Capítulo 1

2537 Palavras
Deixei as armas caírem pelo carpete da sala, e me sentei no sofá esperando alguma resposta divina para o que eu estava sentindo. Já fazia anos que "trabalhava" com assaltos e homicídio, era quase involuntário, mas quando eu vi o corpo morto daquela mulher, foi como se um raio dos céus caísse sobre mim - talvez um pouco menos - a imagem não saia da minha mente, e o grito do homem atrás do carro em um "não!" tão profundo que quase pude ver a alma rasgada dele. Ele não se importou se eu iria dar ré e matá-lo, ele simplesmente foi até o cadáver e começou a chorar pela esposa e pelo filho. Culpa... caramba! Eu nunca soube o que era isso, e olhe que já matei pessoas de todo tipo, mas dessa vez, foi como um tiro no meu próprio pé. Não consigo parar de pensar que matei alguém que m*l teve a chance de ver a luz, em tese. Um anjo. Tive repulsa de mim mesmo por ter feito isso. Só podia ser mais um sinal da volta de Cristo, porque para me fazer sentir algo assim, com certeza eu fui uma das almas escolhidas para ir para o céu. Okay, estava até poético! Isso já é demais, melhor eu ir dormir antes que comece a recitar Shakespeare na sacada. Minha cabeça se afundou no travesseiro, fechei os olhos mas não há sono, não quando aquela mulher não saia da minha cabeça. Encarei todo o luxo falso do meu quarto, não faz tanto sentido assassinar pessoas por isso - pensei. Fiquei encarando a luz fraca no teto. Uma Bíblia estava destacada dentre alguns livros em uma estante no canto do quarto - nem sabia que tinha uma. Me levantei da cama e a retirei da estante, havia de ter algo aqui me aliviasse a culpa. *** Não pisquei os olhos à noite inteira, pensei tanto sobre a salvação através do arrependimento, e me questionei tanto sobre se eu realmente me arrependi do que eu fiz. Mas, por mais que eu sinta uma culpa sobrenatural, eu não me arrependo de nada que eu tenha feito. Tomei um banho e vesti um moletom cinza para começar o dia correndo, talvez isso fosse distrair o meu subconsciente traíra e culpado. Em plena 6:00h da manhã só um louco poderia estar correndo quando os termômetros nas praças marcavam 3°C. Parei uns 5 segundos para respirar aquele ar cortante, tempo suficiente para um senhorzinho passar distribuindo papéis sabe-se lá sobre o que. m*l tive tempo de recusar, o velho quase jogou o papel na minha cara. Revirei os olhos, ele nem sequer perguntou se eu queria. Voltei a correr até uma cafeteria, onde enfim lembrei que ainda dependo de comida pra viver. Peço um cappuccino e uns pães de queijo. Enquanto esperava no balcão para que entreguem meu pedido, puxei o papel que o velho me deu já me preparando para enfiá-lo no lixo, mas então, algo me chamou atenção, uma cruz ocupa grande parte da imagem. Desisti de dá-lo de presente ao lixo e comecei a ler. Logo que meu café da manhã chegou, não pude deixar de reparar na atendente, os cabelos eram castanhos, quase loiros, os olhos castanhos como a terra depois da chuva, os lábios eram o fruto da tentação, quase em formato de coração (não imaginem um mangá japonês), as mãos eram delicadas como uma rosa desabrochando, definitivamente aquela era a garçonete mais bonita que eu já vi. Quase esqueci de pagar a conta. Voltei para casa pensando, em algo que não seja "matei um bebê", mas sim, em "atendente de perder o fôlego até morrer asfixiado". As ruas começaram a ficar movimentadas, e que Deus me perdoe por isso, mas o excesso de gente f**a naquele lugar é de querer ficar cego para não ter que ver. Mas que fique bem claro, que eu não coloco defeito em ninguém, foi Deus que colocou, eu só comento. - Sr. Verniaiev. - o porteiro cumprimentou por pura educação. Afinal, sabe aquele tipo de vizinho querido, que todos gostam? Então, esse definitivamente não sou eu. Olhei para o meu pulso, onde está um típico relógio esportivo de enfeite, porque eu já virei esse negócio do avesso tentando ver onde diabos marcam as horas. Deixei o relógio de lado e saquei o celular - pensaram que era uma arma, né? - já era 10:00h e o Sol estava queimando até meus órgãos. Vai fazer calor tudo bem, mas isso aqui não é calor, é o churrasco no inferno e eu, a picanha na brasa. Fechei a porta e tirei a blusa de frio e a camiseta de uma vez. Isso que acontece na Espanha não é minimamente normal! Passei duas horinhas no Sol e já sinto o câncer de pele. E ainda por cima, passa aquela arrumadeira gostosa na minha frente... Enrique, isso não é por causa do Sol, é o seu fogo mesmo! Escutei meu subconsciente jogar na minha cara o quanto eu sou depravado, e o quanto eu queria pegar a arrumadeira. Respirei fundo três vezes, parece treinamento de grávida antes de ter filho. Peguei meu meu notebook para ver o dinheiro na minha conta aumentar cada vez mais, são milhões, acumulados com os assaltos e os investimentos. Pelo visto, uma vez na vida Tierie conseguiu fazer uma lavagem de dinheiro rápida - pensei. E d***a! Lembrar da minha vida criminosa, me lembrou a m***a de culpa que eu já tinha até esquecido. Oh céus! Quanto mais tempo isso vai durar? Desse jeito não vou conseguir nem gastar dinheiro. *** 10 FEVEREIRO DE 2015 Já fazia uma semana desde de que assaltei o banco da cidade, e ainda não conseguia tirar da cabeça aquela mulher gravida. Eu estou ficando louco! Toda vez que eu saia na rua, aparecia alguém esfregando papeis de igreja na minha cara. Isso deve ser alguma conspiração, só pode. Bem, depois de tudo isso, resolvi que iria me confessar com o padre, esperando que ele não me rogasse uma praga depois de eu contar que fiz tudo que não podia fazer segundo a Bíblia, quebrei até os pecados que não estavam nelas. E o mais importante, espero com todas as minhas forças que o padre não me denuncie. Estava saindo de casa quando Julia - a arrumadeira - surgiu na minha frente, com um sorriso de orelha à orelha: - Vai aonde, Enrique? - ela perguntou com um sorriso inocente. Mas se Julia é inocente, então, eu vou para o céu. - Não te dei essa i********e. - respondi encarando-a de cima abaixo. - Ui, vejo que acaba de tirar as ferraduras da brasa. - ela riu como um personagem de desenho animado. - Julia, pare de atormentar o Sr. Verniaiev, não vê que ele já é muito atormentado? - Rebekah, a governanta, repreendeu. - Sou? - questionei. Será que até elas já sabem que estava sendo castigado com dias de tormenta? - Desculpe, Sr. Verniaiev. - Rebekah mordeu o lábio envergonhada. - Sai daqui, Rebekah. - Julia falou dando uma piscadela. - Então, Enrique, hoje eu posso sair mais cedo para encontrar meu namorado? - Nem fodendo! - me apressei em dizer. - Não fale assim, ou eu largo meu namorado para f***r com você. - Julia sorriu com malícia e diversão, essa criatura não presta! - Adultério é pecado. - lembrei-a, copiando seu sorriso perverso. - Roubar também, e nem por isso você deixa de fazer. - a encarei assombrado e a puxei para um canto. - Você é tão discreta quanto um carro alegórico! - reclamei. - Andou amolando a língua? - Sabe que andei... para ficar bem afiada, só esperando o momento que você vai me agarrar. - ela falou sorrindo. Como eu dizia, falar que essa garota é inocente, é o mesmo que dizer: "o perfume da m***a". - Acho melhor você tomar cuidado, ou vai acabar ficando sem língua, Julia. - disse irônico deixando-a para trás. - Ah, se eu te pego. - escutei Julia dizer. Quando cheguei na igreja, procurei o padre por todo lado, e recebi a informação de que ele não está. Oh m***a! Me sentei nos degraus do altar e fiquei esperando, uma hora o velho aparece. Vez ou outra aparecia alguém para acender uma vela por um parente perdido, e eu? Nenhuma morte mexeu comigo, com exceção, da minha cruz. Estive encarando fixamente o chão coberto por um tapete vermelho, e os bancos de madeira escura postos de lado à lado da igreja. Até que escutei o som de passos e logo depois um par de botas pretas femininas, ergui meu olhar até o rosto da garota. Seu olhar pousou sobre mim com tamanha doçura - é sempre assim até eu anunciar o assalto. - O que você faz sentado aí, sendo que há bancos a menos de dez centímetros? - ela questionou meio óbvia. - Nem tinha notado. - sorri - Mas até que esse degrau é confortável. Ela se sentou ao meu lado. - Eu já estive sentada aqui várias vezes esperando respostas, é realmente confortável. - ela exalava tristeza em um longo suspiro. - Hoje é o aniversário de morte do meu irmão. - Meus pêsames. Ele morreu como? Desculpe a indiscrição. - perguntei. - Ele morreu num assalto, tiro no peito após tentar fugir há 7 anos. - ela falou com um sorriso torto. Será que para todo lugar que eu for vai ser isso agora? Todos perderam alguém importante num assalto? Eu já comecei a achar que foi uma má ideia ter vindo. - Eu preciso me confessar... - murmurei me abanando com a mão. - O padre deve chegar daqui a pouco. Você parece tenso. - Se eu não me confessar e morrer nas próximas horas eu vou queimar no inferno. - Puxei meus cabelos em frustração. - Não fale dessa forma, se você está arrependido, seja lá o que você tenha feito... tenha certeza de que foi perdoado. - ela lançou um sorriso amigável e jogou um braço sobre meus ombros em um abraço meio desajeitado. - Eu sou uma criatura h******l, se eu for pro inferno é capaz de o d***o me mandar de volta. - sorri me divertindo com a ideia, mesmo que não fosse lá algo muito feliz. - Seja lá o que você tenha feito, deve ter sido muito ruim... - Foi. - interrompi antes que ela falasse sobre o arrependimento que eu não sinto. Tudo que eu sinto é culpa, mas eu não me arrependi da forma com a qual eu levo minha vida. É divertido. - Eu... vou acender uma vela para o meu irmão. - Ela se levantou e foi até o altar das velas. - Eu acho que vou voltar mais tarde. - disse me levantando e caminhando até a saída, quando o padre apareceu. - Eu preciso falar com você padre. - Hoje não é dia de confissões. - ele falou andando para a sacristia. - Mas padre, eu preciso me confessar. - insisti. - Já disse que não. Comecei a ficar irritado, e isso significa que internamente estava passando veneno na língua e colocando as ferraduras na brasa. - Mas pra que serve um padre que não escuta a confissão de quem precisa? Você vai pro inferno! - adverti. Mesmo sabendo que quem ia ver o capeta de perto era eu. - Por Deus! - o padre falou parando para me encarar com toda a sua velhice. Não imagine, ele vai tirar a velhice para me olhar. - Vai me escutar ou não vai? - perguntei. Ele pensou um pouco. - Preciso te lembrar que Deus não aprova a anti-solidariedade? - Tudo bem. Venha. Entrei no confessionário. - Pode começar. - o padre falou. - Padre, eu sou um assassino. - Jesus Cristo! - ele fez o sinal da cruz. Consegui ver pelas frestas. - continue. - E eu também sou assaltante. Faço isso há anos, matei mais pessoas do que posso contar. Mas na semana passada, eu matei uma mulher grávida e agora estou enterrado na culpa. - Você não precisa de uma confissão e sim de um exorcista. - Qual é minha penitência? - perguntei. - Pergunte ao juiz! Você é um demônio. - Padre, eu vim aqui para aliviar a culpa e não pra ficar mais culpado e ainda por cima me sentindo um demônio! - disse irritado. - Sinto muito, mas mentir é pecado! - E chamar as pessoas de demônio, não é? - comecei a discutir até com o padre, não há um lugar nessa vida que eu possa ir sem brigar com alguém? - Tudo bem, eu sugiro que você vá para casa e reze até a morte, venha em todo dia a igreja... - Padre, eu tenho o que fazer! - Quer ser perdoado ou não? - Quero. - Então cala a boca e escuta. Eita, esse é o espírito, Padre. Meu subconsciente falou. - Tá bom, padre. - Você pode vir nas missas de fim de semana, faça ações beneficentes, e é claro, dê tudo que você tem aos pobres. - Tá doido? Se eu der tudo que eu tenho, eu deixo os pobres ricos e viro um mendigo, pode tirar essas idéias da cabeça. Ações beneficentes tudo bem. - me apressei em dizer antes que ele falasse para eu ir me entregar para a polícia. - Só assim você poderá chegar ao reino dos céus. - ele explicou. - Seu padre, eu não chego nem aos reinos da Terra, quanto mais aos do céu. - disse sarcástico. - É uma metáfora, e******o! Agora, sai fora que eu tenho mais o que fazer. - Ei padre, seus fiéis sabem que você tem a boca suja e está tão condenado quanto eu? - questionei rindo. - Se você vai para o inferno, não rogue praga em quem está salvo! - ele falou irritado. Arregalo os olhos. - Deus te perdoe, padre. Voltei para o local das missas e a moça de cabelos castanhos e botas pretas, ainda estava de joelhos em frente a uma imagem de Jesus segurando uma vela branca. Fiquei observando-a, seus olhos estavam fechados, mas uma lágrima ainda rolou por suas bochechas, e agora eu tenho mais uma culpa para carregar. Algo me diz que fui eu quem matou o irmão dela. Não seja b***a, Enrique! Você não é o único assaltante da Espanha. Ela se levantou com um sorriso fraco, se espantou ao me ver ali encarando-a feito um i****a. Ela sorriu. - Se sente melhor depois de se confessar? - ela perguntou colocando as mãos no bolso da jaqueta de couro. - Não sei se sentir um demônio é bom. - respondi ironicamente. - O padre disse que eu era um e que precisava de um exorcismo. - DEUS! Não leve isso a sério, ele deve estar louco! - ela falou inconformada. - Deixa pra lá, eu acho que já te vi em algum lugar. - analisei seu rosto corado. - Qual seu nome? - Raquel Miralles e o seu? - Enrique Verniaiev. - disse. - Acho que nunca te vi antes. - ela disse. - Eu preciso ir trabalhar agora. Adeus, Enrique. - Até mais, Raquel.  
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