Os olhos de Baekhyun se arregalaram tanto que pareciam que pulariam para fora. Ele subiu as escadas correndo murmurando "de novo não, de novo não...".
Logo subi as escadas atrás dele, ele tentava desesperadamente abrir a porta, mesmo sabendo que não conseguiria. E não é como aquelas cenas de filmes que a gente dá um chute a porta se abre. Eu fui até o quarto dos meus pais torcendo para que as cópias das chaves ainda estivessem naquele mesmo baú. E por sorte, elas estavam, mas não estavam com etiquetas, então teríamos que testar todas as chaves.
Depois de quase quinze minutos – porque tinha muitas chaves – conseguimos finalmente abrir a porta.
Luhan estava deitado no chão do quarto, desmaiado, em sua mão direita tinha uma lâmina e seu pulso esquerdo estava ensanguentado, tinha vários cortes com sangue já seco.
"será que foi isso que o Baek quis dizer com de novo não?"
Baekhyun se ajoelhou perto do loiro e colocou a cabeça sobre seu peito.
— Ele está bem. Ele não se cortou para morrer, só pra se machucar.
— Mas por que ele fez isso?
— Algo me diz que tem a ver com o Sehun! – seus olhos tinham um misto de raiva e preocupação. – Prepara alguma coisa pra ele comer, se ele ficou aqui dois dias ele deve estar muito fraco.
— Tá. – foi a única coisa que eu consegui dizer naquele momento, apenas um "tá", enquanto Baekhyun estava lutando com suas lágrimas para ser forte pelo amigo.
Baekhyun POV
Eu não acredito que o Luhan fez isso novamente, ele havia me prometido que nunca mais tentaria se matar. Isso aconteceu anos atrás quando ele achou que ninguém nunca o amaria, ele entrou numa depressão muito profunda. Por isso que tenho certeza que Sehun é o culpado, principalmente pelo fato de que ele não está aqui.
Sinto-me tão culpado. Eu estraguei o natal e as férias de todos, eu reencontrei a pessoa que mais amo e que me odeia. E não estava ao lado do meu amigo quando ele mais precisou de mim. Eu deveria estar aqui, eu devia cuidar dele como ele sempre cuidou de mim, mas não o fiz. Eu, como sempre, estraguei tudo.
Procurei pelo banheiro alguma coisa que pudesse limpar os ferimentos de Luhan, achei álcool, anticéptico e gaze, ainda bem que tinha algodão e esparadrapo nas minhas coisas, assim poderia fazer um curativo.
Limpei o seu ferimento com o algodão com anticéptico e enrolei seu pulso com a gaze.
Fui até a cozinha e peguei uma garrafinha com água. Voltei para o quarto e coloquei sua cabeça em meu colo novamente, com um carinho lento em seus cabelos comecei a chamar seu nome.
Seus olhos foram abrindo aos poucos, ele movia seus olhos por todo o quarto, mas sem realmente olhar o ambiente.
— Hannie... Tudo bem? – Ele ficou me olhando um tempo, seus olhos se moviam de forma lenta. – Bebe um pouco de água.
Levantei um pouco sua cabeça entornando o líquido em sua boca.
— Vem, vamos pra cama.
O levantei do chão onde ainda estávamos e o coloquei sentado na cama, logo o Yeollie chegou com uma sopa de legumes que eu o ajudei a comer.
Depois de alguns minutos dei o prato vazio para o Yeollie, e o olhei como se pedisse em silêncio que nos deixasse a sós.
— Vamos tomar um banho? Você está horrível! – tentei sorrir, mas sou péssimo com isso.
Ele ainda não tinha aberto a boca para dizer uma palavra. Liguei a torneira da banheira e a deixei encher enquanto o despia. Luhan fazia tudo com movimentos robóticos, seus olhos estavam vazios, era como se ele nem estivesse ali. Eu lavei seus cabelos, passei o sabonete líquido na esponja e esfreguei pelo seu corpo.
— Luhan, o que aconteceu enquanto eu não estava aqui? O que o Sehun te disse? – perguntei de forma calma. Eu já tinha o vestido com uma roupa quente, ele estava sentado na cama entre minhas pernas, enquanto eu secava seus cabelos.
— Ele foi embora Bae. Ele me deixou, ele disse que não sabia se suportaria o fato de que eu fui um prostituto. Eu fiquei com tanta raiva. Mas não sabia do quê. De ter me sentindo ofendido ou de amá-lo tanto que me sinto vazio sem ele aqui. – ele disse tudo em um sussurro, com os olhos ainda distantes, quase como se contasse um segredo. Se eu não estivesse próximo o suficiente nem teria ouvido suas palavras.
O abracei com toda a minha força, o trouxe para junto do meu corpo, eu sabia que não poderia curar os ferimentos do seu coração como cuidei dos de seu corpo, mas eu queria. Queria que ele não sofresse, queria que ele não sentisse isso novamente. Mas sabia que só o tempo o curaria.
Ele se agarrou em meus braços e fechou seus olhos, não demorou para que pegasse no sono, mas não sem antes suas lágrimas silenciosas molharem meu braço.
"My heart is just too dark to care
Meu coração está escurecido demais para se importar
I can't destroy what isn't there
Não posso destruir o que não está lá
Deliver me into my Fate
Me entregue a meu destino
If I'm alone I cannot hate
Se eu estou sozinho, não tenho o que odiar
I don't deserve to have you...
Eu não mereço ter você
My smile was taken long ago
Meu sorriso foi tomado há muito tempo atrás
If I can change I hope I never know
Se eu sou capaz de mudar, espero nunca descobrir"
{...}
Voltamos para Coreia no dia primeiro de janeiro, terça-feira.
Já passou mais de uma semana desde que voltamos, e três que tudo aconteceu. E a última vez que Luhan falou algo foi aquele dia no quarto. Se não dermos comida ele não come, se eu não der banho ele não toma, se não o arrastarmos para a sala ele não sai daquele quarto. Ele não foi à aula essa semana, e eu já não sei mais o que fazer.
Quando chegamos em casa, Sehun já havia passado aqui e levado suas coisas embora. Ele não deixou um bilhete, nem um "muito obrigado".
Chanyeol disse que ele passa reto por si no campus e senta longe nas aulas que ainda tem juntos.
Eu não entendo mesmo o que passa na cabeça daquela criança, mas espero que ele esteja tendo esse tempo pra pensar, espero do fundo do meu coração que ele reconheça as merdas que ele está fazendo.
Eu errei, paguei meus erros com o ódio que meu irmão tem por mim, mas eu tentei acertar. Ele está sendo egoísta e machucando muitas pessoas. O Chanyeol sente muita a falta daquele pirralho e eu odeio admitir, mas também sinto.
Hoje foi mais um dia que Luhan não foi para aula. Eu não entendo porque ele se tortura daquela forma, ele fica deitado naquela cama onde tem lembranças dele, tem o cheiro dele. Isso só vai machucá-lo ainda mais.
(...)
Cheguei em casa e a primeira coisa que fiz foi ir até o quarto de Luhan, ainda faltava uma hora para o Yeollie chegar.
Entrei no quarto e ele estava do mesmo jeito de sempre, em posição fetal murmurando frases de uma música. Eu conhecia toda a música e sabia que ele repetia só as frases que faziam sentindo em seu contexto, mudando o verdadeiro sentido da canção.
"Bury all your secrets in my skin
Enterre todos os seus segredos na minha pele
Come away with innocence
Vá embora com a inocência
And leave me with my sins
E me deixe com meus pecados
The air around me still feels like a cage
O ar à minha volta ainda parece com uma gaiola
And love is just a camouflage
E o amor é apenas uma camuflagem
for what resembles rage again...
Ao que se assemelha a raiva novamente
[...]
My heart is just too dark to care
Meu coração está escurecido demais para se importar
I can't destroy what isn't there
Não posso destruir o que não está lá
Deliver me into my Fate
Me entregue a meu destino
If I'm alone I cannot hate
Se eu estou sozinho, não tenho o que odiar
I don't deserve to have you...
Eu não mereço ter você
My smile was taken long ago
Meu sorriso foi tomado há muito tempo atrás
If I can change I hope I never know
Se eu sou capaz de mudar, espero nunca descobrir
I still press your letters to my lips
Ainda pressiono suas cartas em meus lábios
And cherish them in parts of me that savor every kiss
E as estimo em partes de mim, que saboreiam cada beijo
I couldn't face a life without your light
Eu não poderia encarar uma vida sem a sua luz
But all of that was ripped apart...
Mas tudo isso foi dilacerado...
when you refused to fight
Quando você se recusou a lutar
You couldn't hate enough to love
Você não poderia odiar o suficiente para amar
Is that supposed to be enough?
Isso deveria ser o suficiente?
I only wish you weren't my friend
Eu só queria que você não fosse meu amigo
I never claimed to be a Saint...
Nunca afirmei ser um santo
My own was banished long ago
O meu eu foi banido há muito tempo atrás
It took the Death of Hope to let you go
Tive que perder as esperanças para te deixar partir
And I Won't Listen To Your Shame
E eu não ouvirei a tua vergonha
You Ran Away – You're All The Same
Você fugiu – vocês são todos iguais
Angels Lie To Keep Control...
Anjos mentem para manter o controle"
Eu deitei na cama ao seu lado, minhas lágrimas se misturando com as suas e minhas mãos acariciando seus cabelos, não há mais nada que eu passa fazer... A não ser compartilhar da sua dor.
{...}
Quando Chanyeol chegou eu estava na cozinha lavando a louça. Ele me abraçou por trás e deu-me um beijo no pescoço.
— Desculpe ter chegado mais tarde. Tive que fazer uns trabalhos. Como ele está?
— Do mesmo jeito de sempre. Eu fiz o almoço, o fiz comer e ele voltou a deitar. – me virei ficando escorado na pia, fitando o pano de prato em minhas mãos. – Tô com medo dele não melhorar Yeollie... Está pior que da última vez, e o pior eu sei que ele não vai querer ir a um terapeuta. Isso parte meu coração em mil sabe?! Me sinto culpado.
— Não é culpa sua ele não ter contado pro Sehun. E muito menos é culpa sua o Sehun ser um completo i*****l. Veja pelo lado positivo, essa situação aconteceria de um jeito ou de outro, ainda bem que foi cedo, assim ele não se apaixonou de vez. Poderia ser pior Baekkie, então não se culpe porque você não poderia fazer nada em momento algum.
— Mas é que eu sabia que ele poderia se sentir assim de novo. Lembra quando o Jung... Kyungsoo disse que eu priorizei o Luhan a ele? Era isso que estava acontecendo àquela noite. Só eu sei disso. E apesar do meu irmão me odiar eu não me arrependo de ter ido até o Luhan naquela noite, seria muito mais doloroso eu perder meu melhor amigo e ainda viver com a culpa. Então eu prefiro suportar aquele ódio, que ao contrário de uma morte, talvez passe e ele me perdoe.
Ele me agarrou com força me aconchegando entre seus braços.
Não precisava falar mais nada, Chanyeol era tudo que eu sempre preciso, ele entende o meu ser, ele me decifra, ele restaura e me completa, e eu o amo.
{...}
Três meses e meio já se passaram, Luhan está se recuperando aos poucos, ele come, conversa e está indo às aulas, porque o mais importante ainda é sua profissão, nada nem ninguém tirará esse sonho dele.
Apesar de tudo isso ele ainda não sorri, ele está sempre com olheiras enormes e desarrumado. Ele não vai mais a festas como ia antes de conhecer Sehun, e muito menos ficou com outra pessoa. Ele apenas estuda e fica com a gente.
E Sehun? Esse trocou até mesmo de faculdade, mas ainda está aqui em Londres, por conta disso Luhan nem sai de casa com medo de esbarrar nele. Essa situação é tão complicada, eu não sei o que faria no lugar dele, mas acho que isso já está passando dos limites.
(...)
— Luhan, se arruma, a gente sair para tomar um café.
— Não quero ir.
— Mas não foi um convite, foi uma ordem. Você precisa tomar um ar, respirar.
— Eu fui pra faculdade, já respirei.
— Luhan... Se arruma logo.
Ele bufou e foi para o banheiro tomar um banho.
Meia hora depois já estávamos saindo de casa, Yeollie ia nos encontrar lá também. Era uma cafeteria que não fica longe de casa, íamos muito lá antes de tudo.
(...)
Todos pedimos um pedaço de torta e café. Estávamos a mais de meia hora conversando.
Finalmente Luhan tinha sorrido, eu fiquei tão feliz que sorri ainda mais. Finalmente estávamos ficando melhor – sim, estávamos, pois se ele sofre, eu sofro.
Luhan estava de costas para porta da cafeteria, então não viu o que eu vi. E dou graças a todos os deuses por isso.
Era Sehun, ele estava diferente, devo dizer ainda mais bonito, seus cabelos agora num tom chocolate com a raiz n***a, uma blusa branca lisa com uma jaqueta de couro preta, uma calça — também preta — bem colada ao corpo, um tênis cano médio branco e um cachecol cinza claro solto pelo pescoço.
Ele tinha renovado o guarda-roupa, onde estava aquele moleque que eu conhecia?
Mas não era com isso que estava me importando, era o cara que estava ao seu lado, o garoto tinha os cabelos negros como ébano e os olhos tão azuis que chegava a arrepiar, se não me engano o nome dele é Bryan, ele estuda na mesma sala que o Chanyeol.
Eu não acredito que ele já está com outra pessoa.
Sehun me viu, sua cara não demostrava expressão alguma – bom, nunca demonstrou – ele ficou um tempo parado me olhando, eu aproveitei que Chanyeol estava distraindo Luhan e fiquei encarando.
Não sei se ele se sentiu desconfortável com meu olhar ou com a presença de Luhan, mas ele puxou garoto pelo braço e foi embora.
E fico feliz que ele tenha encontrado meu amigo arrumado e sorrindo, ele não precisa saber que o dia de hoje é uma exceção, não precisa saber o quanto Luhan se sente fraco.
— Bae? Está tudo bem? – perguntou Luhan.
— Aham. – sorri. – Eu só estava pensando em algumas coisas.
— Parecia que estava encarando alguém. – franziu o cenho.
— Que nada. Eu não estava olhando nada específico, só pensando. – Chanyeol me olhou com aquele olhar que diz "vai me contar tudo depois", com certeza ele sabia que eu estava mentindo. Ele estava sentado ao lado de Luhan, também de costas para porta, por isso não viu Sehun.
Voltamos a jogar conversa fora por um bom tempo, esse seria um dos dias muito felizes que eu marcaria no meu caderninho para nunca mais esquecer.
Esse foi o dia que, apesar dos pesares, eu senti minha família completa.