Pré-visualização gratuita Capítulo 1: O Peso do Papel
As mãos de Isabel tremiam tanto que o papel branco em seus dedos fazia um barulho seco e irritante no silêncio da sala.
Ela leu o cabeçalho três vezes. Não era um engano. Não era uma piada de mau gosto. Era um pedido formal de divórcio, assinado pelo advogado de Nicholas e entregue por um mensageiro no meio de uma tarde qualquer de terça-feira.
— Divórcio... — a palavra saiu da boca dela como um sopro, queimando a sua garganta.
A raiva subiu pelo seu peito com a velocidade de uma explosão. Como ele tinha coragem? Depois de tudo o que enfrentaram, depois de cada briga, de cada sacrifício, Nicholas simplesmente mandava a papelada para a casa deles em vez de olhar nos olhos dela?
Isabel soltou o documento sobre a mesa de centro, sentindo as lágrimas de ódio queimarem o canto dos seus olhos. Ela caminhou até a janela da sala da casa aconchegante onde moravam, olhando para o jardim pequeno. A cabeça dela começou a girar, trazendo de volta as memórias de como tudo aquilo tinha começado. A mente dela voltou no tempo, resgatando as lembranças que ela guardava com tanto carinho no fundo do peito.
Ela tinha apenas dezesseis anos quando vi Nicholas pela primeira vez.
Naquela época, a rotina na mansão dos Reynolds era fria e solitária. Seus pais, Adam e Annie, viviam viajando ou organizando festas de gala para a alta sociedade, enquanto o irmão mais velho dela, Michael, passava o dia fora. A única pessoa que realmente dava carinho e atenção para Isabel era Mariah, a cozinheira da família. Mariah trabalhava para os Reynolds há anos e tratava Isabel como uma filha.
Numa tarde quente de verão, Mariah pediu licença aos patrões para que o filho dela morasse no quarto dos fundos da propriedade. O rapaz tinha dezoito anos, estava no segundo ano da faculdade de Administração e precisava de um lugar mais perto do centro para estudar.
Isabel lembrava perfeitamente do dia em que ele chegou.
Ela estava sentada na borda da piscina quando viu um garoto alto, de cabelos castanhos ligeiramente bagunçados, vestindo uma camiseta preta simples e carregando uma mochila pesada nas costas. Quando Nicholas ergueu os olhos e cruzou seu olhar com o dela, o mundo de Isabel pareceu desacelerar. Ele tinha um jeito calado, uma postura séria, mas os olhos dele transmitiam uma bondade que ela nunca tinha visto em nenhum dos garotos ricos e fúteis da sua escola privada.
A amizade entre os dois começou escondida. Nicholas passava as noites estudando na mesa de madeira da cozinha, e Isabel sempre inventava uma desculpa para ir até lá buscar um copo de água ou assaltar a geladeira. Eles começaram a conversar baixinho para não acordar os empregados. Falavam sobre sonhos, sobre música, sobre como a vida de Isabel parecia uma gaiola de ouro e como Nicholas estava determinado a vencer na vida para dar orgulho à mãe.
Não demorou para que as conversas de madrugada se transformassem em algo mais profundo. O primeiro beijo deles aconteceu atrás do gazebo do jardim, numa noite em que os pais de Isabel estavam em uma viagem de negócios. Foi um beijo calmo, doce e totalmente desesperado. Eles se apaixonaram perdidamente. Era um relacionamento bobo, ingênuo e lindo, mantido no mais absoluto segredo. Se Adam e Annie desconfiassem de que a filha herdeira estava apaixonada pelo filho da cozinheira, o mundo cairia.
Aos dezoito anos, Isabel entrou para a faculdade. A distância e a rotina nova não esfriaram o que sentiam; pelo contrário, o relacionamento deles avançou. Eles não eram mais apenas adolescentes dando beijos escondidos no jardim. Tornaram-se namorados de verdade, vivendo um amor intenso e maduro longe dos olhos da família dela.
E então, quando Isabel completou vinte anos, veio o grande choque: o teste de gravidez deu positivo.
Eles estavam apavorados, mas a ideia de ter um filho juntos acendeu uma coragem insana em ambos. Antes mesmo de contarem para qualquer pessoa, Nicholas segurou as mãos de Isabel e prometeu que cuidaria dela e do bebê para sempre. Naquele mesmo fim de semana, os dois viajaram para uma cidade vizinha e se casaram em segredo num cartório simples, selando o amor deles diante de duas testemunhas desconhecidas.
Quando a gravidez apareceu e o casamento veio à tona, o inferno se instalou na família Reynolds.
Adam e Annie surtaram. Gritaram, xingaram Nicholas de interesseiro, disseram que Mariah tinha planejado tudo para dar um golpe no dinheiro da família e ameaçaram deserdar Isabel. Foram dias terríveis de choro e humilhação. Mas, para evitar um escândalo ainda maior na imprensa e na alta sociedade, os pais dela resolveram ceder, mantendo uma fachada de controle.
Adam comprou uma casa simples, longe do bairro nobre onde moravam, e deu o imóvel para o casal. Quando Nicholas se formou na faculdade de Administração, aos vinte e dois anos, Adam deu a ele um cargo de entrada no setor administrativo da Reynolds Corp. Parecia um gesto de generosidade, mas Isabel sabia que era uma armadilha: seus pais queriam ter Nicholas sob o domínio deles, controlando o salário e a rotina do genro.
Para criar a filha, Isabel tomou a decisão de trancar a faculdade. Ela abriu mão dos seus estudos para cuidar da pequena Niah desde o primeiro dia de vida.
Os últimos três anos tinham sido uma verdadeira guerra silenciosa. Adam e Annie nunca aceitaram Nicholas. Toda vez que se encontravam, faziam questão de humilhá-lo, lembrando de onde ele tinha vindo, criticando a casa onde moravam e tentando interferir em cada detalhe da criação de Niah. Nicholas aguentava tudo em silêncio por amor a Isabel e à filha, mas o acúmulo de raiva e vergonha foi comendo ele por dentro. As brigas entre o casal se tornaram frequentes, pesadas e desgastantes.
E agora, o resultado de toda essa pressão estava ali, sobre a mesa.
Um papel de divórcio.
Isabel piscou rápido, voltando para o presente. A nostalgia doce da adolescência evaporou da sua mente, dando lugar a uma fúria ardente que fez o seu sangue ferver.
Ela olhou para o relógio na parede da sala. Era duas horas da tarde. Nicholas deveria estar em sua mesa na Reynolds Corp, trabalhando no departamento administrativo.
— Ele acha mesmo que vai resolver o nosso casamento com uma folha de papel? — debochou Isabel para a sala vazia, a sua voz trêmula de raiva. — Ele tá muito enganado.
Ela caminhou rapidamente pelo corredor até o quarto de brinquedos no andar de cima. A pequena Niah, agora com três anos, estava sentada no tapete colorido, montando um quebra-cabeça de madeira ao lado de Marta, a babá que cuidava dela durante as tardes. Niah era a cópia exata de Isabel: os mesmos cabelos castanhos com reflexos dourados, os mesmos olhos expressivos e a mesma teimosia no olhar.
— Marta? — chamou Isabel, tentando disfarçar o tremor na voz ao parar na porta.
A babá olhou para cima e sorriu amigavelmente.
— Sim, dona Isabel?
— Eu preciso dar uma saída urgente. Você pode ficar com a Niah até eu voltar? Não devo demorar muito.
— Claro, sem problemas! A gente tá terminando de montar a fazendinha aqui, né, Niah?
A garotinha deu um tchauzinho fofo com a mão cheia de tinta de giz, sem perceber a tempestade que estava prestes a explodir entre os seus pais. Isabel deu um beijo rápido no topo da cabeça da filha, sentindo o peito apertar, mas a raiva que sentia de Nicholas era maior do que qualquer outra coisa no momento.
Ela desceu as escadas quase correndo, pegou a bolsa na bancada da cozinha e pegou as chaves do carro.
Entrou no seu veículo, bateu a porta com força e deu a partida no motor. Enquanto dirigia pelas ruas movimentadas da cidade em direção ao centro financeiro, os seus dedos apertavam o volante com tanta força que a sua pele ficava branca.
Nicholas queria um divórcio? Ele teria que olhar na cara dela e dizer isso com todas as letras. Ele teria que explicar como teve a coragem de desistir da família que eles lutaram tanto para construir.
Em vinte minutos, o imponente prédio espelhado da Reynolds Corp surgiu no horizonte. Isabel estacionou o carro de qualquer jeito na vaga da frente, desceu marchando sobre os seus saltos e cruzou as portas automáticas de vidro, pronta para causar um terremoto no escritório do marido.