até o chão fazendo quadradinho e tudo, nem acredito que tô me soltando assim. Vejo o Hugo vindo na minha direção, um menino da escola, um ano mais velho que eu, ele se formou no ano passado, um gatinho.
Hugo: - Oi linda. Tu por aqui? – diz admirado
Kiara: - Pois é. – sorrio. A gente fica conversando ao pé do ouvido e dançando até que sem eu esperar ele põe a mão por dentro do meu cabelo e puxa para ele, juntando sua boca na minha. Sua língua pede passagem e eu em dúvida permito. Damos um beijo até que gostoso, mas eu fico sem graça.
Olho para o lado e tá o Ninja com uma cara estranha trocando ideia com a Mel.
Kiara: - Que foi? – pergunto pra Ju
Julia: - Veio chamar a gente pra subir. – ela diz simples mas eu estranho e a Mel se aproxima. Ela adora essas investidas lerdas do Ninja, dá pra ver.
Kiara: - Vão vocês. – digo tranquila, porque sei que ela quer subir. A Mel vai até ele de volta e eu vejo o Ninja trocando mensagens, me dá vontade de olhar pro camarote mas eu me contenho.
Ninja: - Aí, é pra subir as três. – ele se aproxima e diz sem graça. – E só as três. – eu olho pro Hugo que está com o semblante tranquilo.
Kiara: - Por que? – pergunto já um pouco alterada.
Ninja: - Me ajuda aí, Kiara. – diz impaciente
Hugo: - Vai lá, depois nois se tromba. – ele fala de boa
Kiara: - Tá bom. – eu sorrio sem graça
Hugo: - Põe seu número aqui. – ele me entrega o seu celular desbloqueado e eu coloco o meu número, quando entrego o celular dele arrisco uma olhadinha para o camarote e vejo o Urso e o Marrento na grade com as caras de sempre.
Dou um beijo na bochecha do Hugo e sigo com as meninas e o Ninja, e então subimos.