Capítulo 3

2353 Palavras
— Pai? — eu chamei enquanto andava como um soldado do filme que acabamos de assistir. — O que foi? — ele perguntou. — Quando eu crescer eu posso ser igual aos soldados do filme. — perguntei com os olhos brilhando. — Quando você crescer, poderá ser o que você quiser se não fizer a burrice de se casar. — Daniel assegurou. — Pois então, eu não quero me casar nunca! — Esse é o meu garoto. *** — Pai? — O que é? — ele respondeu de forma áspera enquanto bebia seu Whisky sentado em uma poltrona da sala. — Por que diabos você não para de beber nunca? — perguntei irritado. — Pelo menos eu tenho algo pra fazer, e você seu imprestável? Ainda quer ser um soldado? — Só se for para dar um tiro em você! — rosnei. *** — O senhor tem certeza? — a moça perguntou. — Absoluta! Mande esse velho cachaceiro para um asilo de uma vez, não é possível que ele consiga Whisky aí. — Filho? — ele me chamou. — Não faça isso com seu velho pai. — Disse bem "velho pai", vai encontrar com os seus coleguinhas, velho e******o! — rosnei. *** Os flashbacks voltaram como uma enxurrada, cada momento desde quando eu me lembro de alguma coisa. Ele era o que se dizia de "alcoólico não anônimo", bebia todos os dias e todas as horas do dia até que alguém tivesse que prestar o favor de levá-lo para casa inconsciente, balbuciando palavras desconexas e às vezes xingando seu filho inútil que não morreu no lugar da mãe. Era um milagre quando tinha algo para comer na casa dele, já que depois que meus pais se separaram e eu sem sombra de dúvidas escolhi ficar com a minha mãe, ele se afundou de uma vez na cachaça e nos jogos de azar, esse que ele tinha muito, pois perdia sempre uma vez atrás da outra, mas gostava de acreditar que um dia recuperaria todo o dinheiro perdido. Há um tempo, eu o mandei para um asilo no interior de Granada. Até então, nem lembrava da existência do meu "velho pai", mas naquele momento, uma pontada bem no fundo, mas no fundo mesmo do meu pulmão, me faz achar que estava a um passo de sofrer o luto de um pai que eu nem gostava. Talvez fosse pelas boas memórias de quando ainda não tinha discernimento o suficiente para entender o quão tóxico ele era, mas a verdade era que ele tratou de incinerar quaisquer sentimentos positivos que eu pudesse ter por ele não muito tempo depois. Era 9:00h e eu estava sentado em um dos diversos bancos de madeira da Catedral de Santa Maria a Real de Almudena, os vitrais com imagens religiosas vão do teto até a metade das paredes, em alguns pontos até o chão. Os turistas passavam levando suas câmeras para registrar cada momento, das expressões de desalento dos anjos nos afrescos até os detalhes do altar esculpido em ouro. Escutava o som cortante de um violino em uma música lenta e triste. A arquitetura parecia a de um castelo medieval ou dos contos de fada que minha mãe sonhava contar para minha irmã que não chegou a nascer. O padre passou por mim e me viu, um olhar desgostoso. Pois é, nem o padre gostava de mim: — Você aqui de novo! — o padre falou abismado. — Até parece que não está animado com a minha vinda. — falei com sarcasmo e um sorriso cínico estampado no rosto. Claramente ele acreditava tanto na minha salvação quanto eu próprio. — Meu dever como padre é receber todas as criaturas de Deus, e você... — ele me olhou de cima abaixo. — Não é de Deus. — Como tem tanta certeza? — Se eu disser vai ser pecado. — ele fez o sinal da cruz e voltou a seguir seu caminho. Continuei trancado no meu mundinho com todas as lembranças do meu pai voltando como uma tsunami. Eu tinha apenas um mês para odiá-lo, abandoná-lo, ou amá-lo como há 20 anos. Eu podia deixá-lo morrer sozinho ou podia ficar lá ao seu lado, mas no fundo eu sabia a verdade: eu sou egoísta, e nunca estive ao lado das pessoas que mais me amaram, nem sei por que falo isso no plural sendo que só existiu uma e essa foi minha mãe. E nunca me importei com as que não me amavam, lembro perfeitamente do dia em que neguei o pedido de uma moribunda... 17 DE JUNHO DE 2008 Era um dos meus primeiros assaltos, levando em conta que eu tinha apenas 19 anos. Uma loja de conveniência nos confins de Granada, que já estava fechada, entramos pelos fundos. Estava com uma máscara ridícula para esconder o rosto. Havia apenas a atendente do caixa para servir de testemunha. Éramos apenas dois, Josh e eu. Retirei discretamente a arma da cintura e em questão de segundos coloquei-a na cabeça da garota. Ela entregou todo o dinheiro da loja para Josh e eu só precisava não deixar nenhuma evidência: — Por favor, não me mata, meu filho só tem dois anos. — Ela chorou. — Eu não me importo! — Mas em vez de apertar o gatilho, saquei uma faca e a cravei um pouco abaixo de seu coração, o que não significa que ela iria continuar viva. *** Tentei não pensar muito nisso antes que me dê vontade de fazer de novo. Por todos os lugares tinha algum casal com um filho. Eu só precisava de um empurrão para saber se deixaria meu pai morrer sozinho ou iria ficar com ele, e pode parecer frieza da minha parte, mas a mais pura verdade é que eu não me importava, eu só estou tentando sentir... porque se eu não fosse capaz disso, então de que valeria a vidas sem qualquer migalha de sentimentos para marcar os momentos? Queria poder me dar ao luxo de sofrer um pouco. Em todos os anos dedicados ao crime, sempre retirei a vida de pessoas inocentes em minha cabeça porque eram ócios do ofício, se eu não os matasse, alguém eventualmente me mataria, mas a realidade era que havia um certo prazer em ver a vida lhes escapulindo como se tentassem segurar as águas de um rio com os punhos fechados. Escutei passos apressados vindos de trás, não me limitei a olhar, devia ser algum turista que perdeu o guia. Fitei o chão esperando alguma resposta para o meu dilema. Reconheço essas botas... levantei minha cabeça até encontrar os olhos dela, parecia estranhamente apressada. — Parece que o destino conspira a nosso favor. — sorri de canto, pode parecer loucura, mas juro que senti o brilho nos meus próprios olhos. — É, parece. — sorriu de volta. — Antes de você ir, por favor, me ajuda? — Pedi quase sem perceber que pareceu uma clemência, de toda forma, eu não me importava. Ela assentiu. — Estou em um dilema, meu pai tem um mês de vida. Nós não nos damos bem desde meus dez anos, e eu não sei se vou vê-lo ou deixo para lá. Raquel se sentou do meu lado no banco, com exatamente 0cm de distância: — Enrique, essa decisão quem deve tomar é você, mas eu tenho um concelho que infelizmente eu não tive a chance de tomar quando foi a minha vez. Aproveite enquanto seu pai ainda pode dizer que ama você e você pode responder, não espere e não deixe para depois. Meu irmão e eu deixamos, e eu nunca pude me despedir dele. Não espere seu pai morrer para perceber o quanto ele faz falta, não faça como eu. — Seus olhos marejados de lágrimas deixavam suas bochechas vermelhas. Eu não sequei suas lágrimas, mas lhe dei a única coisa que ela parecia precisar de verdade, segurei seus ombros e num impulso a abracei, deixando que todas as lágrimas que ela quisesse chorar caíssem sobre meu ombro. O que mais doía era o fato de eu poder ter matado o irmão pelo qual ela sofre, a culpa corroeu cada pedacinho que restou de mim só de pensar nisso. Raquel foi a pessoa que deu o melhor concelho que eu já recebi na minha vida, e eu podia ser o cara que fez ela sofrer mesmo que indiretamente. Pare de ser dramático, seu inútil! Não há alma para a culpa corroer, aceite. — meu subconsciente retrucou a essa minha crise. E quer saber? Ele tem toda a razão! Mesmo que tenha sido eu a m***r o irmão dela, acontece né? É a cadeia alimentar dos humanos, certo? — Obrigada. — Ela sussurrou no meu ouvido antes de se soltar do meu abraço, e se recompor no banco. — Disponha. Sempre que quiser, meu ombro é seu. — disse sorrindo de lado. O ombro e o resto do corpo, safadinho! — Cala a boca. Depois que Raquel foi embora, mandei uma mensagem para Julia pedindo para ela arrumar minha mala. Já era quase 11:00h e eu estava sem carro, minha decepção e raiva estavam pulando fora da estratosfera. Se eu voltasse andando para casa iria chegar lá só a minha alma, porque o corpo parou pra descansar e nunca mais levantou. Mas se eu pegasse um táxi iria ter que andar mais que um cavalo de carga, porque o maldito Enrique não tem app de táxi. Da igreja até a minha casa nem é tão longe afinal... Rabisquem já as palavras acima, faltava um quarteirão para o meu condomínio, e eu estava parecendo uma vaca com sede, sentia que todo o sangue do meu corpo estava fervendo na minha cabeça. Por que eu não decidi morar na Sibéria? Já estava no meu segundo copo de Milkshake e o calor ainda fazia parecer que estava no inferno, isso devia ser uma amostra grátis de como é lá para eu me redimir, só pode. Cheguei no meu condomínio e quer saber? Dane-se a elegância, estava quase morrendo por desidratação, tirei a camisa que mais parece atração para o Sol. *** Me enfiei na banheira para tentar amenizar o calor. Quando eu era criança minha mãe vivia falando que isso fazia m*l, mas para mim era como manga com leite. Catei meu celular do chão e comecei a iniciar meu trabalho como stalker, pesquisei no f*******: por Raquel Miralles, dentre milhares com o mesmo nome lá estava ela, não vai doer se eu mandar solicitação, vai? Há mais de um século não utilizava essas redes sociais porque finjo que sou ocupado, antes que até eu acredite que não tenha nada para fazer. Vi minha foto de perfil com o intuito de trocá-la: — Queima cruz! — exclamei. Se eu estivesse bebendo algo, certamente estaria tudo no chão. — Isso lá é foto que se coloque de perfil? — briguei comigo mesmo após ver as minhas fotos ridículas de adolescente. A do perfil então, estava parecendo um... um... rinoceronte. Esse perfil era da época, em que a moda era aqueles biquinhos horrorosos, e eu era um adolescente modinha, pra variar. Cancelei a solicitação de amizade e desativei o perfil, com aquelas poses ridículas nem minha mãe me acharia bonito. Saí da banheira já com o novo perfil criado, só precisava que ela aceitasse a solicitação esse tornasse minha única amiga no aplicativo. Seria um pouco suspeito? Talvez. Vesti uma bermuda jeans e uma camisa branca, quando de repente um ar vindo direto da Antártida me atingiu em cheio. Esse tempo só podia estar tirando sarro da minha cara, há pouco estava um calor de fritar ovo no asfalto porque eu estava com um moletom, e quando que me adaptei ao calor, começou a chover um tsunami. — Vocês querem brincar de Sol e chuva, mas se querem saber eu tenho aquecedor pra isso! — Enrique, com quem diabos você está falando? Nem eu sabia, como se não bastasse já estar completamente louco, falava sozinho. Isso é caso de internação? De toda forma, trocar de roupa eu não iria. Minha mala estava no canto do closet, e sim é só uma, porque não iria fazer colônia de férias, só passar uma semana no fim do mundo já está ótimo. — Enrique? — Julia me chamou com uma cara de quem vai pedir algo. — O que quiser pedir, peça de uma vez. — exclamei com pressa, hoje estou com raiva até de mim, preciso de um tempo para pensar. — Como pensas m*l de mim. — ela se fez de ofendida e depois fechou a porta se dirigindo até mim e minha cama. — Eu só queria perguntar se vai demorar muito na viagem? — Só uma semana. — respondi observando Julia se sentar no canto da minha cama com um olhar suplicante. — Quando você não está aqui, nem dá vontade de trabalhar. — ela começou de mansinho. — Nem tente pedir folga de uma semana, Julia. — disse negando com a cabeça. — Então, deixe eu sair hoje com o meu namorado, por favor! — ela uniu as mãos em forma de oração. — Tudo bem, vá para onde você quiser com seu namorado imaginário. — revirei os olhos. — Ele não é imaginário, de onde você tirou isso? — Está na cara, querida. — comuniquei com um sorriso maroto de quem descobriu a mentira do ano. — Aonde você vai? — ela mudou de assunto. — No interior do interior de Granada, ver meu papai. — falei sarcástico. — Pensei que não gostasse dele. — E não gosto. — Então, por que vai passar uma semana com ele? — Ele só tem um mês de vida. — respondi. — Eu sinto muito. — ela aparentou estar triste. — Não sinta, não vale a pena. — disse friamente encarando uma coleção de livros de suspense nas prateleiras. — Quando é o voo? — Hoje à noite. — respondi. — Isso quer dizer que ainda tenho algumas horas para curtir o meu patrão gostoso? — ela me olhou com malícia. — Seu patrão gostoso está com horário disponível. *** — Pai?
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