CAPITULO 4
Ana observava as pequenas figuras encolhidas diante dela, sentindo um nó no peito.
— Crianças? Do que o James estava falando... — A frase morreu em sua boca quando ela finalmente as avistou. Eram quase dez, agachadas entre os escombros, tentando se tornar invisíveis. — Crianças!
Ao notar a aproximação da agente, o grupo entrou em pânico, recuando com os olhos arregalados.
— Oi... ei, está tudo bem. Tudo bem! Eu sou amiga — disse Ana, suavizando a voz e baixando a guarda. Sem entender o que civis tão jovens faziam em uma base militar de alta segurança, ela acionou o comunicador. — Agente Neytan, na escuta?
— Neytan falando. Algum problema, agente?
— Encontrei o grupo de crianças escondidas perto do perímetro. O agente James está em perseguição a um suspeito de alta periculosidade. Vou precisar de reforços para a extração.
— Entendido. Já estou a caminho — respondeu Neytan, com sua habitual eficiência.
Enquanto a logística de resgate era organizada, a quilômetros dali, a perseguição de James atingia seu ápice. Ele e a mulher misteriosa corriam por um desfiladeiro estreito até desembocarem em um platô aberto, cercado por um paredão rochoso intransponível.
James parou, ofegante, mas mantendo a arma em riste.
— Você está sem saída. Renda-se de uma vez!
Uma risada irônica e gélida ecoou pelo lugar. A mulher se virou lentamente, revelando os olhos que tanto perturbavam James.
— Você realmente acredita que pode me prender, agente?
Ela depositou a maleta no chão com calma deliberada e voltou-se para ele.
— Só existe uma saída aqui. E você está entre mim e ela.
Com um movimento fluido, ela sacou uma longa espada katana de uma bainha oculta em seu traje. Antes que James pudesse processar a velocidade do movimento, ela avançou. O aço brilhou sob a luz do crepúsculo. James foi forçado a recuar, desviando-se por milímetros de golpes que visavam seus pontos vitais.
Em um ataque feroz, ela desferiu um golpe vertical. James esquivou-se para o lado, e a lâmina penetrou na rocha sólida como se fosse manteiga. Vendo a espada presa por um breve segundo, James partiu para o combate corpo a corpo. Ele era faixa preta em múltiplas artes marciais, mas a força daquela mulher era sobrenatural. Cada bloqueio dele parecia colidir com uma parede de concreto.
Ela se libertou e, com um chute giratório, desarmou James, pegando a pistola dele no ar. Ela disparou, mas ele rolou por trás de uma pedra, subindo nela e saltando sobre a mulher em um bote desesperado. Os dois caíram, rolando pelo chão emaranhados. A mulher levantou-se com um salto acrobático, recuperou sua espada e avançou novamente.
— Chega de brincadeira — disse ela, o tom de voz mudando para algo mortal.
James recuou, mas sacou um dispositivo de seu cinto — um bastão tático de alta tecnologia que se estendeu instantaneamente. O metal da espada colidiu com o composto do bastão, soltando faíscas. James sabia que um erro seria fatal. Em um movimento de puro instinto, ele conseguiu desviar a lâmina dela e prender o pescoço da mulher contra a parede rochosa, usando o bastão como alavanca.
Os dois ficaram imobilizados, os rostos a centímetros de distância. A tensão entre eles era quase palpável.
— Quem é você? — perguntou James, mergulhando no olhar dela.
— Nada m*l — ela sussurrou, genuinamente impressionada.
Antes que ele obtivesse a resposta, o ronco de um helicóptero surgiu por trás do paredão. O deslocamento de ar e a distração fizeram James baixar a guarda por uma fração de segundo. Foi o suficiente. Ela desferiu um golpe que o lançou para longe. James tentou se levantar, mas uma dor aguda no flanco revelou que ele estava ferido.
— Nos veremos novamente, agente — disse ela, guardando a espada e saltando para a escada do helicóptero, levando a maleta consigo. James só pôde observar a aeronave desaparecer no horizonte escuro.
Minutos depois, Neytan chegou com os soldados.
— Agente, o que aconteceu?
— Ela levou a maleta com o componente — respondeu James, a voz carregada de frustração.
Neytan olhou para o rastro do helicóptero, cerrando os olhos de uma forma que sugeria um reconhecimento silencioso. Por um momento, ele pareceu saber exatamente quem estava naquela aeronave, mas logo voltou-se para o colega.
— Tudo bem, James. Recuperamos as crianças graças a você. Vamos cuidar desse ferimento.
Horas depois, já no acampamento médico, James teve seus cortes tratados. Ao sair da barraca, encontrou Ana e Neytan tentando interagir com as crianças resgatadas.
— Elas não falam — disse Ana, frustrada. — Apenas acenam. É como se estivessem traumatizadas ou... programadas para o silêncio.
James se aproximou, a expressão séria.
— Eu descobri uma coisa. Falei com um dos invasores antes dele apagar.
Após James relatar o que ouvira sobre a "receita" e a distração no laboratório, o clima mudou.
— Então o alvo principal nunca foram as cobaias, mas sim a patente da substância — murmurou Neytan.
— E tem mais — acrescentou Ana, abrindo seu notebook. — Com a ajuda da central, consegui recuperar os arquivos apagados das últimas 48 horas do laboratório. Olhem isso.
O vídeo mostrava os invasores mascarados e, liderando-os, a mulher da manta preta e vermelha. Ela se movia com a mesma precisão letal que James testemunhara.
— É ela — disse James. — Quem é essa mulher?
Neytan, que permanecera em um silêncio sombrio, finalmente falou:
— Katana.
O nome ecoou na barraca. James e Ana o encararam, surpresos.
— Como você sabe o nome dela? — perguntou James, desconfiado.
Neytan respirou fundo, olhando para o vazio antes de revelar o segredo que guardava.
— Anos atrás, na Interpol, tive acesso a documentos de nível Ômega sobre um projeto secreto. Durante os grandes conflitos mundiais, as perdas eram insustentáveis. O governo reuniu os maiores geneticistas para criar o soldado perfeito: imune a doenças, com cura acelerada e força sobre-humana. Dezenas de cobaias falharam, mas uma superou todas as expectativas. Ela era implacável, rápida e letal. Os cientistas a chamavam de Projeto Katana.