O segundo dia em Alure amanheceu com um céu límpido e uma brisa leve que atravessava as varandas do prédio, espalhando o discreto perfume das hortaliças plantadas na área comum do quinto andar. Sarah estava na cozinha preparando o café da manhã para Henrique quando ouviu a campainha tocar. Abriu a porta e encontrou o Sr. Augusto e a Sra. Helena, sorridentes, segurando uma caixa de papelão cuidadosamente fechada com fita.
— Bom dia, querida — disse Helena. — Ontem, no meio da correria, esquecemos de entregar isso. Encontramos no depósito do pub, junto a algumas coisas do seu irmão que ficaram guardadas depois que ele se formou.
Sarah franziu levemente a testa e pegou a caixa, com certo cuidado. Augusto acrescentou:
— Achamos que seria certo que ficasse com você agora. É algo pessoal dele… e seu também.
Sarah agradeceu com um abraço carinhoso. Os padrinhos despediram-se, dizendo que mais tarde preparariam algo especial no pub para receber oficialmente Sarah e o pequeno Henrique no bairro. Assim que eles foram embora, Sarah levou a caixa para a sala e ficou alguns segundos apenas olhando para ela.
Sentou-se no tapete com o filho ao lado, abriu cuidadosamente a tampa e começou a tirar os objetos com delicadeza. Havia ali um caderno antigo de anotações médicas, um estetoscópio desgastado, fotos de formatura, um broche dourado com o brasão da Universidade de Alure e — no fundo da caixa — um envelope de papel pardo, dobrado com cuidado. Sarah abriu o envelope e retirou uma fotografia envelhecida.
Era surpreendentemente familiar: ela ao centro, sorrindo, com as mãos nos ombros de dois meninos — Henrique, à esquerda, com o sorriso tímido de sempre, e Roberto, à direita, com os olhos vivos e o rosto sujo de barro depois de uma tarde brincando na rua.
Sarah levou a mão à boca, sentindo um arrepio rápido percorrer-lhe o corpo.
Henrique (o seu filho), curioso, se aproximou.
— Quem são, mamãe?
Ela passou os dedos lentamente sobre os rostos das crianças naquela foto, como se quisesse preservar aquela memória com o toque.
— Esse é o seu tio… e este aqui — disse, apontando para o garoto do lado direito — era nosso amigo de infância… Roberto.
O olhar de Sarah se perdeu por uns instantes. Lembrou-se das tardes em que dividiam sanduíches no quintal, das histórias imaginárias que inventavam, das vezes em que Roberto aparecia com os joelhos ralados mas um sorriso enorme nos lábios. Depois lembrou do dia em que eles se mudaram para Salt e nunca mais o viram, e de como Henrique nunca deixou de procurá-lo. Mesmo na capital, seu irmão contratou um detetive particular, vasculhou registros, telefonou para hospitais e escolas… sem nunca obter uma pista.
Sarah apertou a fotografia contra o peito. Lágrimas silenciosas surgiram nos cantos dos olhos, mas havia algo diferente dessa vez: não era tristeza, era uma promessa nascendo.
— Henrique… — disse baixa, olhando para o filho. — Seu tio passou a vida tentando encontrar o nosso amigo. E não conseguiu. Mas eu… eu juro que vou encontrar Roberto. Seja onde for… farei isso por ele.
Deixando a foto sobre a mesa de centro, levantou-se e abriu as cortinas. A vista da cidade se espalhava à frente de seus olhos — edifícios modernos, árvores bem cuidadas e, logo do outro lado da rua, imponente e elegante, erguia-se a Torre Business. O prédio de vidro, com linhas retas e ar sofisticado, dominava o quarteirão. Ao lado dele, um hotel de alto padrão exibia um letreiro em aço escovado: Blake Grand Hotel.
Ela observou por alguns segundos, sem saber que, naquele exato edifício, nos dois últimos andares, trabalhava Robert Blake — o mesmo garoto da fotografia, agora o mais respeitado advogado de direito tributário e familiar do país e Ceo da Blake Holding. No andar abaixo, administrava a holding herdada dos avós; no andar acima, o escritório de advocacia que se tornara referência nacional. Há dois anos havia se mudado para o centro de Alure para acompanhar de perto o início da construção de um gigantesco shopping center com torre médica integrada — projeto que ligaria o hotel, a torre Business e o próprio centro comercial num único complexo urbano.
Sarah ainda estava parada à janela quando uma silhueta surgiu por trás das cortinas de um dos andares superiores da Torre Business. Um homem alto, de terno escuro e postura firme, falava ao telefone, gesticulando levemente. Em determinado momento, seus olhos se voltaram para a rua… bem na direção de onde Sarah observava.
Sem saber por que, ela sentiu uma breve aceleração no peito — e mudou os olhos para a foto sobre a mesa.
“Eu vou te encontrar, Roberto.”