Capítulo 2

2370 Palavras
Continuei prostrado de frente ao altar, fazendo sabe-se lá o que, eu não consigo enxergar meu próprio rosto, mas eu senti que estava com cara de retardado imaginando a garota de cabelos castanhos. Encarei a mesma imagem de Jesus a qual ela estava ajoelhada em frente, sorri quase que involuntariamente: - Obrigado, cara, trinta minutos na sua frente e já me sinto melhor. - disse as palavras quase sem perceber. Saí da igreja andando sobre o tapete vermelho lustroso que me levou até os portões. O Sol bateu contra o meu rosto queimando meus olhos, devia estar perto do meio-dia e eu ainda não havia comido nada, apesar de não estar com fome no momento. Tirei o casaco preto e joguei no banco do carro após entrar no mesmo, dirigi para longe, os altos monumentos estilo medieval ficando para trás, coloquei uma música para tocar enquanto o trânsito começava a crescer perto de um pedágio, comecei a tocar a música com os dedos no volante do carro. Cheguei em casa cansado de tanto esperar no trânsito, pedi para Rebekah avisar a cozinheira para preparar o almoço, e depois fui para o meu refúgio da testosterona. Tirei a camisa branca e a deixei sobre um banco, e andei até a esteira queimar as calorias que não tinha desde que não conseguia mais comer direito. Peguei meu celular do bolso da calça e coloquei uma música para tocar enquanto corria, senti toda a adrenalina e a fome fazerem parecer que meu estômago grudou nas costas. - Enrique? - Julia chamou atrás de mim. Parei a esteira e encarei-a, seu cabelo estava preso em um r**o de cavalo e seu uniforme... parecia uma fantasia s****l para os meus olhos, era um vestido azul claro que ia até a metade das cochas e um avental branco por cima. - Rebekah me mandou trazer para te entreter enquanto o almoço não fica pronto. Julia colocou a bandeja cheia de frutas e lanches básicos em cima de uma mesa. - E o que mais tem para comer? - Questionei com um tom de malícia. - Eu. - Ela sussurrou perto do meu ouvido. - O que seu namorado diria, se soubesse que você está com ele, mas só pensa em t*****r comigo? - perguntei bem perto dela. - Ele só iria saber se você transasse comigo, porque só de você me dizer "vou te f***r" eu terminava o namoro, o casamento, a paternidade. - Julia falou rindo divertida e maliciosamente ao mesmo tempo. - Acho que eu sou o cara que você mais quis levar para cama. - analisei. - Claro, não há homem mais difícil que você nesse mundo, Enrique! Eu pensava que bandidos eram todos fáceis, mas com você é mais difícil que chuva no deserto. - ela falou cruzando os braços. - Mas às vezes chove... - Chove para todo mundo, menos pra mim, no meu caso só troveja a chuva que é bom nada. - Julia reclamou fazendo um biquinho triste. Sorri. Segurei seu queixo entre meu polegar e o indicador levantando sua cabeça e a beijei, apoiei sua nuca com uma mão enquanto a outra desceu lentamente por sua espinha. Nossas línguas se prenderam uma a outra, mordi seu lábio, ela jogou os braços pelos meus ombros. Encostei-a na parede, Julia passeou suas mãos pelo meu peitoral nu. Nos separamos por falta de ar. Julia me encarou e sorriu de orelha à orelha: - Realizei meu sonho quase impossível. - ela soltou um gritinho e me deu um beijo no canto dos lábios. - Imagina quando minha amigas souberem que eu beijei Enrique Verniaiev. - Julia, elas não vão saber, e se você contar não vai ter mais duas coisas muito importantes, seu emprego e eu. - avisei-a, Julia suspirou desgostosa mas cedeu. - Então a gente vai ter um caso escondido? - Julia deu pulinhos de alegria. - É Julia, chame do que você quiser. - Enrique, você é o melhor bandido do mundo. - ela falou se apoiando em uma das esteiras. - Quer um Bourbon? - Você sabe que eu só bebo em comemorações. - disse pegando um cacho de uvas da bandeja. - E eu também sei que você adora comemorar. - ela riu da minha cara. - O Deus grego comendo uva. - Depravada. - murmurei voltando a comer minhas uvas. - Falou o inocente. - ela revirou os olhos. - É difícil, mas de inocente não tem nada. - Vai trabalhar, Júlia! - falei com uma sombra de irritação. - Já vou, gostoso. - ela deu uma piscadela indecente antes de sair porta a fora. Sorri. Voltei para a sala de estar onde um noticiário estava passando na TV, catei o controle e já me preparei para colocar no Telecine, porque olha a minha cara de quem paga a TV paga para assistir jornal 24h. Quando enfim, percebi que estava passando uma reportagem sobre o assalto da semana passada, o marido da mulher aceitou dar entrevista. Quanto drama! Ele estava quase chorando, só para mostrar para o governador que merece pensão pela morte do cônjugue. "O desgraçado que matou minha esposa, com fé em Deus irá morrer de forma pior!" - o cara disse com amargura. Isso lá é coisa que se deseje para Deus, jovem? Ainda bem, que tudo que vai volta. Esse aí vai morrer com tiros a queima roupa. "Até o momento não sabemos nada sobre os assaltantes, os carros estavam sem placa, e ninguém que os tenha visto continuou vivo." - A entrevistadora falou encerrando a reportagem. - Olha ele, na Tv. - Julia passou rindo. Eu mato essa garota por ela ser tão indiscreta. Julia trabalha aqui há uns três anos, sempre disse que tinha namorado, mas que o sonho dela era me pegar - um exemplo claro de fidelidade - ela era oferecida, nem se importava em disfarçar, mas eu tinha que admitir que ela era a única (com exceção dos meus colegas de trabalho) que sabia das minhas facetas. Bem, o namorado de Julia eu nunca vi. *** 11 DE FEVEREIRO DE 2015 Acordei com uma luz potente batendo na minha na minha têmpora, senti um toque irritante no meu abdômen, me mexi na cama no intuito de fazer parar, por fim acabei abrindo os olhos. Andressa estava deitada na minha cama, cutucando meu corpo gostoso. Essas funcionárias estão cada dia mais assanhadas. Encaro-a com cara de poucos amigos - não como se eu tivesse muitos. - O que você está fazendo aqui? Pensa rápido. - contei mentalmente 3 segundos para ela falar algo plausível, para estar me assediando. Fala como se não gostasse, seu t****o! Cala a boca, subconsciente i****a. Mas que estava duro, não dá pra negar. - Te acordando. Se não fosse gostoso eu batia as panelas, mas o tratamento é especial quando é contigo. - ela mordeu o lábio lentamente me olhando com aquele olhar 43. - E também porque você sabe que eu sou exigente, se o tratamento não fosse especial seria melhor começar a imprimir os currículos. - me levantei da cama indo em direção ao banheiro. - Exigente até demais. - Andressa reclamou ainda sentada na minha cama. - E tire seu traseiro daí e vá trabalhar, preguiçosa! - ordenei segundos antes de fechar a porta do banheiro. Encarei meu reflexo no espelho, por trás de toda a camada superficial que todos vêem, um cabelo preto, completamente liso e molhado depois do banho, algumas mexas caindo sobre minha testa, um rostinho bonito que nem as com namorado (Julia) resistem, os olhos castanhos como o da maioria das pessoas no mundo - pelo menos eu tenho menos chances de ficar cego -, o bronzeado tradicional. No fundo, lá estava eu, o cara que cumpre o papel de anjo da morte, que mata até pessoas que não nasceram. Me senti a pessoa que impede que o mundo não fique muito populoso. Afinal, como eu esperava um perdão divino depois de tudo que eu fiz? Nem minha mãe se estivesse viva conseguiria olhar para a minha cara, e olhe que eu era o "bebê" dela. Podem rir, eu deixo. E o pior de tudo, é que não há motivo para nada que eu tenha feito, não foi um passado triste ou traumático. Ser r**m só vale a pena quando você tem um motivo. A partir do momento em que você faz porque você quer, e sem sentir nada, dos dois, um, ou você é um demônio ou um psicopata. Naquele momento, eu pelo menos sabia que não me encaixava em nenhuma das alternativas, porque a culpa que estava sentindo nos últimos tempos, é como se todos os meus assassinatos estivessem voltando para mim, alma à alma, cada vida que eu matei, cada sonho que eu destruí, voltando todos pra mim em forma de pesadelo e culpa. Mas se fosse realmente possível uma luz, até mesmo para mim. Seria possível que alguém, que foi empurrado para o escuro e ficou lá por tanto tempo, poderia voltar a enxergar e viver na luz, mesmo depois de fazer parte da escuridão? Coloquei uma calça moletom preta e uma camisa polo também preta. O dia estava quente, só não saí sem camisa para correr, porque é extremamente anti-elegante. Mirei meu olhar para as janelas de vidro que iam do chão ao teto no meu quarto, deixando o crepúsculo vermelho e rosa as margens da minha visão. Vi que Andressa já arrumou o quarto, e também deixou uma bandeja de café da manhã com algumas frutas. Por isso que eu amo essas mulheres, elas fazem esses agrados mesmo quando eu não vou comer em casa. Terça era meu dia de corrida, ou seja, eu sempre procurava alguma cafeteriaestaurante, mas elas são tão prestativas que deixam algumas frutas pra eu não morrer de fome. Peguei uma maçã vermelha - parecia a da Branca de neve - e comecei a comer, quando vi um bilhete na bandeja, esperando para ser lido, bem a cara de Andressa. "Bom dia, gostoso! Ass: Andressa" Estava prestes a sair de casa para iniciar minha corrida, quando vi Andressa: - Bom dia. - lancei uma piscadela indecente que provavelmente só ela vai entender. Coloquei os fones de ouvido. Ao mesmo tempo que a batida lenta da música me relaxava, minha mente começou a dar os primeiros sinais de vida hoje. Vocês devem estar me achando uma pessoa muito boa, minhas funcionárias parecem minhas melhores amigas. Mas eu usava uma forma de raciocínio, elas não fazem nada além de tornar minha vida mais fácil e divertida, então deem-me um bom motivo para eu tratá-las m*l? Aposto que não tem. Mas para o meu lamento, eu continuei não sendo uma pessoa boa e eu tinha vários fatos que comprovavam isso, até me surpreendia por sentir tanta culpa agora, sendo que já fiz coisas bem piores antes. A Calle De Isaac Peral, no centro de Madrid estava começando seu movimento, pessoas andando para seus trabalhos, outros parando para esperar o Sol e tomar vitamina D, e uns simplesmente estavam ali porque sim. Em especial, as pessoas estavam aqui pela Van Gohg Cafe, assim como eu. É uma das melhores cafeterias da cidade, se não a melhor. O lugar é requintado, logo na entrada de portas duplas se pode ver recriações de obras de Van Gohg, as paredes vermelhas contrastam com o chão de madeira e as luzes brancas no teto. Me sentei nos bancos pretos do balcão, como sempre, já que a maior vergonha que você pode passar na vida, é estar sozinho em uma mesa que era para ter dois, quatro, seis etc. Peguei o menu vermelho com letras douradas e comecei a escolher enquanto o garçom não chega. - O que o senhor vai querer? - escutei a voz leve de uma certa Raquel. Levantei meu olhar para encarar os traços angélicas de seu rosto, que ficam ainda mais belos quando os cachos castanhos estão soltos, o que infelizmente não era o caso. Ela estava com um vestido branco de mangas curtas e um avental vermelho, o cabelo preso em r**o de cavalo. - Eu... - esqueci a pergunta. - Quero dois churros de doce de leite e um Cappuccino. - Enrique? - me encarou incrédula com uma sobrancelha erguida. - Eu sabia que te conhecia de algum lugar. - disse quase sem perceber. Ela digitou o pedido no Tablet em sua mão. - O cliente das encaradas. - ela riu das próprias palavras. Fiquei confuso. - Na outra vez que você veio aqui, me encarou por trinta minutos antes de falar o que queria. - Não foi tanto assim... - pensei na minha primeira encarada fatal. Não deve ter demorado tanto. - Vou entregar o pedido da outra mesa, até mais. - ela se despediu com um sorriso demorado. Quase achei que consegui mesmo congelar o momento. Esperei na esperança de que fosse ela a entregar meu café da manhã, para eu poder dar mais uma encarada. E quase perdi a vontade de comer quando ao invés do anjo, veio essa criatura masculina de 3 metros e meio. Eu mereço! Deixei o dinheiro e uma gorjeta com toda esperança do mundo que fosse Raquel quem pegasse. Parei de admirar as belas obras de Van Gogh e saí do lugar, meu celular vibrou no bolso da minha calça. Atendi a chamada de um número desconhecido: - Sr. Verniaiev? - Sim, quem fala? - Sou da agência de publicidade Power nos EUA, venho avisar que seu investimento foi um sucesso, as ações subiram de preço e a última campanha rendeu bilhões. - Ótimo. Marque uma teleconferência com Kalleb Cross para no máximo semana que vem. - Solicitação feita. Adeus, Sr. Verniaiev. Ela terminou a chamada. E como sempre, meus investimentos foram um sucesso total. Voltei a correr para sei lá onde, só precisava gastar toda essa adrenalina de felicidade, sem precisar acabar com safras de café. Alguns minutos depois meu celular tocou de novo: - Quem é? - Enrique, sou eu, Jacqueline. O médico disse que seu pai tem apenas um mês de vida. É, nem foi tão difícil acabar com a minha felicidade. Senti meu peito se apertar em volta de absolutamente nada.
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