Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Amon-Rá Dutra
Voltei para o Brasil disposto a ser um cara sério. Vim pelo voo dizendo para mim mesmo: chega de esbórnia, chega de álcool, chega de p**a! Quero dizer; de p**a, mais ou menos, chega, mas nem tanto.
29 anos na carcaça, já tô ficando velho. É a hora de parar de agir feito um garotão. Meu velho ficou todo orgulhoso quando eu disse que voltaria ao meu país e assumiria a Gestão da Produção da Mut-Ísis Fashion, nossa marca de roupas.
O senhor Abraão, antigo gestor e braço direito do meu pai, se aposentou e, quando o senhor Hórus, o todo poderoso me ligou, ficou claro que ele queria ouvir de mim, que eu assumiria essa parte da empresa, por isso…
Adeus, Grécia, adeus, Ilhas Canárias, adeus, Hawaii, adeus, Ibiza…
De manhã, minha mãe falou que o senhor Hórus estava super nervoso. Meu pai preferia que eu tivesse ido para a casa deles do que para o meu apartamento e saísse de lá com ele.
Garantindo que eu chegaria em tempo.
Sei que o medo é que eu terminasse a noite e emendasse com o dia, embriagado no meio das pernas, fodendo a b****a de alguém. Não vou dizer que essa não foi minha vontade, mas estava disposto a mudar, ao menos um pouco.
O terno azul-marinho estava impecável. Sei que o cabelo grande não deixaria o senhor Hórus contente, contudo, cortar estava fora de cogitação. Mesmo assim, o prendi, os pés, eu faria de tudo para esconder, não abria mão do conforto de um all-star, ao menos era de couro preto. Olhei no espelho e estava do jeito que "papai" iria aprovar.
Um perfeito o****o.
A agência deixou o carro na porta do meu prédio pela manhã, assim como eu havia solicitado. Entrei no carro e logo escutei alguns barulhos diferentes. Sempre tive essa mania, herdei do meu pai de ouvir os barulhos fora do normal que o motor fazia. Talvez fosse coisa da minha cabeça, não conhecia aquele veículo, mesmo assim, liguei para a agência, informando, e no mesmo instante, o atendente confirmou que o veículo tinha saído de revisão e que estava tudo bem.
No entanto, tentou me acalmar dizendo que, se algo acontecesse, retornasse a ligação e eles dariam um jeito de me resgatar. Não era o que eu queria, não poderia me atrasar, tinha que ser pontual para não frustrar e decepcionar as expectativas que meu pai estava pondo em mim.
Como o azar sempre gostava de bater na nossa porta, quando a gente menos precisava que ele aparecesse. O carro começou a fumaçar no meio de um engarrafamento e um calor insuportável vaporizava no interior do veículo. Saí e abri o capô, o vapor da fumaça que saiu dele deu até medo que incendiasse. Eu liguei na mesma hora para a agência e eles demorariam um bom tempo para poder chegar aonde eu estava, o jeito era chamar o aplicativo de moto.
Só um veículo de duas rodas conseguiria burlar todo esse trânsito e foi o que eu fiz. Pus minha mochila nas costas, e munido do meu celular, chamei o motoqueiro por aplicativo. Não demorou muito e eu já estava a caminho da empresa novamente, tudo daria certo. Chegaria em cima da hora, mas chegaria em tempo.
No Rio era assim, você passava por avenidas que pareciam um tapete e por outras que pareciam um rally. Tinha uma obra um pouco antes de chegar à rua da empresa. Uma cratera enorme era visível. A água de vala preta, junto ao fedor do esgoto, se sentia à distância. Logo alertei ao motoqueiro que passasse devagar, um respingo disso em mim e eu estaria acabado.
Passávamos sem dolor pelo valão, entretanto, um veículo apressado, buzinando, nos cortou pela direita, o desgraçado ainda não tinha a menor noção de regra de trânsito. Foi assim que o pior aconteceu, o carro passou por cima da poça em velocidade, fazendo um tsunami de água preta de bosta. Deixando eu e o motoqueiro ensopado de fezes e bichos.
— p**a que pariu, seu barbeiro!
A pessoa enfiou a mão para o lado de fora da janela e mostrou o dedo do meio.
— Vai atrás desse filho da p**a!
— É mulher, cara! — o motoqueiro me alertou — Melhor deixar para lá.
— Tinha que ser. Mas aonde eu ver aquele carro, reconheço, e essa aí me paga.
(...)
No breve caminho que estava até a empresa, liguei para minha mãe. Ela já me aguardava na saída de carga e descarga.
— Não existe outra pessoa para chegar aqui assim! — ela reclamou.
— A senhora conseguiu perceber que foi um acidente? Acha que gosto de estar lotado de esgoto da cabeça aos pés?
Ela pôs a mão tapando o nariz e a boca, não suportando o cheiro que emanava de mim.
— Vem, vou dar um jeito nisso.
A senhora Elizabeth, com seu andar de dama aristocrata, segurou meu paletó com a ponta das unhas do indicador e polegar e me arrastou empresa adentro. Minha mãe parou no setor de passar, perfumar e ensacar as roupas masculinas. Não demorou muito e ela saiu de dentro com algumas peças.
Com um tanto apressada, se pôs a me arrastar novamente à empresa. Foi me levando a uma parte que nem eu conhecia. Chegamos em um quarto todo montado e com banheiro.
— Que isso, dona Elizabeth? Meu pai fez um cafofo dentro da empresa para te dar uns pegas?
— Me respeita, garoto! — discorreu rindo — Esse aqui é o quarto de desestresse dos funcionários que ficam bastante desgastados por aguentar o seu pai. Poucos têm as chaves.
— Vai dizer que nunca trouxe senhor Hórus aqui para dar um tapa na lula?
— Já disse para me respeite, seu sem vergonha. Bom se apresse, aí tem uma calça de jeans escuros e uma pólo preta, combinam bem mais com esse seu sapato horroroso, do que o terno. Quando eu sair, passa a fechadura de segurança, vai ficar vermelho lá fora, é sinal para que outra pessoa não entre. Tudo bem que ninguém virá aqui agora.
— Está bem. Obrigado, anjo da minha vida. — fiz um biquinho para dar uma bitoca nela.
— Nem pense em me beijar com esse fedor, vai logo tomar esse banho.
Minha mãe saiu rindo e eu tranquei a porta. Fui para o banheiro, tirei a roupa de esgoto e pus em um saco amarrado. Já estava dentro do box deixando a água cair, quando lembrei da trava de segurança. Não esquentaria com isso. A senhora Elizabeth disse que ninguém vinha aqui a essa hora.
Não havia com o que eu me preocupar.