Olho para Adam, que mostra uma fisionomia enfurecida e decepcionada, ao mesmo tempo. Em sua mão, algumas caixas pequenas de veludo, que indicam conter coisas valiosas. Sorrio para ele, me levantando e meu pai se levanta também.
― Adam! Que bom que chegou. — ele se mostra ainda mais confuso, mas continua parecer irritado. — Esse é meu irmão mais velho, meu pai está fora do país.
― Merlin Persilli! — meu pai se apresenta a ele, com uma postura formal, e lhe estende a mão.
― Ah! — Adam sorri aliviado, percebendo que fez julgamentos errados. — Finalmente alguém responsável por Vivien. — ele aperta a mão que meu pai oferece. — É um prazer conhecê-lo, senhor Persilli!
― Sem formalidades, por favor! — papai sorri para ele. — Apenas Merlin.
― Então, faço questão, que me chame de Adam. — ele continua sorrindo, mesmo quando solta a mão de meu pai e se aproxima de mim. — Isto é para você, Vivien.
Sua voz se torna doce, e ele coloca as quatro caixas em minhas mãos. Seus olhos brilham profundamente, enquanto ele me olha e suspira, acariciando meu rosto. Abro uma das caixas, e nela tem um magnífico colar de ouro e diamantes.
― Não deveria ter comprado joias para mim, Adam. — falo suavemente, fechando a caixa.
― Você vai me recusar? — ele pergunta rapidamente, com uma nota nítida de tristeza em sua voz, e uma expressão quase desesperada, em seu rosto, e uma advertência no rosto de meu pai, atrás dele.
― Eu não disse isso… — sorrio levemente para Adam. — por favor, não tire conclusões precipitadas. — recebo a aprovação no rosto de meu pai, e o sorriso de Adam. — Antes de qualquer coisa, você deve conversar com meu irmão.
― Se ele está no lugar de seu pai, com certeza irei conversar com ele! — Adam alarga seu sorriso e se vira para o falso Merlin. — Podemos conversar em minha sala, o que você acha?
― Acho que poderíamos nos encontrar em casa, depois do seu expediente. Afinal, você tem que trabalhar, e eu soube que você tem uma reunião hoje.
― Faço questão de que você fique para a reunião, Merlin! — Adam diz entusiasmado. — Tenho algumas propostas de crescimento para a cidade, e gostaria da sua opinião em meus projetos.
― Será uma honra, Adam! Aliás, eu tenho algumas ideias que, talvez, você possa aproveitar…
Os dois entram no gabinete do prefeito, conversando como se fossem velhos amigos. Olho para as caixas de joias em minhas mãos, me sentindo desanimada, e as guardo na gaveta de minha mesa, antes de pegar os documentos que tenho que separar, para que Adam os possa examinar e resolver, ou encaminhar para o destino certo de cada um.
Sem ter mais nada para fazer, fico entediada e adianto as horas. Assim, a hora do almoço chega rápido. E vamos to.dos para o restaurante local. O que não foi exatamente uma das minhas melhores ideias… os dois parecem me ignorar, quase o tempo to.do e, quando se lembram que eu estava aqui ao lado deles, é Adam acariciando e beijando a minha mão. Mas continuam conversando, como se eu não pudesse fazer parte da conversa, me deixando de lado e não me deixando falar, mesmo quando tento!
Cruzo meus braços em cima do pe.ito, e fico olhando para eles, de cara feia. O “falso Merlin”, é o primeiro a notar meu descontentamento, e ri baixinho, o que faz com que Adam o olhe sério e pergunte o que está acontecendo.
― Olhe para ela! — ele me aponta e ri um pouquinho mais alto.
― Está entediada, querida? — ele acaricia meu braço, perto do meu ombro. — O que podemos fazer por você? Não sabemos falar sobre coisas de mulher, mas podemos nos esforçar e… então chegar num assunto em comum. — ele sorri para mim.
― Você acha que não sei conversar sobre política? — me empino toda, incluindo o queixo, em forma de desafio. — Ou sobre os esportes? — meu pai me olha orgulhoso, enquanto Adam fica boquiaberto, enquanto falo. — Acha que não sei sobre Rugby ou Futebol? Sabia que, há mais ou menos um ano, inventaram uma modalidade chamada Basquete? No Canadá! Está dentro de uma instituição de ensino superior… por ora. — tomo um gole do meu vinho, e quando Adam se recupera do choque, de me ver falando sobre esportes, abre a boca para falar, mas eu não deixo. — Quer boas ideias para a sua administração da cidade? Que tal, em vez de favorecer apenas as terras de Bucur, você investir no comércio local e diminuir as taxas de impostos? Fazer um incentivo, para que, algumas indústrias venham para cá, com seus grandes salários e, assim, garantir um bom apoio para se tornar governador?
― Me perdoe, querida! — ele me olha pasmo, e fala devagar. — Eu realmente deveria ter te incluído na conversa! Definitivamente, deveria!
― Eu avisei que ela é esperta! — meu pai fala com um sorriso largo.
― Tem razão, Merlin! — Adam ainda me olha admirado, mas se vira para meu pai, mesmo com relutância em tirar os olhos de mim. — Você pode responder por seu pai, enquanto ele está fora? Quero me casar com Vivien! — suas palavras, nos fazem arregalar os olhos suavemente, e também me fazem virar para meu pai.
― Nosso pai vai querer te conhecer, mas minha irmã terá a palavra final. — relaxo um pouco, e descruzo os braços, exalando o ar vagarosamente. — Em nossa família, as mulheres sempre têm a última palavra e decidem seu futuro. — sorrio largamente para ele, enquanto Adam o olha incrédulo.
― Mas… Vivien? — ele olha para mim, e eu desfaço o sorriso rapidamente. — Vai me aceitar, não?
― Vou ter que conhecê-lo melhor, Adam. — falo suavemente, e ele sorri.
― Ótimo! Vou poder te provar que sou confiável, amoroso, atencioso… tudo o que você esperar que eu seja, querida! — ele pega a minha mão e a beija. — Terá tudo o que quiser ter, se estiver ao meu lado. Eu prometo!
Sei que meu pai está se divertindo. A expressão em seu rosto o denuncia! Acabamos as bebidas e voltamos para a prefeitura. E confesso, que havia me esquecido completamente, da reunião com Iancu Bucur. O que me lembro rapidamente, pois ele está nos aguardando, sentado à minha mesa. Respiro profundamente, para controlar a vontade de desmascará-lo na frente de to.dos, e mostro um sorriso educado a ele.
― Vivien! — Iancu mostra um sorriso largo, enquanto diz meu nome suavemente.
― Não é educado dizer assim o nome de uma senhorita que está quase comprometida, Bucur! — Adam fala ríspido, se colocando entre nós dois.
― Ah! — Iancu continua sorrindo. — Então ela já falou sobre nós dois? Mas, aparentemente, não falou quem é o seu futuro marido. — ele franze as sobrancelhas sutilmente, mas continua sorrindo.
― Está maluco? Quem vai se casar com ela, sou eu!
Inesperadamente, Adam se vira para mim e, num movimento rápido, me toma em seus braços e me beija. Sinto sua atitude mudar drasticamente, tornando-se extremamente possessivo em poucos segundos. Tento afastá-lo com a minha mão, mas sem sucesso, então uso a minha magia, para afastá-lo alguns centímetros, e me assusto com o que vejo. Seus olhos estão quase inteiramente da mesma cor, como se as pupilas e as íris fossem uma coisa só. Há apenas um contorno fino e suave, as delimitando, num tom um pouco mais claro que o preto de suas íris e pupilas, quase imperceptível. A parte branca de seus olhos, parecem começar a escurecer também.
― Adam? — eu o chamo baixinho, sentindo seu esforço para voltar a me beijar, enquanto eu o mantenho à distância. Curta, porém segura.
― Eu a amo, Vivien! — ele sussurra. — Não posso mais ficar longe de você! Dane-se o casamento! Mude-se hoje para minha casa, depois nos casamos. Eu não preciso que faça se.xo comigo até oficializarmos, mas não posso ficar completamente longe de você… — sua voz é profunda e etérea, como se não estivesse vindo dele.
― Adam, me solte e vamos conversar, está bem? — falo suavemente, e ele me solta devagar.
― O que está fazendo? — Iancu se aproxima e agarra meu braço, me puxando para perto dele.
― Acalmem-se os dois!
A voz poderosa de Dracus, pene.tra a confusão feita pelos dois humanos. Baixa, mas muito poderosa. Meu pai entrou no “modo semi-deus”. Quando isso acontece, quem o olha, tem a impressão de que ele tem o dobro do tamanho. Ele abaixa a cabeça levemente, e olha por cima, através dos cílios superiores, exalando seu domínio sobre to.dos à sua volta. Até eu estremeço sob o seu poder.
― Merlin, você viu… — Adam começa, mas meu pai direciona seu olhar para ele, que se cala no mesmo instante. Iancu solta o meu braço, e se vira para ele.
― Quem é você? — ele pergunta. — E o quê… — sinto o poder de meu pai agir novamente, quando ele desvia seu olhar para Iancu, fazendo-o se calar também.
― Você já é noivo, Iancu Bucur! — Iancu fica lívido ao ser desmascarado por meu pai. — Sei muito bem o que quer!
― A culpa é sua!
Iancu avança contra Adam, passando por mim, quase me derrubando. Sem pensar, uso meus poderes, e o lanço do outro lado da sala, sem tocar nele, que bate contra a parede, mas se recupera rápido, sem chegar a cair no chão. Ele me olha, arregalando os olhos, e com uma expressão de horror em seu rosto.
― Você é uma bruxa!
Levanto uma de minhas mãos e, com um único movimento, apago de sua memória o que acabou de acontecer. Meu pai estala os dedos, voltado para Adam, e o vejo voltar a si, com seus olhos cor de mel, e o olhar sério, que sempre teve.
― Não é o suficiente… — sussurro lamentosamente.
― Você quer ir embora? — meu pai me pergunta, entrando à minha frente.
― Sim! Por favor.
Respondo baixinho, e ele assente. Então, ele estala os dedos mais duas vezes, rapidamente, e estamos em seu castelo, do outro lado da Romênia. O primeiro estalar de dedos, foi para fazer os dois homens esquecerem, que eu passei por ali. O segundo, foi para nos tirar dali.
― Isto é seu. — ele me estende as caixas de joias.
― Por que trouxe isto? — franzo as sobrancelhas, olhando para ele.
― Adam não se lembra de você, nem que comprou as joias. Ficaria confuso quando as visse, e ninguém vai tocar nesse assunto com ele. Aliás, ninguém daquela cidade, vai se lembrar de você.
― Você apagou a minha estada lá.
― Sim. E suas coisas estão no seu quarto.
― E aquela porta que eu não podia abrir?
― Já dei um jeito nela.
― Você quer dizer que tirou de lá, o que quer que seja, que eu não podia ver.
― De qualquer forma, está destrancada, filha. Pode me fazer um favor?
― O quê? — franzo as sobrancelhas.
― Continue a sua vida! Não fique reclusa como Merlin. Eu vou com você, se quiser, para onde quiser ir, se for o caso.
― Vou passar um tempo aqui. Ainda não sei quanto, mas um dia eu vou sair, está bem? E, prometo, vou andar pela vizinhança, de vez em quando. — emendo, quando ele levanta uma sobrancelha, então ele sorri.
Como prometi, andei pela vizinhança várias vezes, além de fazer pequenas viagens. Até voltei em Vama Veche, totalmente invisível, para ver como estava a cidade, e até cheguei a ver Adam. Coloquei em sua mente, os projetos que havia falado para ele durante o último almoço que tivemos, e o vi ser eleito governador.
Fiquei mais de um século na companhia de meu pai, tentando fazer com que ele me contasse o que aconteceu, durante os dez anos de sua ausência em minha infância, mas sem sucesso. Então decidi ir para Nova York, o que é longe o suficiente de meu pai! E ele decidiu voltar a morar em seu castelo na França, disse que esse pouco mais de um século, longe de seu castelo preferido, era muito tempo.
Chegando em Nova York, pesquisei sobre vários empregos, em diversas áreas. Mas o que realmente me atraiu, foi a polícia de lá. Eu poderia ajudar diversos humanos, como meu pai me ensinou. Eu também parei de chamá-lo de “tio Langsler”, pois as pessoas ao redor do castelo, sempre o chamam de “Vlad Mir”, que significa “Senhor da Paz”, por ele aconselhar, tanto as pessoas, quanto os governantes, trazendo sempre uma solução para os confrontos e discórdias, que lhe apresentam, sendo um conselheiro muito procurado. Aliás, essa nomenclatura o acompanha há muito mais séculos, mas não sei dizer quando começou, já que esse foi o maior período que fiquei com ele, em muitos séculos.
Enfim… estou na polícia de Nova York, como havia dito, adotei algumas regras, mesmo com o meu pai dizendo que sempre irá me ajudar. Ele também me disse que, a reação de Adam, foi um caso isolado, quanto à mudança na cor dos olhos, e que eu devo prestar atenção em outras mudanças comportamentais. Sigo muitas de suas orientações à risca. Outras, como ele mesmo diz, apenas se necessário. Estou há pouco tempo nesse trabalho, e já tive uma promoção. Tenho um parceiro, que posso dizer que é meu melhor amigo, mesmo ele não sabendo o que, ou quem eu realmente sou, mas ele parece não se importar muito com isso, pois sempre diz, que sabe o suficiente sobre mim. Adotei outro nome: Sandra Persilli.
Estamos indo bater o ponto de saída, mas recebemos um chamado de última hora: suspeita de assassinato!